Jenny Hval chega a Blood Bitch, seu quarto título em nome próprio, reconhecida enquanto artista múltipla e plena – performer, trazendo a música, a poesia, as artes visuais para um encontro novo e que provoca estragos. Sabemos que este álbum desperta no rasto da tour que a levou durante mais de um ano a percorrer o mundo com Apocalypse Girl de 2015, primeiro titulo sob a égide da Sacred Bones. Depois de um percurso múltiplo – da cena gótica e metal norueguesa às produções sob o pseudónimo Rockettothesky, onde cabem ainda várias colaborações e participações –, Hval deu à luz trémula do mundo os álbuns Viscera, em 2011, e Innocence is Kinky, em 2013. Dos títulos às profundezas dos seus álbuns, nunca houve engano possível: estamos perante arte, revolução e carne, lugar onde se constrói um campo aberto para questionar os contextos políticos e sociais do tempo presente, nomeadamente o género. Experimental cai-lhe bem, mas não a esgota. E disso é prova a gema conturbada que teremos em mãos já esta sexta-feira: o álbum Blood Bitch.

Blood Bitch is also a fictitious story, fed by characters and images from horror and exploitation films of the ’70s. With that language, rather than smart, modern social commentary, I found I could tell a different story about myself and my own time: a poetic diary of modern transience and transcendence.

Produzido a duas mãos, entre a própria e Lasse Marhaug, este disco é de uma solidez acutilante e a sua presença é inteira e clara. Não que as viagens que tínhamos apreciado nos álbuns pretéritos, entre referências e sonoridades, sejam motivo de perturbação; eram, de facto o alimento de onde se erguia a maravilha. Mas Blood Bitch traz consigo a maturidade do encontro consigo mesmo – aos 35 anos, Jenny Hval parece ter encontrado a métrica de que todo o experimentalismo depende: o momento de excepção a partir do qual se pode começar o ritual. E para o ritual, a máscara, nas palavras da própria:

There is a character in this story that is a vampire Orlando, traveling through time and space. But there is also a story here of a 35-year old artist stuck in a touring loop, and wearing a black vampire wig. She is always up at night, jet lagged, playing late night shows – and by day she is quietly resting over an Arp Odyssey synthesizer while a black van drives her around Europe and America.

Partimos, sentidos todos atentos. E somos logo chamados a transcender essa razão que nos conduz na primeira faixa do álbum, cujo titulo é símbolo da iniciação prestes a cumprir-se: “Ritual Awakening”.

No ritual sabemos do limbo, da catarse, da inversão e do regresso à ordem. O ritual é, de facto, um tempo que rompe, transgride para um regresso pleno. Iniciados pela sonoridade mítica e mística que abre o álbum, entre um tom digital e orgânico onde os ecos começam a tomar lugar e a voz tímida e frágil vai abrindo um rasgo de estranheza, estamos presentes, mas será que prontos? A percussão abre “Female Vampire”, hino de doçura e violência em partes iguais a isso que é existir. A sonoridade é electrónica, com rumores de urbe e de perigo, e começa a ganhar a forma de um apelo ao corpo – o ritmo de fundo que impele os músculos para um espaço ainda ameaçador porque disperso, confuso, despersonalizante. Apresenta-se a personagem maior, esse vampiro mulher.

Here it comes, here it comes
A strange slow rhythm, not exactly creating a rhythm
In and out of focus, vulnerable, the original crevasse

“In the red” é a fuga que abre a continuidade deste álbum. O ser tenebroso, indistinto, disperso que se apresentou, está agora presente no som de uma corrida ofegante onde assomam gritos catárticos – “It Hurts… Everywhere”.  A razão e a linguagem regressam em “Conceptual Romance”, momento eximiamente construído neste diário de transcendência poética. Melodia encantatória, doce. Assume-se a identidade que antes nos assustava e a linguagem abre com a voz etérea um espaço de paz, que veremos transitório. De pensamento, de corpo em reflexão.

This blood bitch’s tale goes a bit like this:
I lose myself in the rituals of bad art and failure
I want to give up
But I can tell
My heartbreak is too sentimental for you (…)
What can I say? I don’t know who I am, but I’m working on it”

“Untamed Region” segue-se, abrindo com sons de escrita e um teclado hesitante. Ouvimos a palavra falada, finalmente introduzindo a moldura do presente a que este ritual se dirige. E na respiração lenta da música, respiração literal da vampira, assomam as palavras, a spoken poetry de Hval em toda a sua glória, que conhecemos bem. A fragilidade tem aqui o seu êxtase, exposta entre som e palavra.

I have big dreams
And blood powers
My own artistry
My combined failures

“The Great Undressing” abre com um diálogo entre Jenny e uma amiga, em que somos relembrados de que o álbum é sobre vampiros. Mas a voz troante da musa ergue-se:

Like Capitalism is unrequited love
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love
I’m not getting from you
And all the people in the world

Não perdemos ainda a distância, Hval relembra-nos que o ritual está o tomar lugar num mundo mediado – queríamos estar nessa floresta nórdica a experimentar o sangue eterno mas estamos aqui, com música, e é preciso sabê-lo para que se permita ultrapassar a superfície do real. Um sinal para que o amor exista – “Because I love you”.

