A nova encarnação dos Viet Cong enquanto Preoccupations – os canadianos viram-se forçados a alterar o nome da banda depois de muita controvérsia, concertos cancelados e até manifestações contra a designação original -, segue já com dois álbuns que partilham imediatamente uma característica comum: os títulos dos temas de ambos os discos, Preoccupations, de 2016 e o fresquíssimo New Material, editado pela Flemish Eye/Jagjaguwar, fazem-se de apenas uma palavra. Uma palavra apenas que acentua a tónica emocional, quase sempre virada para as zonas mais sombrias da mente, das linhas melódicas de essência post-punk da composição a que cada uma corresponde.

Mas sob a égide dos Preoccupations, essa mesma construção melódica enraizada no post-punk que delinea os oito temas deste terceiro longa-duração, não assenta de todo nas coordenadas que se esperam encontrar na bússola de um género que frequentemente repete as mesmas fórmulas. A banda de Matt Flegel pega no esqueleto, no tom, na disposição e transfigura-os numa sonoridade que manifesta claramente as suas influências e a sua direcção, mas que ao mesmo consegue escapar-se da sua bolha e permitir-se embeber de novos elementos, abordagens e equações, condensadas num disco que é post-punk e é, simultaneamente, something else.

Num registo essencialmente sóbrio, com pulsação a meio tempo, sem grandes devaneios explosivos e com um sentido de melodia muito bem destilado, situado a uma respeitável distância das composições mais rugosas dos discos anteriores (embora sempre aconchegado a recantos cobertos de sombras, natural num disco que fala, principalmente, sobre depressão e auto-sabotagem, como confessado por Flegel), os Preoccupations provam que não se esgotam no post-punk e que conseguem pegar nos paradigmas instituídos, moldá-los a seu bel-prazer e tornar as atmosferas típicas da década de 80 num cancioneiro que, não obstante, soa actual e contemporâneo. Do disco foram extraídos os singles “Espionage“, “Antidote” e o belíssimo “Disarray“. Para ouvir em cima.