Dia 2: Peso – É essa a palavra correcta

Depois de um dia de abertura limitado ao Palco Rio e que contou com espetáculos de grande nível por parte de gentes como The Vickers, Keep Razors Sharp e JEFF The Brotherhood, o dia 28 de agosto do Reverence Festival Valada foi aquele que iniciou o funcionamento a todo o gás do evento.

Com três palcos em extensa e profunda atividade, o segundo dia sagrou-se como o mais ousado, radical e, sem grandes dúvidas, como o mais pesado deste ano. Bandas como Process Of Guilt, Bizarra Locomotiva, Ufomammut e Sleep ajudaram a moldar uma unidade temática coerente que caracterizou este dia como um especialmente virado para os contornos da música mais pesada. Não obstante, a variedade e mescla continuaram a fazer-se sentir através da presença de concertos como os de The Warlocks e Jon Spencer Blues Explosion (a mais excelente carta fora do baralho deste dia).

O primeiro destaque da tarde pertenceu aos lusos Füzz e ocorreu pelas 15:00h no mais idílico e confortável lugar do recinto: o palco Praia. Superada a pequena confusão para quem esperava a presença de uma certa figura hiperactiva e ruiva atrás do kit, o que restou, para quem viu o jovem trio das Caldas da Rainha, foi um concerto de pôr água na boca e a promessa de que algo muito interessante poderá estar a eclodir. Ecléctica, volátil e envolvente, a música deste power trio é um poço de influências e um laboratório de experiências e misturas que originou aqui este atraente mutante chamado Füzz. Concentrados e visivelmente entusiasmados por estarem onde estavam, os três jovens lançaram-se aos temas da ainda sucinta carreira, provenientes de EP’s como Sessions With The Monkey e Finding Unique Zen Zebras, para a delícia dos presentes, que os brindaram com atenção do início ao fim, e de uma primeira fila visivelmente adepta do grupo.

Ao longo de 40 minutos foi possível ouvir ecos de hardcore, stoner psicadélico e puro e duro rock de garagem fundidos com grande personalidade e de forma pouco óbvia. Para trás, fica apenas uma performance vocal um pouco pobre que ainda vai a tempo de melhorar. Nasce também uma vontade de os ver num espaço mais intimista e numa hora mais adequada que certamente beneficiará a prestação sólida e a maturidade em palco que estes rapazes demonstraram neste início de tarde. Para já, boas indicações de um grupo jovem cujo tempo polirá para algo ainda mais refinado. Avancemos.

De regresso ao palco Rio e numa hora que talvez tenha sido cedo demais, temos os Stoned Jesus. O grupo vem da Ucrânia e traz na bagagem o mais recente disco The Harvest, que viu os stoner-doomers a correr em pistas diferentes e a brincar um pouco com o hard-rock mais directo. Com um set variado e concorrido, os Stoned Jesus puseram-se no seu modo crowd pleasers e ofereceram um espetáculo envolvente e que animou todos os presentes. O tempo era sucinto, mas houve tempo para visitar tudo: uma “YFS” intensa e directa, tirado do mais recente registo, o devaneio prog de “I Am The Mountain” (a peça central do concerto) e até um pequeno excerto a aludir a “Invaders Must Die” dos Prodigy, que proporcionou aquele que foi o momento mais festival de todo o Reverence, com o público a bater palmas alegremente ao ritmo do tema. Comunicativos e simpáticos para os fãs portugueses, os Stoned Jesus prometeram voltar nos próximos tempos antes de se atirarem ao tema de encerramento “Here Come The Robots”, cujo apelo acessível e incessantemente badass serviu para acabar o concerto em grande nota. Foi boa a estreia do trio em terras lusas e a julgar pela clara empatia entre público e banda, este foi o início de uma bela amizade entre Portugal e os Stoned Jesus.

Algures mais tarde e entre as texturas mais surrealistas dos The Warlocks, estavam no palco Praia, os Cheatahs. Fazendo parte do grupo de embaixadores do shoegaze de nova geração, o grupo multinacional regressou a Portugal mais uma vez para tocar as canções do álbum de estreia e antever alguns momentos do próximo que está em vias de lançamento. Bem mais sólidos do que os havíamos visto em Coura no Verão passado, principalmente a nível de qualidade de som, os Cheatahs deram um concerto decente, mas ainda continuam a não convencer totalmente. Quer seja pela interpretação francamente pouco original que dão às músicas no seu formato ao vivo ou pela falta de intensidade e pujança que o género necessita para realmente convencer ao vivo, a impressão que fica é que, por enquanto, continua a ser deveras mais interessante ouvi-los em disco do que vê-los. Provavelmente a melhor passagem do grupo em Portugal e de maneira nenhuma uma espetáculo mau, faltou, no entanto e mais uma vez, personalidade e tempero aos felinos para que em palco sejam algo mais do que simples reprodutores do que fazem estúdio.

