Do fumegante set dos With The Dead até à leveza bucólica dos Papir, o Reverence Festival Valada 2016 coleccionou momentos inúmeros que, findas as contas, são aqueles que nos dificultam a tarefa de dizer adeus ao Parque das Merendas. Entre uma programação altamente dilatada, excelsa no número variado de propostas e mais rica e abrangente que nunca nas paletas sonoras à escolha, o evento musical ribatejano acolhe uma paisagem idilicamente certa para receber a aridez e a natureza indomada da nata da nata da música underground e foi isso que mais uma vez nos reuniu e nos foi dado em 2016. Já começámos a enumerar alguns dos acontecimentos mais marcantes para este ano aqui e, agora, apresentamos mais um certame recheado daquilo que certamente irá ficar para a posterioridade.

A dobradinha perfeita dos Thee Oh Sees

É a segunda vez em menos de um mês que o grupo acaricia Portugal com uma visita e, desta feita, apresentando-se com uma linda homenagem a Portugal (completada com Galo de Barcelos e tudo) a decorar o palco, nada mudou e os Thee Oh Sees deram um concerto estrondoso que os consolida ainda mais como uma das derradeiras bandas ao vivo dos dias de hoje. Miraculosamente bem calibrados na sua intensidade lunática, os grandes de S. Francisco trouxeram mais uma vez o novo espectáculo que vê no palco duas baterias a trazer caos extra. Escusado será referir as propriedades sonoras e o esplendor visual da coordenação dos seus dois talentosos músicos, mas aponta-se com fervoroso entusiasmo a já habitual agressividade e espírito selvagem às quais se acrescenta um espectáculo de poderoso entretenimento. Não tanto a nível de quimeras ou artifícios, mas simplesmente porque cada vez mais se torna uma delícia ver simplesmente os Thee Oh Sees em palco para além da habitual fome de os sentir nos gravíssimos mosh’s (e nessa noite, em Valada, não se verificou excepção à regra).

Sob um ritmo vertiginoso e um som pesadíssimo, repetitivo e denso, ao ponto do concerto ter atingido proporções cartoonescas, os Thee Oh Sees foram esperneando, colocando a língua de fora, tocando atrás das costas e fazendo sapateado ao longo do autêntico perigo gingão que são canções como “Toe Cutter /Thumb Buster”. Por entre a perícia técnica e as cada vez mais alucinantes teatralidades do carismático Jon Dwyer, o concerto dos Thee Oh Sees, como de costume, foi como uma fenda que se abriu para libertar mil e uma cores. A acção acontecia por todo lado, nas guitarras, nos bracejares dos bateristas, nas ondas sonoras que vibravam e na poeira que o histérico público levantou. Definitivamente, uma das bandas mais absurdamente substanciais ao vivo que têm pisado os palcos dos dias de hoje e, apesar de um crescente profissionalismo que por vezes vai mantendo a coisa mais controlada do que devia, continua a não haver que chegue para os Thee Oh Sees. E é mesmo assim que a gente quer. Estaremos à espera do hat trick.

Thee Oh Sees @ Reverence Valada '16 by Ana Santos

Thee Oh Sees @ Reverence Valada ’16 by Ana Santos

A terra das belíssimas divagações…

Como tem sido habitual no curso do festival, nunca poderia faltar o bom contingente de bandas decididas e apaixonadas por se deixarem perder nos seus próprios instrumentos e, este ano, viu-se um elenco particularmente forte neste departamento. Os já referidos Yawning Man foram certamente um dos pontos altos com as suas viagens áridas e ventosas a colorir uma bela noite. Igualmente frescos e elevadores foram os Papir na tarde seguinte. O jovem conjunto vindo de Copenhaga trouxe um stoner prog reminiscente de passados visitantes como os Stoned Jesus ou os Samsara Blues Experiment e soou jovial e silvestre no fim de tarde que até se figurou ameno. Dotados de um sentido melódico a puxar dos refrescos e da toalha de praia, os Papir encantaram uma plateia sorridente com belas cadências post-rock no meio de uma força mais arranhada do seu psicadelismo. Levando o seu tempo para chegarem onde queriam, mas mantendo o passo vívido e nunca arrastado, os dinamarqueses saíram premiados pelo seu sabor e deram um dos concertos mais suaves do fim de semana.

