Regadas a Monster e ornamentadas com fluorescentes tons de amarelo e verde, as Prince Rama voltaram mais uma vez a Portugal para avassalarem o Musicbox com a sua mistura de cor, adrenalina e festa pura. Falaram português e ainda saíram do gig com alguns amigos. O clima que se fez sentir no jovem clube do Cais do Sodré foi absolutamente precioso e harmónico: a banda dançou, cantou e pulou no meio da sua audiência, desfazendo em pedaços a barreira entre plateia e palco e penetrando-a de uma forma hiper divertida fazendo até quem não estava familiarizado com a banda tornar-se num imediato fã. Um concerto que ainda assim foi curto mas que não poupou no rock nem no ritmo e que só veio a corroborar ainda mais a excelente tendência na programação do espaço lisboeta. A história das duas irmãs americanas nesta noite fez-se só de altos.

Porém, ainda foi necessário esperar um pouco antes que a nirvana absurdista das Prince Rama fosse atingida por todos os espectadores presentes. Um ligeiro atraso viu a banda, entre risos e algo encavacada, a correr por entre a zona da plateia até ao palco para penetrarem os bastidores. Maquilhadas e vestidas a rigor da cabeça aos pés, as irmãs Taraka e Nimai trazem também consigo Ryan Sciaino, terceiro membro da banda responsável pela guitarra e sintetizadores. É pouco depois de esta entrada apressada que ressoa uma moda medieval que vem introduzir os três membros deste outfit banhado na iconografia glam e hair metal, que graças à particularidade do seu som, as faz parecer com um brilhante mutante musical.

A banda não perde muito tempo e rapidamente se lança numa rajada rápida de guitarras e baterias velozes bem apetrechadas de delay. Um momento mais garage do que propriamente new age (ou “now age”, como apregoa a banda), que serviu para que lhes perdoássemos a espera e lembrou a plateia o que é que interessa agora: abanar esse capacete. E por muito bom que tenha sido o arranque, tudo o que veio a seguir foi progressivamente aumentando o nível num concerto incrivelmente bem pautado entre dança, interacção, teatros e humor. Encostadas maioritariamente ao louquíssimo Xtreme Now, louva-se a simpatia e a confiança das Prince Rama e a forma como, com a sua liberdade e desanuvio em palco, contagiaram um público que viu uma banda colocar-se ao mesmo nível que ele.

Não existiu um momento que o grupo, entre as suas danças de adolescente a rockar dentro do quarto, não estivesse a olhar alguém das primeiras filas, a fazer festinhas ou até a abençoar a pessoas, para além dos já tradicionais crowdsurfings e escaladas aos balcões laterais. Pulando com sorrisos de extrema alegria, as Prince Rama mantiveram-se aguerridas e eléctricas durante os 45 minutos que estiveram em cima do palco, o que não é nada menos do que a sua música exige. Em “Bahia”, por exemplo, malha providencial de uns faux 80’s, poderíamos estar dentro de um bar qualquer da altura do Scarface, tal era a quantidade de abanar de ancas e mãos no ar comandadas pelo carisma apaixonante de Taraka Larson à medida que a mesma se colocava de joelhos, pulava em 180º graus ao ritmo da música e uivava para o microfone. Já em “Those Who Love Will Live Forever”, o microfone circulou pelo público para que todos contribuíssem como quisessem para o tema.

Há uma forte aura épica no som desta banda, que afirma fortemente a máxima de “dance ’till you die“. A forma como, com uma pequena linha de teclado ou um prolongado uivo por entre os loops de batidas e melodias, as Prince Rama fazem o disco sound parecer algo tão importante e determinante à sua maneira e sem sucumbirem a clichés. Há aqui uma sede inexorável de diversão e relaxo mas também uma escola do rock muito enraizada na raça castiça. Entretanto, há uma veia de estrelato e teatro que convive com um lado de comunidade e comunhão absolutamente comoventes. A forma como a banda se propõe a dar uma festa louca, cheia de exuberância, enfeite e circunstância e fazê-lo como se estivesse a dar um jantar para amigos faz da mesma a festa mais divertida de sempre. “Your Life In The End”, o melhor hino ao sonho em 2016 está a girar em direcção ao seu fim e a banda recolhe para os bastidores.

Pouco tempo passado, Sciaino volta e pergunta-nos se queremos que voltem. Procede então a tocar um reprise da faixa anteriormente mencionada, ornado com um confortável robe branco. Mais tarde, surgem as irmãs, em robes brancos iguais e banda está agora completa numa tonalidade mais pura e sossegada do que anteriormente. Com os sorrisos mais brilhantes que nunca e em contraste com os momentos que se precederam, onde ainda agora dançavam com uma menina que haviam trazido ao palco, as irmãs decidem agora sentar-se e convidam que todos façam o mesmo… em cima do palco. “Ameaçando” não terminar o concerto enquanto o palco não estivesse todo preenchido, viram a sua vontade feita à medida que o tom terno com que se dirigiam ao público fazia antever um momento solene.

Surge então, após a espera que para que a sala se encontrasse em silêncio, uma gostosa rendição acústica de “Shitopia”, ajudada por uma guitarra eléctrica que rodopiava notas entre os acordes. Regressa então a veia mais bluesy e psicadélica da banda para terminar num apontamento de descanso e riso, como qualquer grande noite de arromba. Depois da “última para a viagem“, chega a hora da despedida onde cada um vai para casa curar o corpo. De saída, as irmãs trocam beijos, abraços e cumprimentos com quem as foi ver e o pensamento que imediatamente fica é quando é que será a próxima… Um concerto sem fitas, assente na boa disposição e medido num fartote de passos de dança. Momentos e bandas como estas são preciosos e as Prince Rama afirmam-se como uma experiência musical ao vivo que tem de ser sentida quando houver hipótese. No fundo o que se quer dizer é que foi do caralho.

Olha as Prince Rama pela lente do Carlos Mendes:

Prince Rama @ Musicbox