Dia 3: Fossem todos os horrores assim

Chegamos ao derradeiro dia do Reverence Festival. Ao longo do fim-de-semana houve espetáculos caóticos e cheios de adrenalina como os dos Jon Spencer Blues Explosion e JEFF The Brotherhood, foi possível experienciar a magnitude dos Sleep e ainda seguir viagem na Bizarra Locomotiva. Apesar disto, o festival ainda está longe de acabar e o último dia guarda bastantes tesouros para todos os que se deslocaram à Valada do Ribatejo durante estes dias.

Independentemente do cansaço que já se vê notório até nas caras dos festivaleiros mais aguerridos, a boa dose de música continua a 29 de agosto com Samsara Blues Experiment, 10.000 Russos, Joel Gion, Sean Riley & The Slowriders, Amon Düül, The Horrors, Calibro 35. e Electric Moon, entre muitos outros.

Logo ao início da tarde, no palco Rio, estão os Altered Hours, um conjunto britânico de shoegaze que traz no seu composto genético um certo missing link com o britpop. Com um vocalista e uma vocalista a dividir a tarefa de cantar as composições pop vestidas a distorção, a banda apresentou-se concentrada e competente à medida que nos lançava nas suas canções regadas a chuva: (“these songs were written in the rain and now they’re being played in the sun”, dizem-nos a certa altura). Semelhante ao que se viu com os Cheatahs, o maior problema dos Altered Hours passou também pela falta de identidade inerente ao espólio musical. Não foi um ano de colheita para o shoegaze do Reverence.

Um pouco depois, e no mesmo cenário, deu-se o primeiro grande concerto do dia e discutivelmente, um dos melhores de todo o fim-de-semana. Era a vez do experiente (e experimentalista) trio alemão, que se dá pelo nome de Samsara Blues Experiment, tomar o palco com as suas deliciosas divagações sónicas. Assumidamente uma banda de psicadelia/prog old school, os Samsara estão também doutorados na arte do rock e do roll, como demonstraram este fim de tarde. Donos de uma perícia fantástica nos improvisos e transições que faziam, os alemães foram também donos de alguns dos melhores solos de guitarra do festival, criando autênticos momentos dignos de filme. Nota também para Hans Eiselt, um baixista extremamente dotado e provido de uma noção de groove absolutamente fascinante à medida que atirava para o público as suas saborosas e radicais linhas de baixo.

Sem qualquer tipo de pressa, o grupo fez a sua coisa e lançou-se aos seus longos temas, que se arrastavam por infinitas e loucas jams que carregaram a plateia e a levaram para uma viagem de longa distância, num equilíbrio perfeito entre a alta velocidade e os momentos mais contemplativos. Ao longo de uma hora houve tempo para o blues, para o psych e até um pouco do já tradicional stoner/doom. Com efeito, saímos de Samsara mais que satisfeitos e com infinito respeito por estes senhores. Perfeita demonstração do que é ter perícia e muito mojo.

Ainda com a viagem mística dos Samsara na cabeça, era agora hora de voltar ao Palco Reverence onde os portugueses 10.000 Russos iriam brevemente causar dano com os seus drones tirados do disco homónimo. Com influências no kraut e no space rock, o conjunto foi provavelmente o casting mais certeiro no que a horas de actuação toca. Por alguma razão, as 19:00h foram a altura perfeita para nos deixarmos levar na experiência profundamente imersiva e lunática que os lusos orquestraram. Tudo menos convencional, a música destes soviéticos começa e é carregada pelo ritmo. Através de um padrão de precursão repetitivo e hipnótico nascem as guitarradas rasgadas e os uivos loucos que ajudam a pintar uma paisagem desolada, mas estranhamente flutuante. A determinada altura, e por detrás de uma certa agressão sonora, começamos a descobrir a melodia condutora que, irremediavelmente, soa a um passeio a alta velocidade no espaço.

Entre soprar em microfones colocados entre os pratos da bateria e as tais brincadeiras com o feedback, os 10.000 Russos criam uma espessa camada de som banhada das menos convencionais texturas que confere à música um tom estimulantemente dormente e para altura que foi, até revigorante. Ao nosso lado ouvimos: “Grandes queimados”. É uma boa maneira de resumir as coisas.

Agora é a altura de Joel Gion subir ao palco. Devido a algumas questões de logística, os acompanhantes não são o sonho, mas são a best next thing, juntamente com o vocalista estão alguns membros dos Brian Johnston Massacre (onde também faz trabalhos de precursão). Agradável e bem passado, foi um bom aperitivo enquanto (ainda) se espera pelo prato completo. Talvez um dia…

Prontos a voltar com um novo disco e a iniciar ainda o processo de regresso aos palcos, ei-los, os Sean Riley & The Slowriders. Há uns anos lideravam a frente como uma das mais acarinhadas bandas do panorama português. Entretanto, dá-se um hiato que, entre muitas coisas, permitiu o nascimento dos Keep Razors Sharp. Mais bem vestido, mas ainda tão contente como o havíamos visto antes de ontem com o seu outro grupo, Afonso Rodrigues foi o caloroso anfitrião desta bela hora.