Estamos agora no fim da tarde e as cancelas abrem-se para que os festivaleiros experimentem, pela primeira vez nesta edição, o palco Reverence. A honra de abrir o espaço de concertos principal do evento coube aos Process Of Guilt, cujo doom industrial ofereceu uma dose de volume bem mais elevado do que a pacata vila de Valada estaria habituada à 19:00h. Com o logótipo erguido no fundo do palco, a banda portuguesa não poupou os presentes e lançou uma descarga de som altíssimo, certificando-se que cada riff era entregue de forma certeira e poderosa. O que mais se apreendeu do concerto dos Process Of Guilt foi como conseguiram enclausurar a sonoridade, criando uma redoma negra e atmosférica em torna da plateia, quase como se o concerto estivesse a ser dado numa sala fechada.

Embora obviamente deveras mais “airoso” do que seria se houvesse quatro paredes a rodeá-los, não deixa de ser um ponto a favor o quão pouco do seu som a banda deixou escapar pelo ar fora e como foi possível sentir, ainda assim, claustrofobia, à medida que banda nos presenteava com temas que tinham tanto de perigo e agressividade como música ambiente. Em suma, envolvente e intenso, e um abanão eficaz para quem, ao fim da tarde, já estivesse a dar os primeiros sinais de cansaço.

O peso e o cheiro a fábricas continuam, mas desta vez encarrilhados em linhas: a Bizarra Locomotiva ensina à CP como se faz e chega pontualmente em boa hora para matar. O conjunto veterano de metal industrial é o certame mais surreal e ameaçador que o fim-de-semana vai ver, pelo menos a nível visual. As calças de cabedal e boa dose de maquilhagem preta não deixam dúvidas: vem aí perigo. Contudo, a essência da banda vai para além do visual e durante a hora que o palco Reverence os teve, foi possível levar um abanão e ser transportado para os cantos mais obscenos e perturbadores de uma sociedade consumida pela indústria. Ao ritmo castrador de uma bateria motorizada, a Bizarra Locomotiva abalroou o recinto com os seus riffs abrasivos e a voz gutural de Rui Sidónio, cuja figura de gigante tempestuoso impôs o medo e o respeito de quem o adorava ou simplesmente observava.

Muitos foram os momentos em que o frontman descia até ao fosso para se misturar entre o público e não faltaram momentos intensos num espetáculo que, pelo menos a nível lírico, teve muitas susceptibilidades a ferir. Houve ritmo e houve peso, e no fim, de costas viradas para o público, umas calças completamente baixadas por parte do vocalista. Ofensivo, perigoso, pesado e veloz. Obrigado por viajar com a Bizarra Locomotiva.

O sol estava definitivamente posto e era agora a vez dos franceses Alcest tomarem conta do palco. Com raízes em géneros mais pesados, o percurso da banda tendeu a moldar-se para levas mais suaves na sua história recente. Actualmente mais exploratório e contemplativo, o grupo milita um som que pode ser descrito como um metal atmosférico, que vai de encontro ao post-rock e lembra outros projectos como os Cult Of Luna.

Assim, surgiram como uma ruptura eficaz num palco principal que até agora apostara tudo na agressividade e no sufoco. Notoriamente mais arejada, a música dos franceses tem espaço para variadas dinâmicas e crescendos, mas peca por não ser propriamente original nem ter uma identidade vincada. Em palco, a banda foi debitando os seus temas, que por fim, soaram mais mornos e estagnados do que deveriam. Um pequeno momento de calma por onde a história do palco Reverence não passará.

São agora as 23:00h e começa-se a estranhar um certo vazio na casa deste ano, que a esta hora ainda não se apresenta totalmente composta. Fica-se com a ideia que a segunda edição não havia trazido tantos festivaleiros como em 2014 apesar da inegável solidez do cartaz, mas também não há muito tempo para pensar nisso: começa agora Jon Spencer Blues Explosion. E independentemente de se ser ávido seguidor da banda ou simples curioso, não há mesmo tempo para pensar porque acaba de começar o concerto mais hiperactivo e lunático do festival. Sobre a figura de Jon Spencer, o tresloucado e ultra energético frontman, os Blues Explosion são verdadeiramente uma experiência em carris que só tem duas configurações: alta velocidade e o fim do concerto.

Do início à sua conclusão, os Jon Spencer Blues Explosion não deram espaço para respirar: a tocar a um ritmo ultra vertiginoso e a fazer caber tudo e mais alguma coisa dentro de um set de uma hora (desde o rockabilly, o punk, solos de harmónica, o blues e um theramin), o concerto do conjunto norte-americano parecia um VHS em fast foward, à medida que se explorava uma carreira de 1994 a 2015. Sem margem de dúvida, os mais contagiantes da noite, os músicos usaram todas as armas que tinham e apresentaram um espetáculo com um fantástico sabor retro, desde o equipamento, às condutas em palco e os loucos chamamentos de Jon Spencer, que incessantemente repetia a frase “blues explosion!” a fazer lembrar um anunciador de radio sobreexcitado.

