A operar num modo guerrilheiro e estiloso de uma natureza de pulmão cheio a puxar para o hino (não tão diferente dos resquícios de um passado punk que o novo disco faz brilhar através da sua linguagem musical presente) Xinobi, em harmonia e conjunção com a sua trupe D.I.S.C.O.T.E.X.A.S., tem vindo a entregar uma nova roupagem e energia à música de dança e ao formato clubbing que com o tempo apenas parece encontrar mais vitalidade e raça. O colectivo português lidera uma armada musical que traz uma mensagem de união, paz e sorriso que afirmam que a pista de dança é sim para todos, reinventando-a e repensando-a de tempos em tempos com olhos postos no melhor do passado e de pé firme no presente. Pessoal mais introspectivo, animais de dança mais ferais, skateboarders, headbangers e shredders, todos têm lugar nesta festa desde que queiram espreitar, pois Xinobi e companhia vão-vos arranjar com certeza algo que não vão querer recusar. Harmonia, ritmo, dissonância, suavidade e pancada têm todos acreditação neste baile.

Fresco de um fim de ciclo de álbum e a antecipar a abertura de outro por dias, Bruno Cardoso esteve no Musicbox para mostrar On The Quiet, a nova colecção de originais que reflecte tanto os nossos dias como a perspectiva mais pessoal de um percurso que o foi levando a ele e aos seus amigos até aqui. Arrojado, progressivo e tingido em doses iguais de luz e derrocadas de guitarras, o disco ergueu-se ao vivo em toda a sua glória num espectáculo que funcionou numa lógica de pista de dança, aquecendo progressivamente e encarrilhando os pés e as mentes dos presentes para eficazmente conduzir um leio até uma apoteose que se livrou do intelecto e apenas reconheceu sentidos e corpos. A escola do clubbing é, naturalmente, central e vital no trabalho de Xinobi, e certamente surge destacada no modus operandi para encantadores efeitos, mas tem sido a sua visão específica e pessoal desta e da música em geral que nos levam – e nesta noite especificamente nos levaram -, para alturas de inquietante e contagiante aventura.

Juntamente com o seu grupo ao vivo, Xinobi encontrou mais do que um ponto de contacto e fez música que verdadeiramente se dá aos corpos e às experiências. Seja na aura encantada e pop aqui representada por Sequin, toda melodia em voz, presença e teclados; na agressividade estilosa da guitarra de Jibóia; no retro futurismo presente no baixo de Vasco Cabeçadas e na boa onda simples e instantaneamente amiga dele próprio como timoneiro, a banda que aqui se apresentou ao vivo eleva-se graças ao ingrediente secreto da diversão e da disposição de paz e gosto com que agarra a sua música. Os riffs e os refrões saem diferentes, dependendo como são encarados, e como o melhor rock ou punk o provaram, Xinobi e companhia são sinónimo de música com feeling. Um feeling muito humano e sincero que fez por uma noite hiper íntima e tingida dos dourados musicais que compuseram o repertório.

Xinobi @ Musicbox

Xinobi @ Musicbox

Começando mornos e discretos, adornados por um beat duro e uma linha de baixo sinuosa ainda que estranhamente familiar que começam a bater nas paredes à medida que os restantes instrumentos foram construindo uma linda passagem ambiental, pouco tardou para que o Musicbox encolhesse ainda mais e a intimidade ficasse atraente e tentadora. Esta sensação iria subir assim que a guitarra começasse a ecoar uma melodia que já faz parte do cancioneiro contemporâneo: a reviravolta que Xinobi deu à “Quando A Alma Não É Pequena” dos eternos Dead Combo afigurou-se como um virtuoso início. Uma vez Xinobi no lead de guitarra, outra vez Jibóia numa troca fraterna que vê a melodia a saltar de lado em lado numa dança colorida pelos sensuais pads controlados por Ana Miró. Acedendo ao pedido, a plateia começou a chegar-se para a frente enquanto o recinto ainda vai enchendo e o calor vai escalando em proporção directa ao ritmo e a força. A partir daqui, de passagem em passagem, o grupo trabalhou um workout colectivo de riffs, passos de danças, muito bass sexy do bigodado Vasco Cabeçadas e o incessante kick, qual maestro sintético que foi moderando e avisando as jams glamorosas e chilled out que criaram uma bolha à volta da banda.

