Acaba mais um Reverence Festival e se há uma coisa que já se pode dizer do evento que ainda conta apenas com três edições, é que parece que já cá está eternamente. O Parque das Merendas, bem como Valada, são lugares a que rapidamente uma pessoa se deixa afeiçoar e, após três dias de aventura, é difícil não encarar a despedida com um pequeno indício de ter deixado uma casa. Esta dimensão, aliada à imensa e carregada dose de descoberta e aprendizagem de um cartaz que tem sempre algo para mostrar de diferente ao mesmo tempo que coloca mais uma ou duas cruzes na checklist de bandas a conferir ao vivo, faz um caricato e carismático festival que, sem margem nenhuma de suspeita, vive quase exclusivamente para a música no seu sentido mais primário.

Sem rótulos, sem grandes marcas, sem grandes ondas mediáticas a ditarem a orientação artística, o Reverence Festival faz-se vivo apenas pela sensação básica e essencial que é ouvir música: a experiência de ouvir o que está a acontecer e descobrir como isso nos pode tocar, não pelo nome que está a tocar ou pelo sítio onde está a acontecer, mas pura e simplesmente pelas frequências que oscilam no ar. Entre o costumeiro calor que se faz sentir nos três dias do festival, a consagração impressionante dos The Damned em Portugal e algumas aventuras mais radicais com as mudanças de horários motivadas pelo desaparecimento de última hora dos Killing Joke, a versão 2016 do Reverence foi exactamente como devia ser: uma aventura. E como em qualquer aventura, terá que haver aquela boa sensação de desafio e deslocação para longe do conforto. Não quereríamos de outra forma e entretanto, registam-se alguns dos pontos mais interessantes a reter deste ano.

Mais copos reutilizáveis, yey!

Tal como os festivais antecessores durante esta época alta, também o Reverence, em parceria com a Super Bock, instaurou esta extremamente louvável medida. Existem realmente poucas coisas mais incríveis do que acabar a actividade no recinto sem a vista de um exército de copos desfeitos a minar a abundante natureza, cujas vantagens das quais beneficia já nem é necessário enumerar. É continuamente entusiasmante ver esta medida espalhar-se cada vez mais pelas consciências portuguesas. A marcha do progresso tem-se vindo a fazer com banda sonora de luxo e a sua expansão aguarda-se com vontade para caminhos mais largos e que transcendam o espectro festivaleiro.

O Reverence acaba de ficar ainda mais transfronteiriço

Desde o início da sua história que o jovem evento se lançou a uma premissa simples: criar um festival que seja capaz de acolher o melhor que o underground tem para trazer à música. Conotando-se como um carácter de nicho, o Reverence sempre foi capaz de oferecer uma selecção variada e extremamente vertical no que toca às paisagens que tem oferecido, ainda que o pêndulo tenha sempre oscilado mais para as zonas mais pesadas da música. Este ano, a tendência tomou novas proporções e o cartaz de 2016 figurou-se como o mais variado da história do festival, e um dos mais diversos e positivamente esquizofrénicos do Verão inteiro. Sem perder o seu sabor de sempre e continuando espiritualmente transgressor e bizarro, o festival conseguiu abrir o seu espectro e variar ainda mais a experiência sem compromissos. Riscos saudáveis, como a presença de bandas como The Damned, Thee Oh Sees, Silver Apples ou La Chanson Noire, viram a descoberta obter paletas diferentes e trouxeram uma nova fluidez que não sabíamos que precisávamos. Dito isto…

Reverence Festival Ambiente by Luís Custódio

A electrónica foi o ingrediente secreto…

Se calhar até menos que raramente encontrado nas fileiras deste festival, o espaço para sensações mais sintéticas encontrou, ainda assim, um saudável contingente em 2016 que acabou por proporcionar alguns dos maiores triunfos do festival. Falemos por exemplo de Silver Apples, liderado actualmente por Simeon, o guru dos synths, que em toda a sua carismática simpatia e sorriso deu um arrebatador espectáculo de fim de tarde. Combinando as directrizes de cantautor com os maneirismos da música de dança, o projecto pioneiro de música electrónica encantou a plateia presente no palco Rio que ia dançando fervorosamente ao som de composições que não são synth pop nem música ambiente. Ora ecoando em voz de feiticeiro assuntos mais místicos e humanos, ora trabalhando poderosas passagens techno Silver Apples, para além de ser um fantástico tutor da História da electrónica, é um projecto musical hiper-progressista em qualquer época. A sua liberdade musical e a fusão de sons criam música que ainda hoje, no mundo das mesclas, faz transgressões bem radicais, e nisso Silver Apples foi exímio. Até uma parte do PA caiu do suporte a certo ponto. Fortíssimo rock n’roll.

