R.E.M. - 7IN - 83-88
85%Overall Score

7 de janeiro de 2005: última visita dos R.E.M. a Portugal! Num Atlântico a meio gás, o quarteto de Athens, Geórgia, veio promover o letárgico Around The Sun. Ao segundo tema, Stipe lança-se no arriscado refrão “Let’s begin again, begin the begin” e o Pavilhão, ávido à espera dos “Losing My Religion”, “Man On The Moon” e “Everybody Hurts” da praxe, gelou sem saber como reagir àquilo, incomodado com o atrevimento da banda. Eu e mais uns quantos fãs da pré-história dos R.E.M. em modo “Respeita os clássicos, man” (repto do “pão de forma” hippie Fillmore à rabugice do Sargento no filme Carros que o meu pequeno vê em loop) apoiámos Michael nos restantes 3:24 de “Begin The Begin” e continuámos a apoiar Stipe naquele regresso a 1986, a Lifes Rich Pageant, último álbum com a chancela da mítica: “Let’s begin again like Martin Luthers in / The mythology begins the begin”. No encore, a banda voltou a atiçar a memória dos que os acompanhavam desde o tempo em que os animais falavam e experimentaram “Finest Worksong”, a abertura de Document (o último álbum antes de Green e o princípio da globalização dos R.E.M.): “The time to rise has been engaged”. O Atlântico voltou a não corresponder, mas já na altura a turma liderada por Stipe estava pouco preocupada em agradar os ouvidos formatados pelos hits.

Para os menos conhecedores, 7IN – 83-88, uma colecção de onze míticos singles em vinil de 7 polegadas que terá semelhanças a uma espécie de objecto voador não identificado, um corpo estranho nos quais só se reconhecem os R.E.M. nos resistentes “Losing My Religion” ou “It’s The End Of The Word As We Know It (And I Feel Fine)”. Para quem, como eu, acompanha o quarteto desde Murmur (considerado álbum do ano em 1983 batendo aos pontos War dos U2 e Thriller de Michael Jackson), esta caixa cai do céu e reúne, da forma mais original possível, o espírito dos anos loucos da I.R.S. Records, dos infindáveis concertos onde eram os fãs que escolhiam o alinhamento ao final de cada tema e uma incrível penetração nas rádios universitárias.

Longe das regras da Warner Bros, os R.E.M. tiveram na I.R.S. Records uma vida de solteiro e 7IN – 83-88 reflecte essa fase frenética onde já se notava não só a excelência da sonoridade da banda (Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry tinham uma sintonia pouco comum e quando tudo parecia caminhar para os caos, tudo se recompunha no último segundo), mas também um Michael Stipe muitas vezes a apalpar terreno, a mudar de voz a cada tema e nem sempre da forma mais feliz). Ou seja, foram anos de treino intensivo, de tentativa e erro, de músicas longe da perfeição e, por vezes, de um mediano trabalho de estúdio, mas a essência dos R.E.M. e provavelmente os anos mais felizes da sua carreira, estão plasmados nestes singles.

Tal como na última visita dos rapazes de Athens, Geórgia, vamos começar pelo princípio. Não por “Begin The Begin”, que não foi selecionado para single, mas pelo início de tudo: primeiro álbum (Murmur, 1983) e single de estreia; mais puro que isto não podia ser. “Radio Free Europe”. “Put that up your wall / That this isn’t Country at all”: haverá maior statement e desafio do que este para quem se apresenta? Olha a petulância dos miúdos! Meus amigos, se querem ouvir country basta mudar de estação, que é como quem diz: nem toda a música popular norte-americana desagua no country. Estamos conversados quanto a géneros e fica a homenagem à rádio que seria transversal na carreira dos R.E.M. Depois, aí vai a homenagem aos Velvet Underground, com “There She Goes Again”, oitavo tema do álbum da banana. Aos vintes, estes putos não tinham medo de pegar nos clássicos.

“Did you never call? I waited for your call”. Um ansioso Stipe começava a revelar-se ao segundo álbum. “So. Central Rain (I’m Sorry)”, terceira faixa do álbum Reckoning (1984), foi escolhido para segundo single e mostrava o amadurecimento da banda, uma maior riqueza musical e uma notória complexidade lírica que se tornaria motivo de admiração e estranheza entre fãs e descrentes na música dos R.E.M. A presença de “King Of The Road” (original de 1964 do artista country Roger Miller) neste single surpreende, porque é um puro devaneio de estúdio da banda, um aquecimento para outra coisa qualquer. Não foi gravado para ser estar num single, mas mostra a banda em momento de descontracção.

