É pela terceira vez que o Reverence se prepara para afixar as suas hostes em mais uma edição que vem colorir de aventurosas cores a Valada do Ribatejo. Passando de evento novato a faceta incontornável do panorama festivaleiro num curto espaço de tempo, o também apelidado de “Valada” tem tido como fórmula assim não tão secreta a extrema variedade de música com que decide regar o seu alinhamento. Assim, a versão 2016 apresenta-se, discutivelmente, como uma das mais extensas em termos de géneros, fazendo com que durante três dias haja tipos de frequência diferentes a oscilar nos tímpanos. Juntamente com Brian Jonestown Massacre, The Damned, Killing Joke e Thee Oh Sees há muita paisagem por onde se ficar perdido.

O gótico e o pós-punk vêm para brilhar no seu (belo) negrume

Principalmente no foro histórico, não fosse o dia 10 de sábado encabeçado pela presença dos The Sisters of Mercy, excelsos na criação de ritmo estridente. A combinação do baixo denso com o poder de uma drum machine primal chamada Doktor Avalanche dão o mote para o timbre dominador de Andrew Eldrich, o timoneiro de uma das bandas com mais longevidade do seu tempo e principal força motriz a nível criativo e mediático para a gravitação do género para caminhos mais secos e duros, que dão primazia ao ritmo incessante e abafante onde se escondem teatrais e claustrofóbicas melodias.

Isto juntamente como os Killing Joke. A banda, também proveniente do Reino Unido, exerce actualmente a sua influência (para sempre presente nas sonoridades mais pesadas dos dias de hoje) numa marca de rock retorcido, energético e cortante, mas igualmente bem ornado de atmosferas densas que quase apelam a uma anarquia sobrenatural. Notavelmente umas das instituições mais duradouras e capazes de se revitalizarem pelos tempos sem comprometerem o espírito do seu nicho, os Killing Joke preocupam-se sobretudo em entregar um espectáculo naturalmente absorvente e bruto e erguer um militante freakshow com pouco mais do que os murros abrasivos que compõe o seu som, que por si é surpreendente de tão gutural que é. Rock de estádio para os véus da meia-noite.

Não há paragem para o domínio musical absoluto dos Ozric Tentacles

Seguindo para caminhos mais livres que o ritmo incessante da bateria programada, há também muito espaço de manobra no que às melodias diz respeito nesta edição do Reverence. Também em regime de grupo clássico, surgem os Ozric Tentacles, banda britânica cujo enquadramento por género será difícil, não fosse o seu extremamente radical e extenso espólio levá-los a lugares tão distintos como o prog rock e o dub. Um dos símbolos de culto da História de eventos como o Glastonbury, os Ozric Tentacles soam tão espaciais como místicos, fazendo música ora com vozes digitalmente alteradas e panóplias de sintetizadores, ora utilizando vários instrumentos como o koto ou a cítara para criar intrincadas levas rítmicas e melódicas que soam profundamente cristalinas e puras. Dotados de um horizonte musical que pode muito bem ser infinito, os britânicos apresentar-se-ão, com certeza, com um set representativo e viajante, pelo que vê-los em acção será, certamente, um dos mais preciosos destaques deste ano. Se não bastar, está ainda marcada uma Sunrise Session com os mesmos, algo que promete devida expansão anímica e musical enquanto se aguarda a manhã.

A jovialidade punk está presente e de presas bem afiadas

A equilibrar o controlo e a ponderação de quem já é veterano nestas paragens há sempre um contingente irrequieto de vontade e excitação. O Reverence, nas suas últimas edições, sempre se tem preocupado em oferecer respeitosos palcos para novatos como The Wytches, Füzz ou Galgo e este ano acolhe mais um certame de boas novidades, muitas delas cortantes na sua entrega. Nesse sentido, a estreia dos Fat White Family  por cá é um destaque. A banda britânica, jogando entre a faceta porca dos The Libertines e o psicadelismo mais açucarado de uns Growlers é obscena, desajeitada e completamente alheia a aparências e padrões.

Promete-se uma verdadeira preconização do espírito desordenado e feral do punk no século XII com a presença dos igualmente obtusos 800 Gondomar. Simpaticamente directos na sua localização, fazem um rock sujo e javardo e  devidamente entregue ao vocábulo português. Minimalistas na abordagem mas pouco subtis na entrega, é música para diversão e bom espírito.

Do outro lado, mas por latitudes ainda próximas, vindos do Porto, os The Japanese Girl vêm com um garage encharcado a reverb e eco, construindo perigosas paisagens quasi-góticas onde já nada é o que parece. Ainda assim, o ritmo é elevado e os uivos indistintos só ajudam a que se escorregue ainda mais pelo peso molhado de um punk endiabrado e enjoado.