Entretanto, outro dos pontos altos foi também encontrado através do enaltecimento da máquina. No derradeiro dia do festival, Mécanosphère deu um dos mais refinados e fantásticos concertos do festival. Sobre a batuta vocal do mestre Adolfo Luxúria Canibal – que deu de si a performance física mais incrível do fim de semana -, a complexa banda fundiu as veias mais artesanais do contrabaixo e da bateria com a matéria industrial e estridente do barulho sintetizado e da batida demoníaca. Em palco, desenrolou-se um fluxo narrativo de imagens fortes e agudas erguidas no já secular estilo e entrega do seu carismático autor acompanhado por uma panóplia de orquestrações que elevavam a componente lírica para novos significados e expansões. A repetição dura e incessante quer dos drones quer das palavras, e as batidas industriais estilo strobe ritmavam uma performance que tão bem apelou ao corpo (que se manteve bem quente graças ao bafo que a música produzia com o seu volume) como à imaginação e com os Mécanosphère obteve-se uma chance de exploração sónica desigual a qualquer outra no festival. Foi um prazer, a oportunidade de viver a ocasião.

Yawning Man supersónicos

Em nada, ao contrário do nome indica, o concerto dos Yawning Man no Sontronics deu para bocejos. Em formato quarteto, o grupo norte-americano apresentou-se simpático e caloroso nas maneiras mas não poupou uma alegre plateia de um potente banho rock que quase sempre nunca cedeu aos lados mais convencionais. Também apta para se considerar como toda uma jam, a hora que o grupo teve em palco serviu para favorecer a qualidade acima da quantidade à medida que foram esticando os seus temas enquanto fizesse sentido e viajaram em conjunto com o seu público num mar cristalino e brilhante de ondulares guitarras e anímicas linhas de baixo. Naquele que foi dos concertos mais espirituais do festival, os Yawning Man soaram frescos e gentis, quase levitando os seus arredores com a sua elegante mestria na forma como atacaram as complexas progressões e fizeram a música florescer. Obviamente falando na linguagem do rock, o vocabulário do grupo é mesmo assim extenso e capaz de nos levar para uma panóplia de emoções, não através da repentina alteração de mudança, mas com o cuidado e a perícia de como quem pinta uma tela. Desde a força mais identificavelmente stoner até a uma emoção expansiva e cinemática do post-rock, os Yawning Man encontravam constantemente novas facetas para a música de guitarra e viram-se colossais e heróicos neste processo, alimentando-se apenas do seu desejo de tocar e penetrar ainda mais profundamente nesta aura que foram criar. Tão embrenhado nela estavam, que por fim foi preciso avisar que não havia tempo para mais no set. E mais houvesse, lá estaríamos.

A nova disposição de palcos foi uma vitória. Logística e paisagística.

Na sua terceira edição, o Reverence Festival apresentou o maior número de novidades precisamente na sua organização espacial pelo catita Parque das Merendas. Acolheu-se o Indiegente, palco curado por Nuno Calado que se dedicou a trazer um certame nacional intimamente ligado ao rock e proporcionou regressos simpáticos como o dos The Quartet Of Whoa! e surpresas épicas como o concerto dos Phantom Vision, e fizeram-se algumas reordenações engraçadas. Desta feita, o palco maior do evento, para além do novo nome Sontronics, deslocou-se para o canto longínquo do festival e permitiu que o campo de futebol acolhesse mais espaçada e destacadamente o espaço dos comerciantes. Entretanto, devidamente redimensionado para se encaixar bem no local, o novo Sontronics, agora à beira rio plantado, proporcionou belas vistas de fim de tarde com o sol a rasgar por entre as árvores e a banhar um palco que se aconchegava numa bela clareira de música. Quanto à dinâmica, a fluidez continuou imaculada e trouxe uma nova vida ao festival que, graças a uma programação mais dividida entre o Palco Rio e o Sontronics, diluiu os tempos de espera e ofereceu uma sensação mais livre e dispersa que nunca deixou que nenhum palco se concentrasse mais que o outro. Um sucesso que todo o sentido fez.

