Já bem estabelecido como uma espécie de figura ameaçadora e possante, sempre confortável no domínio do vulto e do covil bem húmido, Mark Lanegan é sem dúvida um artista dotado de um mórbido charme. Por caminhos mais intimistas e solitários, e outros que se demarcam pela garra e a expansividade, a música de Lanegan encontra o seu ponto de equilíbrio, não propriamente no peso ou na agressividade, mas antes numa sombra devidamente gótica e sobrenatural, onde o romantismo e o excelso beat encontram as auras mais transcendentais e mágicas que vêm colorir o imaginário cosmopolita que o cantor tem construído.

Assim, encontrando-se anteriormente por paisagens mais áridas e outras industrialmente delinquentes, Mark Lanegan apresenta-se agora felino e predador, pairando sobre os arranha-céus da modernidade que os teclados protagonistas da sua nova canção agoiram. “Nocturne” surge a antecipar o novo disco da Mark Lanegan Band, um novo registo reforçado numa formação mais numerosa e picante, e sugestivamente apelidado de Gargoyle. A imagem mítica do seu nome de baptismo remete certamente para o sentido geral da canção: uma que ora rasteja de forma veloz e ora sobrevoa furtivamente por cima das nossas cabeças.

O marchar teso e industrial da percussão antevê que algo nos persegue até que, sem aviso, cai a voz de Lanegan em canto de violência e devaneio, devidamente acompanhado por ecos de guitarra dorida e o borbulhar dos arpejos de teclado que de outra forma, vêm mudar o panorama mais seco da música para lhe introduzir uma humidade digital e extra corporal que se assenta que nem uma luva na conhecida ruga que é a carnal música do cantor. Rodeado de rock, drama e intriga, o novo caminho de Mark Lanegan começa-se a fazer a partir de agora, com Gargoyle a preparar a sua saída a 28 de abril pela Heavenly Records. Até lá, é não baixar a guarda.