Certamente ansiado por todos os amantes da música underground desde o encerramento da sua edição de estreia, o regresso do festival Reverence à Valada do Ribatejo fez-se no passado dia 29 de agosto. A segunda peregrinação do melhor que se actualmente se faz no psych, no stoner, no doom e no domínio geral da música pesada e alternativa prepara-se mais uma vez para emergir no Parque das Merendas de Valada. Este ano são nomes como Sleep, Amon Düül II, The Horrors e Jon Spencer Blues Explosion que vão fazer o ruído e as cores transbordarem nesta pacata região, sendo estes apenas os argumentos mais vistosos de um numeroso cartaz que se assenta muito na descoberta e pela saída da zona de conforto no que toca às propostas que apresenta.

Dia 1: A boa da JEFFardice

O dia de abertura certamente focou-se nesta dinâmica de descoberta, com um rol de projectos nacionais e internacionais a dar algumas boas indicações para o futuro numa tarde-para-o-serão que manteve um cariz de warm-up verdadeiramente morno. Com o palco Rio apenas em actividade, o recinto manteve-se relativamente bem composto e povoado simultaneamente por curiosos estreantes e saudosos repetentes que se passeavam alegremente pela área, sendo até possível entreouvir vários comentários sobre como foi bom regressar à medida que Luna Marada inaugurava esta fome de espetáculos com a sua psicadelia de travo bem funky.

O primeiro marco assinável na temperatura do termómetro musical deu-se aquando da subida dos nacionais Galgo. Vencedores do concurso EDP Live Bands 2015 e representantes portugueses na edição deste ano do Festival Sziget, a banda teve esta tarde mais uma das ainda pouco numerosas chances de se dar a conhecer em público. E bem aproveitada foi, já que as composições afiadas e acessíveis do conjunto de math rock conseguiram trazer um mood mais upbeat que até aí faltava. Com um set de 40 minutos, ainda se viu pouco, mas o que se viu certamente chegou para convencer que estes Galgo serão algo para ir tendo em conta.

O próximo destaque no palco Rio viria a ocorrer com The Vickers. A 10 minutos das 23:00h, o colectivo italiano apresentou-se de boas maneiras e simpatias e procedeu a oferecer um set cheio de melodias psicadélicas e composições nebulosas ao bom estilo dos primórdios do prog inglês (com a própria voz do frontman a soar a um fantasmagórico Syd Barrett). Ao longo de pouco menos de uma hora, debitaram-se de forma fluída e orgânica, as canções de Ghosts, álbum de 2014, num espetáculo absorvente e relaxado que iria contrapor-se com a agressividade que estava a momentos de surgir.

Esta sujidade e subida de intensidade é portuguesa e tem um nome: os Keep Razors Sharp regressaram ao Reverence para um bem-vindo repeat daquilo que já haviam feito no ano transacto: um set veloz e furioso cheio de um som puramente psicadélico e bastante perigoso. Sem brincadeiras, lançaram-se aos temas que compõem o disco de estreia num espetáculo competente e confiante que só pecou por alguns problemas de som que por vezes revolviam as canções numa cacofonia irritante que lhes tirava a dinâmica e personalidade. Problemas à parte, o grupo apresentou-se bem disposto e cheio de vontade de tocar, sendo confrontados com um público à medida. Destaques para uma muito aguerrida “I See Your Face” e uma muito celebrada “9th”. Os Keep Razors Sharp já são da casa e a julgar por hoje, já sabem que são sempre bem-vindos.

Passa agora um pouco da 1:10h e a área do palco Rio está com a sua maior enchente a este ponto. A razão é a subida ao palco dos JEFF The Brotherhood. Os irmão Orrall eram certamente o nome mais aguardado e fizeram jus à expectativa com o concerto mais celebrado e vencedor da noite. Com a irmandade a expandir-se para um quarteto em palco, o grupo oriundo de Nashville apresentou-se em Valada para uma salva do bom e velho rock n’roll onde não falta humor e uma dose bem concentrada daquela ginga sulista, banhada em riffs simplistas e ultra eficazes. Comunicativos, ressacados e entusiasmados, a banda mostrou todos os ingredientes que fazem um bom concerto de rock: o excesso, a confiança, a diversão e claro, os sons.

Ao longo de canções como “Whatever I Want” e “Black Cherry Pie”, os JEFF The Brotherhood criam um fantástico ambiente de diversão e mantiveram a audiência entusiasmada à medida que permutavam entre sonoridades mais stoner e motivos mais directos como a muito absurda mas irresistivelmente divertida “Hey Friend”, cujas divagações sobre mães alheias protagonizaram um dos pontos altos.

Pouco dada a grandes complicações e com dificuldades em lembrar-se dos títulos das músicas, a banda viu o seu carisma slacker a viver sobretudo na figura do vocalista Jake Orrall, que protagonizava perfeitamente o arquétipo do dude next door que só está aqui para se divertir e beber umas cervejas. Na verdade, o Palco Rio tornou-se numa autêntica house party americana onde a dança e o headbanging foram dominantes, principalmente em momentos como “In My Dreams”, tema muito reminiscente do college rock e tirado do mais recente disco, editado este ano.

A certo ponto foi necessário avisar que “só havia tempo para mais uma ou duas”, como quem prepara o público que está a chegar aquela hora de aproveitar os últimos cartuchos com grande intensidade. E foi exactamente isso que aconteceu, num fim catártico, caótico, com cordas partidas e um mini meltdown cheio de feedback e distorção ao bom estilo punk. Chegamos ao fim, professa-se o amor por Valada em palco e temos coroados os nossos primeiros príncipes deste ano. Gajos castiços estes.

Um dia zero que claramente serviu como um simpático warm-up, embora de forma menos carismática do que o do ano transacto, passado no cenário mais idílico da marina da vila, esta primeira noite ficou marcada por boas indicações portuguesas e a contagiante jovialidade dos JEFF The Brotherhood. O Reverence Festival Valada continua, com Bizarra Locomotiva, Stoned Jesus, Alcest, Ufomammut e Sleep.