Os Ozric Tentacles deram um dos melhores afters da vida

Para sempre uma das bandas mais multi-facetadas e talentosas na viagem e mescla entre géneros, os Ozric Tentacles foram responsáveis por um tremendo espectáculo nesta edição do Reverence. Colocados num slot sugestivamente apelido de “Sunrise Session”, o grupo liderado por Ed Wynne tocou num regime after-hours que os viu a dar um dos sets mais longos do festival. Ao longo de quase duas horas e meia, o quarteto decidiu-se em oferecer uma longa viagem pela música aos muitos resistentes que se deslocaram para os ver e nunca comprometeu o ritmo, mantendo a festa alegremente acesa. Dividindo-se entre uma estrutura orgânica de jam band – propulsionada constantemente por um felino e brincalhão baixo tocado pela esposa Brandi Wynne -, e um formato mais electrónico, com beats e synths programados, o espectáculo encontrou-se tão perto das aventuras dos Grateful Dead como da acidez dos The Chemical Brothers. Poderosos riffs de guitarra e virtuosos fills de bateria encontraram-se com os sonantes arpejos e motivos que encontram tanto o hip-hop como o dub.

Não foram poucos os momentos em que a boca não resistia em ficar aberta face a toda a perícia e ao sabor de um som que se erguia cristalino e completamente harmonioso. Mais para o fim, o próprio ritmo desvanecia a favor da melodia omnipresente que sugeria um meditativo transe que se infiltrou por entre o rock como água morna. Consistentemente virtuoso e saboroso, o concerto dos Ozric Tentacles chegou a ser ocasionalmente arrebatador e figurou-se como uma preciosa experiência musical que vai ser certamente memorável e relembrar-nos sempre a importância de uma programação ousada e dedicada em dar a conhecer. No fim, às vinte para as seis, o sol ainda não tinha nascido, mas a essa hora também já pouco importava. Principalmente depois de um banho de música assim.

Reverence Festival Ambiente by Luís Custódio

A vitória absoluta dos The Damned

Sempre perito em fazer boas emendas ao longo das suas duas passadas edições, o Reverence ofereceu-nos já preciosas oportunidades de ver pela primeira vez na História da sua carreira fantásticas bandas de culto tocar em Portugal. Se os Amon Düul II e os Hawkwind já fazem parte dos contemplados, o clube dilata este ano com os The Damned, lendário bastião do punk inglês e pioneiros das aventuras góticas pela música. Ainda assim, se o que maioritariamente reza da História dos The Damned são efemérides como “o primeiro single punk a ser lançado no Reino Unido” ou “a primeira banda punk a acabar e a voltar”, o concerto do Reverence veio precisamente comprovar que essas coisas são de menor comparando com a força bruta e o belo espectáculo que este grupo consegue montar. Muito também por causa do seu espólio musical, inevitavelmente sagrado quando falamos dos mandamentos do punk, os britânicos figuraram-se vitoriosos em toda a sua simplicidade, carisma e humildade.

Bem dispostos e de belo maneirismo inglês, os The Damned foram os melhores anfitriões de espectáculo de todo o fim de semana, ao mesmo tempo que largaram a garra que era necessária, tocando velozmente e de maroto sorriso. Entretanto, na plateia, encontrava-se uma legião de espectadores mais que atentos e claramente animados por presenças tão brilhantes. Os The Damned instauraram a festa mais divertida do festival e entre mosh’s de uma faixa etária mais elevada que o costume, copos de cerveja erguiam-se e mães dançavam junto dos filhos pequenos. Foi numa festa aguerrida que pareceu um belo momento de comunhão e soube para muitos como uma recompensa pela paciência e espera por finalmente vir encontrar o grupo em Portugal. Para os novatos, foi uma sensação de descoberta e surpresa ao encontrar em carne e osso uma verdadeira instituição punk e uma que não tem medo de palco grande e teatro espectacular. Irrepreensíveis no foro técnico e vocal, com o frontman David Vanian a dar uma prestação de classe A, os The Damned vieram e conquistaram com mínima dificuldade e disposição inabalável. Assim se aprende.