Quando a política e a música colidem, cria-se uma atmosfera sufocante mas geradora de debate. As emoções são ouvidas, a revolta sentida. Num mundo em que a música expia a alma, de uma maneira tanto significativa como explicativa, é estranho imaginar que leis incapacitem a apresentação de bandas a nível internacional. Para os Soviet Soviet, essa estranheza quase inconcebível significou o cancelamento de concertos nos Estados Unidos e a deportação do grupo italiano. A política colidiu com a música da pior maneira. A uma banda que canta os amores, desamores e as catástrofes fatídicas que os envolvem, não se adivinhava um desenrolar de acontecimentos tão abrupto. Mas em Portugal, algo desse calibre não se iria repetir.

Polémica volvida e de cabeça erguida, os Soviet Soviet voltam a Portugal depois da sua estreia em Janeiro de 2015. Desta vez, Endless está fresco debaixo dos seus braços. O segundo álbum de originais chegou em Dezembro do ano transacto e angariou uma crítica invejável. Sem quaisquer dúvidas, o post-punk vincado na música que estes três jovens afasta-se da banalidade e do monótono. O noise e o new wave marcam presença neste revival a um tempo que se reinventa na modernidade.

Sob o sol de Pesaro, formou-se o trio Soviet Soviet em 2008. Andrea Giometti (no baixo e na voz), Alessandro Costantini (na guitarra) e Alessandro Ferri (na bateria) encontraram a sua voz no post-punk que ouviam na rádio e na televisão na adolescência, muito por influência dos pais. “Descobrimos muito através dos nossos pais, como a música da altura deles. Isso possibilitou-nos ouvir música de bandas do passado”, revelou o vocalista em entrevista para a Northern Transmissions.

Os italianos revelam-se em inglês nas melodias que assentam bem com o sotaque que pouco se faz sentir. Do primeiro para o mais recente disco, é notória uma refinação nas melodias. As faixas passaram por um afinamento consequente da vida de estrada. As vivências são outras e o som é mais equilibrado ao longo do álbum. Existe uma profundidade nas composições que contém uma ajuda preciosa de pequenos retoques de eletrónica, como acontece em “Rainbow”. A música “Endless Beauty” confere um toque mais risinho ao que é geralmente mais rígido. Além de alguns surf-riffs, o foco acaba sempre por recair no forte baixo, apesar de existirem diversos momentos em que cada instrumento tem o seu auge de destaque.

Mais emotivos do que antes e com uma frontalidade ainda mais humana parece difícil não soarem aos lendários grupos que estabeleceram o post-punk como género admirado por muitos mas os italianos não se deixam cair nas facilidades. “Remember Now” e “Pantomime” distinguem-se na possível era de ouro destes rapazes.

Além da viagem musical exacerbadora que é “Endless”, à actuação dos Soviet Soviet não faltarão os hinos que tornaram a consagração do seu álbum de estreia Fate exequível. Músicas como “Ecstasy” e “No Lesson” com certeza ecoarão no recinto em que os italianos serão reis.

Depois da prestação em Cascais no Stairway Club onte, os Soviet Soviet chegam hoje ao palco do Hard Club, no Porto. Os bilhetes ainda estão disponíveis nos balcões do espaço portuense e custam 12 euros.

https://soundcloud.com/felte/sets/soviet-soviet-endless-official

Soviet Soviet @ Hard Club, Porto - Poster Artwork de Paulo Scavullo

Soviet Soviet @ Hard Club, Porto – Poster Artwork de Paulo Scavullo