A pouco mais de 80km a norte de San Francisco ficam as montanhas Sonoma. A montanha que dá nome ao colectivo de elevações está bem lá em cima, a 751m de altitude, e oferece de um lado uma vista privilegiada sobre o Oceano Pacífico, do outro para o vale de Sonoma. É precisamente aí que Avery Hellman tem vivido nos últimos 5 anos. Aí, num rancho a que chamou casa, depois de ter terminado o curso de Conservação e Recursos na Universidade de Berkeley, centro nevrálgico da cena hippie da década de 60 onde ganhou boa parte do corpo do que viria a ser depois e se espalhou um pouco por todo o território norte-americano, primeiro, e além mares e oceanos depois.

Avery é, em termos criativos, Ismay. A persona escolhida e baptizada segundo uma pequena vila no Montana onde viviam, segundo o censos de 2010, apenas 19 pessoas. Uma espécie de vila-fantasma onde a música dos dias é esparsa mas rica e construída nas linhas das pautas que a natureza escreve com a mestria que só mesmo à mãe de tudo é permitido ter. Avery é, portanto, a voz da proximidade, o toque inocente no vizinho que se conhece desde sempre e com quem se partilha a memória do que foi a infância nas pradarias do midwest. Avery é Ismay: Ismay é a ponte para a consciência do lugar do ser humano no mundo, no elemento natural que é nosso e de nós mesmos mas que é esquecido e colocado como um meio de exploração e expropriação da sua verdadeira identidade. Ismay é o relembrar de quem somos, do que somos, do que fomos e sempre seremos: um pequeno grão de terra na Terra.

Gravado num celeiro com 100 anos, Songs of Sonoma Mountain é o disco de estreia da californiana; é também uma reflexão banhada no estado mais puro da folk e da americana, cantada e idealizada na primeira pessoa. Não na primeira pessoa de Hellman mas sim da natureza e dos seus milagres seguros e sem falhas. Avery acrescenta-lhe meditações sobre o sentimento de pertença e sobre identidade de género de uma forma fluída e sincera como o correr de um riacho. O mesmo riacho, ribeiro, carreiro de pó e sol, onde captou uma série de sons de animais e do vento, o vento das montanhas de Sonoma, que inseriu nas canções de imponência naturalista do álbum.

Ismay é country e o campo. Ismay é folk e é as raízes. Ismay é o que é ser americana, de som e de identidade. Avery é Ismay e é Maio a despontar dias quentes de memórias de hoje e de todos os dias de quem vive na sintonia implacável da natureza. Ao longo de todo o disco, Ismay vai-se desfiando entre dedilhados nas guitarras nuas, contando histórias de vida a acontecer devagar e na urgência do ritmo de tudo. Sempre segundo os ensinamentos de quem a ensinou a escrever, cantar e tocar, os heróis da América feitos canção. Sempre segundo Emmylou Harris, Joan Baez, Patti Griffin, Mississipi John Hurt, Lead Belly e Dylan mas também daqueles que o presente bafejou com a mesma capacidade de entender as canções que geram todas as outras canções. Se se ouvir ao longo de Songs of Sonoma Mountain, as vozes incorpóreas de Angel Olsen, Bill Callahan, Cat Power ou Townes Van Zandt, é apenas porque foram todos abensonhados nos portões mágicos pelos quais se entra na dimensão das grandes e maiores canções folk das curvas que o tempo faz e desfaz.

Estas são canções de quem não sabe ser nada a não ser aquilo que é. Em toda a sua honestidade, em toda a despida confissão de quem está a aprender a ser e fazer, a alinhar as palavras com o canto dos pássaros, a fazer reluzir a melancolia na vibração das cordas da guitarra com o coaxar triste e vivo dos sapos na noite. Estas são canções que encontram a visão catedrática de quem acabou de sair da cidade a (re)encontrar-se com as canções que existem desde sempre à espera de ser contadas pela linguagem da pulsação do planeta. Ismay talvez tenha encontrado forma de contar a forma de fazer folk mais sincera e genuína, daquele sítio no mundo onda a raiz de tudo é simplesmente a simplicidade aperfeiçoada de tudo: no silêncio ruidoso das ruralidades do mundo.

 

Songs of Sonoma Mountain sai amanhã, dia 26 de fevereiro, mas pode ser ouvido já desde hoje e em exclusivo aqui em baixo. É deixar a natureza soprar canções para o nossos pulmões infectados de cidade e não oferecer resistência… quem sabe no final da viagem até Sonoma Mountain se esteja novamente umbilicalmente ligado ao ritmo do globo.