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Olhando para os nomes e títulos com que Victor Håkansson reveste o seu trabalho ficamos com a transparente sensação que algo de muito triste aí vem. Mas é na tristeza que nascem tantas vezes as mais belas e iluminadas obras de arte, senão mesmo as principais e aquelas que de certeza mais marcam os nosso caminhos e os caminhos sinuosos e inesperados da arte. Victor Håkansson é The Culture In Memoriam. Mas estará a cultura castrada e resumida ao papel de memória? Viktor responde logo de seguida ao baptizar o novo single enquanto “We Will Always Love You”. E enquanto alguém amar a arte ela é sempre tanto mais que uma memória, é uma visão vívida e vivida.

Malmö na Suécia acolhe os The Culture In Memoriam enquanto berço do colectivo mutante de músicos e artistas que gravitam em torno das composições e visões em constante turbilhão criativo, politico e emocional de Viktor. Aos cinco anos era o menino do tamborim numa companhia de teatro itinerante e nascido e criado neste ambiente teatral desenvolve uma expressividade e linguagem muito própria. Uma postura livre em termos estéticos e de comportamento levam-no a ser o alvo de uma comunidade assente em valores de direita radical e a ser perseguido ao longo dos últimos anos de escola por neo-nazis.O santuário encontrado contra a solidão de uma alma livre? A música, pois claro. A mesma história de tantos putos ao redor do mundo. Contra a solidão um skate, os Nirvana, vinho tinto, os Refused, a poesia, os Kinks, a criatividade que nasce e flui contra o mundo que teima em correr atrás de ti com um taco de baseball numa mão e uma mente diminuta na outra. Daí até aqui a história conta-se em discos, em colaborações, em palcos, em amizades e admirações e partilhas.

Para cima de vinte e tal músicos engrossam a lista de nomes que emprestam arte à memória da cultura que Viktor teima em manter exuberante. A prova está aqui no single que abre caminho para o novo trabalho da troupe de Håkansson, History’s Dust. Dois temas com tanto de brilhantes como de distintos na sua abordagem, duas linhas paralelas que sem chocarem entre si são dois raios de fogo a rasgar os céus, “We Will Always Love You” – que fica desde já guardado como um dos temas mais cheios e impressionantes dos últimos anos – e “ Foggy Days In Malmö”.

Onde “We Will Always Love You” cresce em grandiosidade épica, também nos aconchega na esperança de haver um sítio – ou um lugar no tempo –, pelo qual vale ainda a pena lutar de violino na mão, de acordeão ao peito. A folk cresce pelos mesmos trilhos de floresta onde os Mercury Rev se sentam a pensar em astronautas, rainhas dos cisnes e outras entidades fantásticas, o chamber-pop trepa às mesmas árvores onde Amèlie pedalava de sorriso em riste e uma lágrima entre a pele e alma nas ruas de Montmarte mas acima de tudo conta as histórias de pessoas como tu e como eu, como aqueles todos e tantos que não encontram aquele espaço que tem o nosso nome cravado a sonhos no mundo. Quantas vezes temos de morrer para viver?

We Will Always Love You, is all about the hometown, the small town and the cradle in which everything that seeks to live is promptly silenced and wither. It is about a child’s desperate rebellion against the fictitious norms of the adult world. It is about how the first attempted escape, at the age of eight, and the continuous  failures have for ever stuck and become part of your personality. You died there on the beach. We all die there. And then it only gets worse.

Do outro lado do single vivem as névoas da cidade dos TCIM. Mais do que o frio nórdico é o ódio e a discriminação triste que assolam as palavras e as ruas de Malmö. O refúgio dos fugitivos inencaixáveis, o álcool, a solidão em formato despido. E se Nick Drake te cantasse canções de guerrilha urbana das margens de um rio desenhado a carvão e cristal?  Sim, é isso tudo, é magia bruta e sensível para Homens frágeis e destruídos. “Just pass me the bootle!

Com o coração na boca e alma na palma das mãos, fica a premiere do single e esperamos que a revolução de todos os dias nasça da Paixão. Contra a monotonia e a alienação um tributo à liberdade.