“Obrigado por estarem aqui, é muito bom tocar neste lugar”. Rodrigues não poupou afectos ao festival e a quem se juntou aos Slowriders, num espetáculo que foi crucial para matar saudades da velha folk tranquila, que na verdade, se conjugou em perfeita sintonia com o verde seco do Parque das Merendas. Quem esperava um alinhamento em jeito de best of não ficou desiludido (“Hold On” e “This Woman” estiveram presentes), mas convém dizer que o espetáculo estendeu-se muito para além disso. Lançados numa configuração mais aguerrida do que a sua encarnação em estúdio, as músicas da banda surgiram aqui mais musculadas, mas nunca adulteradas. As surpresas não ficaram por aqui e ainda houve tempo para mostrar novo material, que parece adivinhar um namoro com paisagens mais exóticas e psicadélicas. “Esta é para os mais novos”, anuncia o vocalista antes da banda se lançar a “State Trooper”, uma versão de Bruce Springsteen, que atribuiu aos The War On Drugs (todos temos o direito de ser brincalhões).

A única pena que se pode ter é a tão baixa afluência de pessoas para a qualidade do concerto. Provavelmente, muitos encararam (erradamente) esta hora como um furo para o jantar, o que não deixa de lamentar, já que se perdeu um pouco o ambiente de comunhão. Apesar de tudo, foi bom ter finalmente o regresso do rock bucólico de Sean Riley e companhia, que este ano levam a taça de “melhor concerto que ninguém viu”.

São agora as 23:30h e já se está a apresentar em palco a simpática ensemble alemã conhecida como Amon Düül II. Os precursores do krautrock e lendas de culto absolutas da música underground chegam-nos com o estatuto de veteranos, semelhante ao envergado pelos Hawkwind no ano passado. Com inúmeras formações, incontáveis trabalhos gravados, a explorar os mais diversos géneros, os Amon Düül II são um pedaço de história viva e vêm, através da sua gentileza e boa formação, dar uma autêntica lição a um recinto cuja metade fauna ainda nem era nascida quando a banda já usufruía da designação de lenda.

Os alemães tocaram pouco mais de uma hora para uma plateia interessada e afectuosa. Foi possível revisitar várias nuances da extensa carreira do grupo, desde as fases mais flower power, até a um hard rock aguerrido e espacial e ainda passando por uma folk psicadélica que despontaria eventualmente para um fantástico prog à moda antiga. Um destaque especial para a cândida voz de Renate Knaup, a principal anfitriã e condutora desta colorida exposição musical.

Em palco estiveram sete brilhantes artistas e dotadíssimos músicos (entre os quais, dois bateristas). O som era límpido e todos os instrumentos surgiram em harmonia uns com os outros, criando uma completa atmosfera ora mágica, ora espacial. Foi fantástico ver como é que os Amon Düül II partiram de composições em carris, mais directas, para complexas e intricadas dinâmicas, compostas de crescendos e climaxes gloriosos que iluminaram ainda mais a noite enfeitada pela tal designada Super Lua. O eclectismo e a técnica foram a palavra de ordem num concerto musicalmente irrepreensível.

Para o fim, esteve ainda reservado um incrível solo de guitarra acústica por parte de Chris Karrer, o talentoso multi-instrumentalista, que colheu colossais salvas de palmas, antes de evoluir para um absorvente devaneio kraut circa 1970. Acaba o espetáculo e somos todos de afectos por estes cidadãos senior. Claramente cuidadosos e dedicados em manter o legado vivo, os Amon Düül II são mais que tudo, um conjunto harmónico constituído por músicos muito talentosos que ainda vivem a vida a fazer o que sabem melhor: tocar. Façamos uma vénia a eles e à organização do festival por proporcionar tais oportunidades como a de poder ver bandas como estas.

Entre os veteranos alemães e o set de encerramento dos The Horrors, ainda houve tempo para alguns se deslocaram ao palco Praia para espreitar os italianos Calibro 35. Quem esteve presente não teve muitas dúvidas em afirmar que foi um dos melhores espetáculos do fim-de-semana. Inspirados na golden age dos filmes de mafia italianos, os Calibro 35. ainda nos conseguiram banhar com algum do seu funk e ginga. Aguardamos a oportunidade de os encontrarmos numa configuração mais pessoal.

