“Zé Brasileiro Português De Braga” -Alguém se lembra?! Corria o ano de 1979 e Maria José Marques Canhoto Gaspar, mais conhecida no nacional cançonetismo como Alexandra, concorria ao Festival RTP da Canção com esta canção de António Sala e Vasco Lima Couto. Não ganhou nem passou nas eliminatórias, mas ganhou o estatuto de clássico esquecido da música portuguesa mesmo tendo sido uma das canções mais tocadas do ano um pouco por todo o lado. Confesso que lá por casa havia um exemplar de um Polystar ou um Super Disco que tocava várias vezes por causa deste hit.

Rita Braga não é o Zé, felizmente também não é a Alexandra, mas é Braga de Lisboa e portuguesa brasileira do mundo todo e arredores recriado e ampliado ao palco de um pequeno cabaret que é só dela e nosso. É dela e nosso e de um Gringo qualquer perdido nas umbandas da vida, nas umbandas do coração, nas marchinhas transformadas em sambinhas turcos, nas balalaicas russas tocadas pela voz de Beatriz Costa a jogar poker bêbada com Tom WaitsRita Braga não é o Zé, mas é o rosto e o corpo do português espalhado por um mundo que sugou fronteiras e que progressivamente vai mostrando novas formas de emigração, de conhecer o pó da estrada pelo prazer e pela ganância saborosa de viver.

Mais que uma apresentação de um disco, Rita Braga traça um roteiro sem destino para uma noite de viagens; um roteiro de momentos que passam pelo Brasil, onde gravou o EP Gringo Em São Paulo que traz na mala de cartão, pela Suécia das suas Carmencitas #1 e #2 e do seu Klaus Nomi privativo – também quero um aqui ao lado da secretária a cantar-me Soft Cell em versão fado ao ouvido – por praias havaianas banhadas pela luz da lua pejadas de pequenos Elvis em vestidinhos de lantejoulas da loja do chinês e tantas, tantas coisas e detalhes escondidos entre as teclas do Farfisa, do ukelele, dos shakers, dos reco-recos e dos yangyangs – ou lá como isto se escreve – instrumentos inventados e criados com cabides, louças portuguesas e outras quinquilharias descobertas em lençóis espalhados pela Feira da Ladra em sábados de ressaca.

Rita é um mapa-mundi, a Rita é um objecto único e a Rita apresenta-se-nos sabendo da unicidade da sua deliciosa presença no mundo, da importância destas canções singelas que não são mais que brincadeiras sérias de uma menina-criança a jogar ao faz de conta com Kurt Weill e Marcel Marceau. Uma mulher-menina franzina de mil pronúncias maravilhosamente manhosas e de um cancioneiro de mil paisagens que deixou bem vincadas no palco da ZDB. Desde o inicial “Rockin’ Inside My Heart” – que bem que isto ficava num filme de Lynch – até aos derradeiros “Katyusha” – do qual o nome não deixa muita margem a adivinhações geográficas, mas uma vontade imensa de dançar com a primeira cabeça loura que apareça à frente numa festa de garagem em Kaliningrado – e o encore com “Teach Me, Tiger” imortalizado em 1959 por April StevensRita Braga passa por todo o lado, por tempos e épocas passadas e inventadas e passa pelo brasileirismo de “Tic Tac Do Meu Coração” de Carmen Miranda e dos temas do EP que vem apresentar.

O tema-título, que devia ser agarrado com unhas e dentes pela Escola de Samba de Beija-Flor ou pela Marcha da Mouraria, ou ainda melhor, pela Escola de Samba da Mouraria, enche a sala de frutas tropicais bamboleantes; “Poetas do Fim Do Mar” é canção para viúvas de pescador que choram em xailes negros junto ao mar e “Erosão” é a canção de passaporte português de Portugal mais bonita do ano e uma das mais bonitas de sempre. Imensa na delicadeza, enorme no poema escrito para caixa de música e frágil como um beijo quebrado pela solidão de um rádio de pilhas. Reescreva-se a história, por favor.