O nosso querido amigo Luiz Gabriel Lopes, vocalista da banda Graveola e o Lixo Polifónico e membro dos TiãoDuá, convidou-nos a viajar pelo panorama brasileiro no âmbito dos novos lançamentos e movimentos musicais. Uma desconstrução que vale a pena conhecer e acompanhar de mãos dadas com o belo Luiz. Pintando detalhadamente bandas e estilos musicais no actual milénio, o músico descreve com preceito novas e frescas bandas que se manifestam no horizonte brasileiro, sem limites, sem receios, com sons que não deixam nenhuma alma indiferente. Desta forma, não podíamos deixar de parte estas suas palavras. Confiamos inteiramente no Luiz e confiamos, também, nos nossos irmãos brasileiros que, com belas energias e experiências, oferecem músicas que vão direitinhas aos corações. É sempre boa altura para renovar e actualizar os ouvidos, haja disponibilidade para tudo, e, por esta e outras razões, aqui apresentamos a visita guiada do Luiz, marcada pelo olhar de quem está no terreno. Aproveitem, coloquem o volume dos auscultadores bem alto ou subam o volume das colunas, o que preferirem. Partilhem com todos aqueles de quem gostam e, sobretudo, com aqueles de quem não gostam. Ouvir é o melhor remédio. Quebrar fronteiras além oceanos é urgente e, à falta de uma sugestão… o Luiz dá-nos seis.

Baiana System – Duas Cidades

Das grandes revelações do pop brasileiro contemporâneo, o Baiana System é um fenómeno surgido em Salvador, que ao tomar proporções gigantescas em sua terra natal, hoje conquista ouvintes ao longo de todo país. O álbum “Duas Cidades” apresenta os desenvolvimentos da sonoridade eletrônico-percussiva que se tornou a identidade da banda, com guitarras swingadas e refrões com sabor a hino. As letras versam sobre a experiência urbana e suas contradições, com referência na dicção do hip-hop, do reggae e alguns ecos do mangue-beat. Temas como “Lucro” e “Duas Cidades” me parecem hits incontornáveis do momento actual. Mais uma das tantas “produças” altamente do mago Daniel Ganjaman.

Pietá – Leve O Que Quiser

Trio formado por dois músicos cariocas e uma cantora potiguar, o Pietá é hoje das principais referências da jovem música popular produzida no Rio de Janeiro, arrastando multidões para suas concorridas e intensas apresentações. Caminhando por um vocabulário eminentemente filiado à cultura popular, o álbum de estreia da banda apresenta paisagens ligadas à música nordestina, com os pés fincados em tradições como o maracatu, o boi e a ciranda. Vale nomear a bela performance da cantora Juliana Linhares como um dos highlights do álbum, que conta com arranjos finos e um repertório forte, reunindo vários autores da cena carioca. Bastante ligados ao teatro, os três integrantes do Pietá recentemente integraram o elenco do musical “Gabriela”, do diretor João Falcão, em São Paulo.

Chico César – Estado de Poesia

Explosivo álbum de retomada do baluarte paraibano Chico César, que após alguns anos sem um disco de inéditas retorna com uma produção arejada e hits certeiros. Gravado quase todo ao vivo, ao lado de uma banda eminentemente elétrica, o repertório passeia principalmente por temas ligados ao amor, mas não deixa de tocar em assuntos da esfera política, como a discriminação racial (“Negão”) e o desgraçado império da monocultura no Brasil (“Reis do Agronegócio”). Com sua costumeira maestria e malemolência, Chico César revela-se novamente um cantautor de profundidades líricas luminosas e tonalidades bem humoradas, como a apostar na alegria em resposta às trevas.

Ana Cláudia Lomelino – Mãeana

Álbum de estréia da cantora Ana Cláudia Lomelino como solista, produzido por seu marido Bem Gil, com quem integra também a excelente banda Tono. Pop brasileiro da melhor qualidade, que ao flertar com a chamada “mpb contemporânea” sintetiza o que há de mais rico nas sonoridades da cena indie-alternativa carioca. No repertório, canções de Rubinho Jacobina, Bruno di Lullo & Domenico, Adriana Calcanhoto e Caetano Veloso, sobre as quais Ana se mostra uma singular e delicada intérprete. O disco emana uma doce energia flower-power, versando sobre temas ligados à maternidade, ao sagrado feminino, discos voadores e uma adorável atmosfera de psicodelia mística. Easy-listening, sim, mas cheio de camadas que vão sendo descobertas a cada escuta. Dos meus favoritos do período.

Juliana Perdigão – Ó

Após deixar de integrar o Graveola para um bem-quisto mergulho performativo no lendário Teatro Oficina, em São Paulo, e também após o maravilhoso “Álbum Desconhecido”, Juliana Perdigão retorna ao mundo fonográfico com “Ó”, lançamento pelo qual tenho especial carinho e sobre o qual escrevo com total parcialidade, nepotismo musical & lobbismo familiar. Sempre percebi na Juliana uma capacidade meio milesdaviana, essa de escolher um time, selecionar elementos, desenhar pontes improváveis e certeiras com uma artesania rara. Resulta disso um repertório denso e diverso, com arranjos turbinados por uma incrível banda, os inenarráveis “Kurva”. Seu singular timbre vocal ora soa amável, ora agressivo, ora ranhurento, ora doce, mas sempre firme e com suaves tons de ironia. É também atriz a Juliana, comediante: tragicômico niilismo subtil em dias de semana à tarde. O passeio pelas letras do disco apresenta uma urbe meio surrealista, algo desoladora, por onde ainda se desnudam paisagens líricas, em meio aos escombros, além de mergulhos profundos em poesia pura e paganismo celebrativo convicto. Gosto muito de tudo, mesmo, e me parece das coisas que hoje realmente valem a pena. E ainda, me alegro em partilhar este espaço-tempo com a Juliana tendo-a como uma grande amiga.

TiãoDuá – Radio Mandinga

Não posso deixar de recomendar aos ouvintes o recém-lançado segundo álbum do trio TiãoDuá, um dos projetos de que faço parte, um xodó pelo qual tenho imenso afeto. “Radio Mandinga” foi gravado colaborativamente desde 2012, em estúdios na Holanda, Inglaterra e Brasil, durante viagens feitas pelo grupo, e conta com convidados que coloriram a base do trio ao sabor dos encontros da estrada. O inglês Chris Franck (ex-Smoke City), a angolana Romi Anauel (ex-Terrakota) e o trompetista húngaro Barabás Lorinc são alguns dos nomes que participam do álbum, que apresenta 11 faixas inéditas passeando entre o samba, o funk e o reggae. Agradável trilha para alegrar manhãs nubladas, ou meter no talo em dias de sol. Prometido último capítulo mazzaropiano da saga do tião-macacada, de origem macunaímica, em direção aos próximos estágios do arquétipo evocado pela banda. A não perder.

Agradece aí ao Luiz, vá. Ele está em linha!

Luiz Gabriel Lopes

Luiz Gabriel Lopes