Entre o amor e a morte, a loucura e um coração negro, maldito que não cessa de bater. É de desejo e é de sangue, fluxo intermitente de batidas, de palavras, de linguagem que é só pulsação de pecado: luxúria, violência, orgulho. E as luzes brancas da cidade, das especulações científicas, dos sensos comuns – normas e desvios do amor –, vão pela boca adentro, gengiva, crueza do sangue das mulheres, estão desfeitas numa só cinza de vida. Falhar, falhar ainda desejando, entregar todos os flancos – Hval é a bruxa, o vampiro, o ser semi-eterno e sempre morto, ou sempre vivo, que nos conduz.

Por onde? Conversas, registos – a memória do vampiro, de Orlando, corpo atravessado entre as eras, híbrido, múltiplo, dissonante capaz de sentir tudo, de ouvir tudo e de o tornar no seu sangue, alimento maldito e maravilhoso. Só podia resultar de um experimentalismo sonoro. Todos os continentes estão contemplados, todos os bárbaros, as Catedrais mais sagradas e os lugares na margem do capital – rastos de néon em estradas, assassinos em série, ruínas, fogueiras, nimbos, úteros como ouvimos em “The Plague”, momento de um negrume instrumental, de epifania onde tudo se mistura: filmes de série B, a maldade explícita, o exagero, a hipérbole de uma vida nunca em imagem, nunca em palavra, mas sempre aí – o final-êxtase do limite é a oscilação. Música que a isto tudo pertence, mas em nada disto permanece, tecendo de um som a outro a complexa escuridão.

Hval destrói a fronteira da percepção, deixa que tudo freneticamente se contamine, que venha ao corpo, que o destrua e reformule. Não há caminho, nem renascimento. Há sangue, sangue por todo o lado. Na confusão dos nossos tempos a metáfora, a representação e a identidade são um só – e Jenny Hval sabe-o escolhendo as máscaras que a revelam nua. Nunca saberemos se um vampiro ama, se menstrua. Nunca sabemos se o amor é belo ou terrível. Amor ou desejo? Queremos acreditar que o humano se funda numa moral benigna. Mas o outro serve-se e serve-nos – estamos sempre a beira da crueldade e da violência. A construir na solidão e no erro as balas de prata que servem a todos. E é precisamente aí que se situa este álbum, vindo das brumas nórdicas, do corpo, porque dizer o corpo é dizer tudo de uma mulher que se move em todos os média da arte. Arte falhada, arte má, diz-nos ela. Arte, porque é preciso permitir o desejo, o amor, o gaze dos outros, dos vampiros como nós.

Como não podia deixar de ser, este rito narrativo, com um arco bem definido, convoca a alquimia obscura mais real dos nossos tempos – o cinema. Sabemos da própria Hval que buscou  inspiração na imagem mais crua, a dos filmes de terror série B dos anos 70, mas podemos acrescentar uma miríade de ambientes onde as palavras, e as construções musicais caberiam. Os fantasmas do cinema descem e povoam Blood Bitch – narrativa, imagem e duplo. Poderia ser Monica Vitti de pé, filho pela mão, em frente a uma imensa fábrica na Itália dos 60, no Deserto Vermelho de Antonioni. Ou este vampiro transmutado nos corpos dolentes e febris, vivos, de Pasolini, paixão e sofrimento igualados. Ou ainda, recordando temas e imagens em movimento que nos são mais próximas, o rosto hierático de Tilda Swinton olhando o seu amante em Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch. Não deixemos, porém, que nos fuja a sensibilidade para longe do sangue – este sangue é real, terreno, e feminino como, aliás, nos lembra “Period Piece“, aquele que é o tema onde a provocação encontra a libertação, subvertendo o segredo feminino em canção catártica.

“Secret Touch” e “Lorna” encerram a iniciação. “Secret Touch” abre-se à alegria que prevalece no limiar final do terror, e o ritmo rápido e electrónico eleva-se na voz vítrea e intensa de Hval. Finalmente o corpo dança, mas liberto. “Free!”, estamos vivos, os sentidos limpos e a liberdade inaugurada sem que haja fronteiras – uma música para um horizonte infinito de possibilidade. Como madrugada no bosque nórdico, o corpo dança, o corpo sabe.

There comes a certain point in our lives when we more or less
Desperately want to be bad
When we gladly exchange the good things
Just for a short moment, feel alive (…)
Consolidation
Of violence, of separated nights
Need to, need to regret it
Because we have no language
To express that applause, boast
Ravishing, ravishing
Destructive, and most of all, most of all
Absolutely necessary
Be sane to feel alive
(Free!)
To die, to die”

“Lorna” marca o final do percurso e fala de desejo, encerrando o círculo místico numa melodia inquietante e onde o medo assoma de novo. Termina com uma pergunta, que retoma a afirmação inicial, sobre a necessidade de comunicar estes densos e perversos processos. Mas se não há linguagem para a potência do desejo? “Can we find it?” Ouvimos um som rápido, como se se desligasse a magia, feita máquina. E a vampira ferveu-nos o sangue, irremediavelmente.

Jenny Hval- Blood Bitch

Jenny Hval- Blood Bitch