O dia 21 de março ficará para sempre recordado na mente dos portugueses como aquele em que as ruas de Lisboa ficaram completamente cobertas de granizo; as condições climatéricas proporcionaram uma tarde diferente do habitual, fazendo com que as redes sociais ficassem repletas de fotografias de “neve”. A acompanhar este fenómeno veio o frio, veio mesmo muito frio. Apesar das camadas de branco já não se registarem durante a noite, as baixas temperaturas ainda eram palpáveis nas ruas do Cais do Sodré. Felizmente, os Ringo Deathstarr trouxeram o calor do Texas consigo.

Os Ringo Deathstarr voltam a Portugal depois de em 2014 terem feito as delícias dos presentes no Reverence Valada. Desta vez, voltam a protagonizar um concerto relacionado com o festival: as Reverence Underground Sessions. As R.U.S. tratam-se de concertos organizados pelo festival a acontecerem uma vez por mês na sala de concertos do Sabotage Club, de forma a tornar a espera para o grande evento um pouco menos dolorosa. Coube aos americanos estrear e dar o pontapé de saída a estas novas sessões, não havendo melhor escolha para tal. Regressando a uma sala onde já foram felizes, os Ringo Deathstarr aqueceram o corpo e alma daqueles que se reuniram na sala de concertos do Cais do Sodré com o seu cruzamento entre shoegaze e noise pop. Para tal, trouxeram três aquecedores – Colour Trip, Mauve e o mais recente Pure Mood – e fizeram daquela sala uma autêntica sauna. E o público bem que agradeceu.

Antes das influências de My Bloody Valentine, Ride ou The Jesus & Mary Chain se fazerem ouvir, a primeira parte estava reservada para Acid Acid, o projecto encabeçado pelo radialista Tiago Castro. De forma a dar vida às suas vibes psicadélicas e experimentais, contou com a ajuda do convidado especial João Paulo Daniel (Beautify Junkyards) nos sintetizadores. Juntos, criaram diversos estados de transe profundo aos presentes com as suas melodias cósmicas e absorventes; ao fechar os olhos, o espectador é levado para outra dimensão, sendo a música de Acid Acid o seu meio de transporte. A combinação perfeita entre a guitarra e os pedais de Tiago Castro e os sintetizadores  de João Pedro Daniel assinalou uma primeira parte de louvar, fazendo esquecer o frio que se sentia lá fora.

Enquanto uns ficavam já a guardar lugar e outros iam abastecer o depósito para a viagem levada a cabo pela banda noite, as luzes do Sabotage Club apagaram-se e os Ringo Deathstarr subiram ao palco. Engane-se quem contava em continuar o estado de transe do concerto dos Acid Acid ou a viagem por outros mundos: mal Elliot Frazier começou a tocar os primeiros acordes, o pessoal do transe acordou para uma realidade nua e crua, enquanto que os viajantes enfrentaram uma dura turbulência.

Não se pense que este súbito acordar foi uma coisa má, pelo contrário; a música de Ringo Deathstarr ganha toda uma outra dimensão quando tocada ao vivo, tornando-se agressiva e vibrante, exactamente aquilo que o público precisava para ficar ‘quentinho’. Embora Pure Mood tenha sida o ponto chave da noite, os trabalhos passados não foram esquecidos. Aliás, num concerto tão explosivo e ruidoso coube, por exemplo, a “So High” e “Kaleidoscope”, ambas de Colour Trip, acalmar os ânimos mas sem nunca atrasar o concerto. O pé estava no acelerador e não havia maneira de abrandar, sendo as músicas quase todas de seguida e havendo pouco tempo para respirar entre elas.

Em termos de alinhamento, o concerto seguiu a ordem cronológica dos discos da banda. Entre as seis a sete músicas que ingressavam cada um dos álbuns na setlist, o seu nível de ruído aumentava gradualmente até passar para o próximo disco. Quando se chegou finalmente a Pure Mood, o álbum mais sonante da banda, músicas como “Heavy Metal Suicide”, “Acid Tongue” ou “Never” desencadearam saltos, cabeças a abanar e até mesmo air guitars no meio do público. Sentir a música é isto mesmo… não há um guia sobre como o fazer, é espontâneo.

A sonoridade da sala do Sabotage Club chegou mesmo a ser um auxílio para a dispersão do som dos instrumentos, mas não tanto nas vozes. Apesar da onda do shoegazing ser exactamente a ênfase que o instrumental recebe sobre a vocal, não nos importávamos de ter ouvido a bela voz de Alex Gehring de forma mais detalhada em temas como “Guilt”. De qualquer das formas, o concerto não saiu prejudicado por causa desse pequeno detalhe.

Depois de uma hora de concerto alucinante, os Ringo Deathstarr, visivelmente agradecidos pela forma acolhedora que foram recebidos pelos presentes, despediram-se de forma rápida e sem encore, justificando-se que à sua espera estava uma viagem de dezasseis horas para França (mas sem antes fazerem uma pausa na clássica banca da merch). Quem procurava calor naquela fria noite de segunda-feira em Lisboa, encontrou para dar e vender dentro do Sabotage Club. De certeza que muitos acordaram com uma pneumonia, tal foi o choque térmico entre as temperaturas dentro e fora da sala, mas que se lixe; noites assim, é para viver ao máximo.