O álbum Reckoning deu vida ao terceiro single da carreira. “(Don’t Go Back To) Rockville”, a música mais country da carreira dos R.E.M., fala sobre a tristeza e melancolia das rotinas nas grandes cidades, aqui retratadas em Rockville, que podia ser Los Angeles, Nova Iorque ou qualquer outra cidade do mundo. No Lado B, os R.E.M. regressam ao primeiro álbum, mas para mostrar a versão de “Catapult” (um breve regresso à infância na Georgia) ao vivo; e era no palco que eles se sentiam em casa.

“I’ve been there I know the way”, é o complemento do refrão do quarto single “Can’t Get There From Here”, tema de apresentação do álbum Fables Of The Reconstruction (1985), considerado o álbum mais intrigante dos R.E.M. até à altura. Os rapazes quiseram gravar em Inglaterra e aparentemente nem tudo terá corrido bem com o produtor do álbum. “Bandwagon”, o segundo tema do single, é um convite a entrar na “carroça” da banda, e foi escrito por Michael e a irmã Lynda Stipe. Apesar da estranheza com que Fables Of The Reconstruction foi recebido pelos críticos, o álbum deu origem a novo single, o quinto da carreira dos R.E.M.. “We can reach our destination, but we’re still a ways away” parecia reflectir a dificuldade do quarteto da Georgia em atingir os patamares dos dois álbuns anteriores. A acompanhá-lo, surge o tema “Crazy”, que iria mais tarde integrar Dead Letter Office (1987), um álbum de raridades e Lados B compostos nos anos 80.

Por muito má que tivesse sido a experiência dos rapazes liderados por Stipe em Inglaterra, Fables Of The Reconstruction deu à luz o sexto single dos R.E.M.: o melodioso e controverso “Wendell Gee”. O tema não era do agrado de Peter Buck e apenas foi incluído no álbum à última hora. Para se perceber o carácter fraturante do tema, os R.E.M. nem sequer o tocaram na tour de apresentação de Fables. “Crazy” + “Ages of You” e “Burning Down” compõem este sexto single.

Fechado o sombrio capítulo de Fables, o ano de 1986 trouxe os “velhos R.E.M. de volta com o reconciliador Reckoning. “Fall On Me”, provavelmente o melhor tema da carreira dos norte-americanos na opinião de Michael Stipe, foi a escolha óbvia para o sétimo single. A passagem “We have found a way to talk around the problem” parecia enterrar o machado de guerra e o quarteto voltava a sorrir com um álbum consistente. “Rotary Ten” foi a reconciliação total: o primeiro instrumental da banda a integrar um single. Definido por Peter Buck, que o compôs, como “um tema para um filme sem filme”. Estavam feitas as pazes.

Ao oitavo single, Stipe e companhia já se julgavam super-homens e de facto, os rapazes pareciam antever o que aí vinha. “Superman” fechava Reckoning e agora não havia kryptonite que os fizesse parar. “I am Superman and I can do anything”: estava feito o aviso à concorrência! Os R.E.M. estavam preparados para outros voos e a I.R.S. Records tinha noção que os iria perder a qualquer momento. A banda escolheu novo instrumental para completar o single “White Tornado”. “Fireeeeeeeeee!”, cantava Stipe ao nono single. “The One I Love” apresentava o álbum Document (1987) que marca a estreia do produtor Scott Lite que iria acompanhar os R.E.M. ao estrelato. “The One I Love” foi o primeiro lampejo de mainstream dos R.E.M. e agora era oficial: nada iria desviar a banda de Athens do reconhecimento internacional. “Maps And Legends”, lado B do single, marca um regresso a Fables Of The Reconstruction, mas a banda já parecia muito longe desses tempos.

“Its The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”, a ode ao fim dos tempos e do mundo tal como o conhecemos, era o outro tema “orelhudo” de Document (que chegou ao top 5 dos melhores álbuns norte-americanos do ano) e foi a escolha natural para segundo single do álbum e décimo single da carreira dos R.E.M.. Frenético, complexo e mesmo assim, tornar-se-ia num tema que perseguiria toda a carreira do quarteto. “Last Date” é mais uma homenagem aos músicos, terceiro instrumental incluído num single.

“The time to rise has been engaged”, era um aviso de Michael Stipe no décimo primeiro e último single dos R.E.M. pela I.R.S. Records: “Finest Worksong” foi o tema de abertura do “politicamente correcto” Document e marcaria o fim da ligação da banda à editora que os revelou ao mundo. A completar o single, dois temas ao vivo: o belíssimo e melodioso “Time After Time” e um regresso às origem com uma versão de “So. Central Rain”.

Ainda tudo estava a começar para os R.E.M., mas 7IN – 83-88 sintetiza a essência e os melhores anos da banda de Athens.