O tom dos Papir, muito positivamente, contrastou com aquele que também na noite anterior tinha sido deixado em palco pelos Dead Meadow. Como um dos pontos altos da noite, o trio psicadélico de Washington veio trazer a boa dose de riffs densos e lentos que até à altura ainda estaria a faltar no festival. E assim o fez com distinção. Mais reconhecidos pela veia orelhuda das suas canções relativamente fechadas do que propriamente pela preponderância das suas divergências, os Dead Meadow apresentaram-se livres ao mesmo tempo que se focaram no essencial. Densos e lamacentos, ergueram a sua vibe particularmente colorida e mesclada nas belas malhas de rock que foram debitando, dando um concerto de rock sólido e directo que se permitiu a perder em toda a caleidoscopia. Muitas foram as formas que conhecidos temas tomaram em palco, ora esticando e estreitando consoante as necessidades que não excluíram o alongamento improvisado e bem-vindo dos tântricos motivos que compõem o som do grupo. Cheios de groove e estilo, a alma contaminada dos Dead Meadow foi um brilho.

Øresund Space Collective e o grande Doctor Space

Também os Øresund Space Collective vieram colorir Valada com belas cores ao sabor do vento. O grupo é uma jam band de foro internacional que ocasionalmente se junta para gravar sessões e improvisar em público. No Reverence, o colectivo espacial juntou-se a dois terços dos Papir (em deveres de guitarra e bateria) para oferecer um prog futurista e veloz alicerçado no leio infinito de Doctor Space a lidar com o sintetizador e modular as ondas de frequência espaciais que foram guiando em simbiose os restantes músicos. O mestre de cerimónias, para além de intermediário entre palco e plateia, tornou-se uma autêntica entidade transversal a todo o Reverence com a sua simpatia a transcender as barreiras do palco e correr um pouco por todo o cenário do festival, algo que o tornou como uma das personalidades mais carismáticas do fim de semana. O seu amor pela música ainda o levou a subir ao palco por mais duas ocasiões, jammando com os Yawning Man e dando uma mão às Papermoon Sessions numa nova sessão de improviso especial que, por infelizes razões, não pôde contar com os Electric Moon. Campeão absoluto.

The Brian Jonestown Massacre: Uma lição no estilo

Chegados com o estatuto de banda mais antecipada, os The Brian Jonestown Massacre vieram resolver uma ânsia que se planta desde que saiu a notícia que Joel Gion iria visitar Valada a solo. Dando um concerto sólido, desde então se tinha esculado sobre quando o numeroso colectivo se iria reunir de novo em Portugal, e ao que parece a espera acabou por ser mínima. Mesmo no fim do verão, um dos grupos mais decididamente influentes na neo psicadelia surge confrontando o público português com uma bem temperada atitude “não quero saber” digna do rock e do roll e sob um registo exímio de estilo liderado pela bifurcação de Anton Newcombe e Joel Gion. Enquanto a interacção se reduziu a mera conversa de circunstância, o lado musical sobreviveu irrepreensível com um set alargado tanto pelo novo álbum como pelos mais estabelecidos momentos clássicos. Durante pouco mais de uma hora encontrou-se uma banda que inevitavelmente é prendada de muito boa música e que foi satisfazendo a numerosa plateia que não se impediu de dançar a pares e a bracejar no ar ao som dos finales cinemáticos que adornam tipicamente as canções da banda.

Com uma qualidade de som no ponto e um tempo religiosamente marcado pela pandeireta mais proeminente da música moderna, os The Brian Jonestown Massacre deram um espectáculo sem falhas que nos embrenhou para mil e uma histórias visuais de cabelos ao vento e corta ventos poeirentos. Em todo o seu espólio que, por fim, acaba por não ser muito radical nas paisagens que oferece, a banda foi consistente e atraente sem sequer se esforçar particularmente. De resto, a arma secreta residente na autêntica “aula de frontman incrível” que é Joel Gion foi capaz de convencer até ao fim à medida que o silencioso músico deixou as patilhas e as ancas falar por si, enquanto rodava a pandeireta debaixo da perna ou a atirava ao ar para a milagrosamente apanhar a tempo da sua deixa. Boa música, bom entretenimento e bastante bom groove, este foi um concerto feito de peças nucleares que se viu com zero necessidades de impressionar ou inovar por confiar naquilo que tinha. Aprovamos. Às vezes, mais é menos.