Uma bolha que, tudo visto, só foi crescendo até nos colocar todos bem confortáveis dentro dela. Depois dos 15 minutos em que se “só se tocaram malhas antigas” – como notou Xinobi -, passámos a entrar em território inédito com o novo disco a erguer-se com mais relevo. “Skateboarding” foi um dos primeiros momentos a mostrar-se: uma energética entrega tão ciente do ritmo como da intensidade, e um poderoso exemplo da selvagem oscilação de dinâmicas da qual este disco é fã. Tratados com uma abertura energética e upbeat, rapidamente somos submergidos para um mundo subaquático discreto com o pulsar pontual da drum machine a tomar o protagonismo sonoro. É aqui que o mestre de cerimónias nos pergunta se gostamos de Minor Threat, Fugazi e do nosso passado como skateboarders. “Sim? Então prestem atenção”. Apontando então para a sua caixa sintetizadora, esta, qual deixa, deita para fora nada mais nada menos que Ian MacKaye, eterno ídolo de muitos, a comentar a importância de uma actividade que transcende a questão do desporto e do hobby. Educadamente à espera que senhor acabe, é também em cinematográfica deixa que as guitarras possivelmente explicam a existência de um pedal re-baptizado com fita cola como “CHAPADA”: uma torrente de riffs maiores que a vida, em Marcha Imperial, avassalam o Musicbox e caem por cima de nós. É o nosso sinal para levar do chão.

Xinobi @ Musicbox

Xinobi @ Musicbox

Mais tarde, a exuberância rock n’roll haveria de dar lugar a passagens mais cerebrais, experimentais e progressivas, com passagens de distorção e processamentos de efeitos a fazer caminho para uma autoestrada nocturna que haveria de levar a um momento que cada vez se torna mais motivo de celebração num espectáculo de Xinobi. “See Me” vê a banda tirar outro amigo da caixa. Lazarusman – que é sul-africano e não britânico, como nesta publicação este autor já vos afirmou e que connosco já esteve em carne e osso no Alive! 2016 -, é o MC que nos agarra naquela tomada de consciência em que estamos sozinhos com o beat dentro da nossa consciência. Mais uma vez a sua dicção suave e penetrante surgiu para nos embalar a meio da viagem, como quem nos dá aquele boost e aquela fome latente por mais disto que, inevitavelmente, estará a vir:  Numa nova vaga de calor e ritmo, Margarida Falcão sai da plateia para o palco para ajudar em “Far Away Place”, uma canção feita no alfaiate para a voz espiritual e límpida da tímida Golden Slumber e timoneira dos Vaarwell. Por entre uma contagiada dança ao som da líquida transparência da canção, encantou numa preciosa prestação que levou a banda e a música a lugares mais nebulosos e suaves.

O que fica no fim é um irrepreensível espectáculo ensaiado para impressionar, mas também para divertir e incluir. O que Xinobi consegue fazer em palco é trazer uma dream team performativa composta por amigos e boa vontade, e quando a cumplicidade é assim tão contagiante por entre os risos que vêm do palco e o furor cinematográfico dos seus intervenientes, é preciso muito aço para se sair insatisfeito. Mesmo de t-shirt e calça de ganga (afirmação não aplicável ao glamour dourado de Ana Miró), este conjunto veste-se para matar num espectáculo que é uma constante troca de mudanças entre o suave e o castiço. Longe de ser algo fútil ou sequer funcional, a música que deles se ouve é sim verdadeiramente um escape e um divertimento cheio de vitalidade que quanto muito, nos faz encarar de melhor cara as adversidades deste louco mundo ao invés de querer fugir delas. A música é sim um remédio. É um dos mais recompensadores e importantes elixires da sociedade. Dr. Xinobi sabe disto e com ele e os seus amigos, bem entregue estamos.

Fotogaleria completa do concerto de Xinobi no Musicbox por Ana Santos.