Foram lindos e especiais os momentos que passámos este ano com os Radiohead, desde seguir de perto e praticamente em tempo real os blackouts (ou melhor, whiteouts) na internet, ver bruxas e passarinhos e até mesmo ver Thom Yorke a abrir e a fechar portas, a passear sozinho em parques, a subir montanhas geladas… Suspiro… As atmosferas criadas em torno de A Moon Shaped Pool transcenderam os campos da música e do marketing, infiltrando-se na vida de cada fã quase em forma de happening artístico.

Depois da espera insana que os Radiohead provocaram em todos nós, a banda deixou-nos com um dos álbuns mais incríveis da sua carreira – se isso se pode dizer -, dada a sua coerência numa diferença estética quase constante. Era previsto que a edição especial em vinil do disco, que começou este mês a ser expedida, contasse com dois temas bónus. A especulação foi imediata: pensou-se que seriam”Spectre” e “Lift”, mas é com “Ill Wind” que nos chega o primeiro contacto com estas faixas.

A influência dos ritmos latinos, especialmente da música brasileira, tem sido algo recorrente na música dos Radiohead desde o inicio do milénio até ao lançamento de Kid A de 2000. “Ill Wind” não esquece isso, apresentando pelas mãos de Phil Selway um ritmo bastante complexo que em momentos nos remete para “Dollars And Cents”. O tema, como quase todos da banda de Oxford, derrete-nos o coração e dá-nos a sensação recorrente que deveríamos estar perante um A-side. A estética é claramente a de A Moon Shaped Pool, a produção de Nigel Godrich é novamente brilhante ao ponto de nos enquadrar numa nova “Polyfauna” onde o vento é sentido e efectivamente ouvido.

Este vento, impregnado de talento e amor, é feito de emoções e é uma das provas possíveis do brilhantismo de uma das melhores bandas de todos os tempos. Neste ano de A Moon Shaped Pool, Skeleton Tree de Nick Cave & The Bad Seeds, Blackstar de Bowie, Glowing Man dos Swans, The Ship de Brian Eno, e tantos outros discos fantásticos percebemos, indubitavelmente, que se vivem tempos áureos na arte musical, que devemos seleccionar para fruir e os aproveitar.

Radiohead's Ill Wind artwork

Radiohead’s Ill Wind artwork