Os paisagistas do noise também abundaram

O Reverence não é nenhum estranho aos elevados níveis de volume que se fazem sentir no curso dos seus três dias e houve um bom elenco a garantir a herança que haviam deixado nomes como Sleep ou Electric Wizard. Os concertos de With The Dead e Mars Red Sky garantiram um bom e abafante tremor de som pelo Parque das Merendas com o doom infeccioso e maléfico de um a juntar-se ao stoner de pretensões mais melódicas e animadas do outro. Também os The Cult Of Dom Keller preencheram a sua cota parte, regressando a Portugal para um concerto que se afigurou mais rockeiro e straightfoward do que as divagações lentas e ambiente pelas quais os britânicos são reconhecidos. Ferozes e donos de um concerto veloz, os líderes do culto atacaram o público com um baixo distorcido cru e demoníaco que guiavam os fantasmagóricos jogos de vozes que os seus membros erguiam. Quem também regressou a Portugal e de forma semelhante aos Mars Red Sky foram os A Place To Bury Strangers, depois de 2014 terem sido coroados com o estatuto de heróis. Tal como os TCODM, o trio nova-iorquino não poupou no barulho e fez do punk rock de contornos espaciais a sua mensagem. Sempre a poderoso ritmo que competia com o strobe do palco e, desta feita, num espaço mais intimista, o grupo procedeu a desfazer tudo à sua volta e quebrar barreiras: para além dos instrumentos partidos, protagonizaram um dos momentos mais memoráveis da noite ao se deslocarem junto da regie (com um drum kit improvisado e tudo) para tocar no meio do público. É assim que se faz.

Nik Turner e os seus Space Ritual levaram a taça de 2016

Dando continuação a um capítulo que se iniciou em 2014 com a estreia dos lendários space rockers em Portugal, o ex-membro dos Hawkwind foi responsável pelo concerto mais conciso, directo e galático do festival. Nik Turner compareceu no Palco Rio impecavelmente bem vestido e de ânimos flamejantes para, conjuntamente com os seus Space Ritual, emanar vibrações de espacial e harmónica energia à medida que se aventurou num conjunto que compreendia as próprias composições e alguns dos temas mais célebres da sua fase com os Hawkwind. Em modo 100% rock n’roll, o concerto caracterizou-se pelo cariz directo e simplista dos riffs de guitarra que, um atrás do outro, compuseram uma passadeira de alta velocidade sob a qual Nik se lançava nas suas levas inspiradas no jazz através dos toques mais exuberantes do saxofone ou da sedução serpentina da flauta transversal. O ritmo manteve-se alto ao longo de constantes surpresas e deliciosos detalhes que fizeram do concerto um dos mais memoráveis da noite. Não houve tempo a perder e muita substância coube num set que viu o seu tempo alongar-se para além do que até então tinha sido costumeiro para poder fazer caber toda a delícia rock que marca o espólio de um dos patrimónios mais invisivelmente influentes da música alternativa.

Acompanhados em palco por Miss Angel Flame, uma bailarina exótica com um guarda-roupa diferente para cada tema e com ocasionais deveres vocais, os Space Ritual ergueram um espectáculo tão divertido como impressionante ao viajarem pelos temas do cosmos e da alienação e manipulação social – a certo ponto Nik Turner coloca uns óculos de sol, algo que, acidentalmente ou não, nos remeteu a They Live de Jon Carpenter) sob o signo da comunhão e da vontade de tocar. A dança, essa, foi imperial tanto no palco, com as coreografias interpretativas de Flame, como na plateia que, tirando o moshpit denso dos Thee Oh Sees, foi a mais receptiva de todo o fim de semana. Durante um set onde emanaram sorrisos e confiantes headbangings, o concerto dos Space Ritual foi uma memorável experiência onde a música e o espectáculo andaram unidos de carne e osso para proporcionar um excelente bocado. Nem sequer faltou uma categórica rendição de “Masters Of The Universe” a fabricar mais um momento histórico para o festival. O que para trás fica é a integral postura do estiloso frontman e um cortês “thank you” antes da despedida. Foi um prazer.

 

Lê também a Parte I com todos os que, para a Tracker, foram os destaques da edição de 2016 do Reverence Festival.

Reverence Festival Valada ’16: Um retrato de um fim de semana transgressor (Parte I)