Ao longe já se ouve a textura ácida e pós punk, enraizada em gentes como Echo & Bunnymen e Jesus & The Mary Chain, e avista-se a extensa estatura e extrema fineza do vocalista e frontman Farris Badwan. Foi aos The Horrors que coube a missão de encerrar o palco Reverence e que belo desafio se tem quando também se é visto como a persona non grata do festival.

Aquando a sua confirmação foi muito tentador considerar os britânicos como erro de casting. É discutível a existência de uma divisão entre o esquadrão marginal e underground e o esquadrão indie (que para todos os efeitos, já é o novo mainstream), não obstante, o princípio vital do Reverence é precisamente a abertura, pelo ao menos uma chance é preciso ser dada, e embora os The Horrors sejam conotados com outro tipo de cena musical e ambiente, não é totalmente descabido tê-los a encabeçar um evento como este.

Na ressaca do terceiro álbum lançado em 2014, o polarizante “Luminous”, talvez seja caso para dizer que esta foi a melhor passagem dos The Horrors por Portugal. Pelo menos, a mais confiante e sólida. A banda parece mais afinada que nunca, tomando conta do palco com personalidade e em conformidade com toda a sua estranheza gótica (nota para os épicos dance moves do baixista Rhys Webb). Com um som a ecoar graciosamente pelo recinto, os britânicos decidiram maioritariamente pelo discos que lhes valeram aclamação, Skying (2011) e Primary Colours (2009).

“Who Can Say”, “Scarlet Fields” ou “Moving Further Away” marcaram todas presença. Destaque para uma muita intensa e intricada “I Can See Through You”, que se alongou acima da dezena de minutos e a sempre encantadora “Still Life”, a trazer um pouco de The Verve ao Reverence. Pena é apenas que o conjunto tenha tido apenas uma hora para tocar e que a tenha usado num alinhamento praticamente igual a todos os que tem feito em Portugal, começando já a cair na monotonia. Isto principalmente, quando ainda há uma certa curiosidade em tentar entender como é que as canções de Luminous, mais dançáveis, se comportariam em palco.

Falta de confiança nesta nova direcção? Vontade de se manterem mais rigidamente fieis às origens? Enquanto nos batemos com este pensamento, começamos a ouvir “I See You”, avanço do novo disco e faixa escolhida para o encerramento, que, com a grandiosidade  e luminosidade da canção, acaba numa nota bastante satisfatória. Em resumo, foi um concerto animado, de som limpo, de muita cor e muito apoiado pela qualidade sólida da música. Foi a melhor forma em vimos os The Horrors e um bom espetáculo por si mesmo. Absorvente e cinemático, foi um concerto que por fim acabou por sofrer pela sua curta duração e uma plateia que progressivamente (e mais uma vez, de forma injusta), foi minguando. Os The Horrors deram-se ao Reverence, mas o Reverence não se deu aos The Horrors. É aguardar agora por um regresso com mais variedade e perante uma plateia menos teimosa. Nós pelo menos, saímos com as medidas cheias.

Entramos agora na madrugada e ainda existem quatro horas de música para experienciar. Destaques especiais para os Electric Moon, que estão aqui para quem acharia que Samsara seria melhor a altas horas. Embora muito diferentes e com jams ainda mais longas, os Electric Moon deram um espetáculo excelso, induzindo toda a gente num transe de grandes proporções. Mais sombrios e até menos óbvios que os seus conterrâneos do fim de tarde, os alemães reuniram a aclamação e o carinho dos portugueses, com muita gente a pedir até que se alongassem mais. Prova de como o Reverence ainda tem sempre muito mais para dar, até em altas horas, os Electric Moon foram uma das jóias mais reluzentes do cartaz deste ano.

Para os mais resistentes, houve ainda o espetáculo beatle-esco dos Magic Castles, que foram recebidos com uma plateia especialmente dançarina; e o surf rock javardo dos Dead Ghosts, onde ocorreu uma animada e pacífica invasão de palco, onde nem faltou um oficial soviético. Para encerrar, música mais exploratória, com os experimentalistas lusos Ghost Hunt e Acid Acid a trazer uma outra paleta de cores, com música baseada em synths (o mais próximo que aqui se teve de um after-party electrónico).

Houve ainda quem preferisse queimar os cartuchos no Salon Fuzz e dançar a temas de Slayer, Ozzy Osbourne ou Cramps ou juntar-se à Sunrise Jam Session no Rio, e esta variedade opções é precisamente o que melhor caracteriza o Reverence. Com a festa a durar até altas horas da manhã, foi bom comprovar como realmente se criou algo de especial e único no panorama festivaleiro português. Há uma qualquer aura que paira sobre este evento e curiosidade para ver o que reserva o próximo ano começa agora. Até lá.