“You wanna have some fun? I wanna have some fun. Let’s rock and let’s roll”. E foi exactamente isso que tivemos: um verdadeiro concerto de rock e um dos pontos mais altos desta segunda encarnação do Reverence. Muita dança, muita boa disposição e muito riff. Depois de um final abrupto que, apesar da vertigem, deixou na disposição para mais uma ou duas horas de explosão dos blues, a banda sai do palco, mas deixa ficar na plateia a sua energia contagiante. Impossível não ficar nem um pouco hiperactivo com esta autêntica descarga eléctrica. “Alright!”

Em cima da excitação causada por Jon Spencer e companhia, segue-se outro acréscimo: está quase na hora da subida ao palco dos míticos Sleep. A lendária banda californiana, considerada como o auge da cena stoner/doom vem ao festival com estatuto de ticket seller e aquele que de longe, mais expectativa reúne. Assim, à medida que a hora se aproxima para ver o trio composto por Al Cisneros, Mike Pike e Jason Roeder, o recinto vai enchendo e regista a maior enchente ao longo dos seus três dias.

Cinco minutos antes do tempo, os colossos do stoner chegam ao palco para adoração geral dos presentes. Rapidamente lançam-se uma sessão de jam baseada sobretudo na guitarra incendiada de Pike e a incluir algumas secções de “Sonic Titan”. Lenta e pacientemente, este devaneio dissolve-se para “Holy Mountain”, tema clássico do aclamado segundo disco da banda. É só a este ponto que conseguimos ter a perfeita noção daquilo que é o som dos Sleep: quando rebenta o tema, todos os instrumentos se emaranham perfeitamente e nasce uma autêntica montanha sagrada, como se o gigante que esteve adormecido definitivamente tivesse acordado.

Ergue-se então uma autêntica torrente de som que com certeza deslocou o curso do Rio Tejo, e é possível sentir as roupas (e praticamente o chão) a vibrar, tamanha é a força sónica que sai dos amplificadores. Nos rostos dos presentes vêem-se as mais variadas expressões de satisfação e muitas “metal faces”. Tirando o headbanging, a massa corporal está relativamente estática, mas a sensação de imersão é tangível e comparável até a um ritual meditativo.

A música dos Sleep é pesada e extremamente lenta, com a sua boa dose de padrões repetitivos. Não obstante, o seu trabalho faz-se de subtilezas e de muito discretas mudanças de dinâmicas que vão crescendo de forma quase imperceptível ao longo dos temas, o que lhes confere um cariz bastante complexo, em boa verdade. A melhor demonstração disto será talvez a colossal “Dopesmoker”. O conto épico com uma hora de duração, obviamente referencial a determinadas actividades mais liberais, foi o momento que se seguiu e serviu para evidenciar a mestria e badassery geral dos californianos. Tocá-la na íntegra seria sacrificar mais de metade de um set de hora e meia, portanto, a escolha de seleccionar excertos dificilmente desagradou quem quer que fosse. Uma experiência imensamente absorvente, desde os complexos e dinâmicos ritmos de bateria, constantemente em mutação, até aos colossais e emblemáticos riffs lançados contra o público. Provavelmente a canção mais desafiante dos Sleep devido às quantidades exorbitantes de repetição e lenta progressão, é garantido que a “Dopesmoker” irá ecoar nos ouvidos de todos os presentes nos próximos dias.

Mais tarde, foi ao som dos primeiros acordes de “Dragonaut”, (uma das canções mais imediatas e também especialmente celebrada por integrar a banda sonora do filme Gummo) que o público deu os primeiros grandes sinais de uma maior excitação, com até algum crowdsurfing a surgir. Houve ainda tempo de incluir uma muito mística “From Beyond”, cuja calma divagação psicadélica beneficiou de um céu encoberto e uma lua especialmente luminosa para lhe conferir um ambiente bem mais etéreo.

De referir também a perfeita harmonia entre plateia e banda no que toca ao sentir a música. O ambiente que se experienciou foi de completa imersão neste som gutural, que embrenhou toda a gente. Músicos incluídos. Destaque especial para o vocalista e baixista Al Cisneros que parecia induzido num transe que, com a sua voz de líder de culto, parecia autenticamente uma figura mística em palco.

Repentinamente, já são duas da manhã e a banda despede-se com sorrisos e “metal horns”. A noção de tempo foi completamente perdida e apenas recuperada no fim desta intensa viagem pela luz eléctrica e mundos míticos. Podemos praticamente dizer que ver Sleep ao vivo roçou um nível de experiência transcendental e que esta noite foi verdadeiramente uma das páginas douradas do historial de espetáculos ao vivo no 2015 de Portugal. Passou um terramoto em Valada e foi épico. Em todos os sentidos da palavra.

A noite vai longa, mas para os mais resistentes ainda houve muita música para explorar: entre as ambiências místicas e banhadas a cítaras, dos Saturnia até a uma Sunrise Jam Session a integrar membros vários de bandas que foram tocando esta noite, muitos foram os argumentos para os festivaleiros permanecerem acordados pelo Reverence. O festival entra no seu derradeiro dia a 29, com The Horrors, Amon Düül II, 10.000 Russos, Samsara Blues Experiment e mais.