O quarto dia da 11ª edição do Jamenson URBAN Routes esgotou, e quem não comprou o bilhete aguarda desistentes à entrada do Musicbox onde há até quem ponha um cartaz ao pescoço na esperança de entrar e ver os Black Lips.

Na sala de espectáculos as pessoas distribuem-se pelos cantos, caras reconhecem-se de outras andanças, as primeiras bebidas são pedidas, os primeiros cigarros fumados, até que… os Stone Dead entram directos ao palco e focados no seu tempo.

Os Stone Dead dão corda ao Musicbox

A noite não podia começar de melhor forma, e é o baterista Bruno Monteiro que dá o apito e se lança a “Blooze”, a primeira música do mais recente álbum da banda, Good Boys, editado a 13 de março deste ano.

Temos assim a primeira amostra do que valem: o bruto turbilhão de peles a tempo e contra-tempo, a delicadeza de partir pratos, a sintonia das vozes e das cordas melódicas numa velocidade excitante que todos acompanham, pois, “there ain’t no time for blooze”. “Apple Tree” é entregue em uníssono pelas vozes de Bruno, João e Leonardo num claro exemplo do stoner rock que desde sempre influenciou a sonoridade da banda. A eterna questão sobre o sentido da vida é prontamente respondida com uma elegante escala desenhada no baixo pelos dedos de Leonardo Batista e, ainda, com um poderoso solo na guitarra de João Branco.

A postura destes rapazes de Alcobaça é robusta e assim se mantém até ao fim, em que a sua presença quase hirta contrasta com o caos provocado por um público envolvido pelo som. Nas veias dos Stone Dead está-lhes a vontade de tocar, e por isso cada segundo é aproveitado para ecoar o máximo de partículas sonoras, criando-se no espaço um autêntico frenesim. Perante o pedido do baterista para respirar, o vocalista João Branco responde com a sua guitarra, pois quem corre por gosto não cansa, e é essa adrenalina contínua que os torna tão viciantes.

Na linha da frente ficam os curiosos, e neste dia o leque de pessoas é diverso. Mas após as articulações aquecidas ao nível das vozes, surge na pista o à vontade típico dos espectáculos de rock, aquele que proporciona a formação de um buraco que vira negro com os empurrões e que atrai o segurança para acalmar os ânimos. Arranca-se um “Silver Ball” num momento nostálgico para os fãs que entram no mágico ondular criado pelos doces riffs melódicos da canção editada em 2015, assaltados pela brutalidade do rock.

Stone Dead Musicbox

A participação do baterista, enquanto vocal de apoio e vocalista, dá à banda a presença que o fundo do palco poderia tirar. Ouvimos “Moonchild”, e aqui Jonas Gonçalves – o guitarrista que fundou a banda com Bruno -, derrete-se nas memórias e canta “I just want to be me” sem o microfone, pois é já impossível esconder a viagem conquistada pelos próprios pés. Depois de “Candy” e antes de embalados por “Another Wine”, medeia-se o tempo com “Monks, uma música do próximo disco a ser lançado para o ano que vem e que deixa a certeza que os Stone Dead não se ficam por um primeiro êxito.

O último tema a subir ao palco do Musicbox nesta noite é uma cover de “T.V. Eye” dos The Stooges, música que vestem com confiança. Ouvem-se os primeiros acordes e já uma rapariga grita o nome da música, obtendo um sorriso do vocalista João Branco que a confirma sem desmanchar o seu charme blasé de estrela de rock. Diz-se que os últimos são os primeiros e, de facto, é o baterista que pára o concerto contra vontade de todos que o estado de êxtase não incentiva ninguém a que a história da noite se finde neste preciso ponto. Por fim, ainda de guitarra ao peito, João Branco envia um beijo, despedindo-se.

A noite começou bem e o público está sedento de rock, venham os Black Lips!

Neste concerto, a participação da saxofonista Zumi Rosow é a novidade dos Black Lips que levam já 18 anos de carreira. Quando sentada, após tocar “Sea of Blasphemy” do terceiro álbum dos norte-americanos, Let It Bloom, Zumi suga a atenção das câmaras, que captam a sua elegante silhueta a preto adornada com o dourado do saxofone e dos seus colares. “Family Tree” do sexto álbum, Arabia Mountain, é a segunda música a agitar as paredes do Musicbox, e já em família todos dançam e saltam de braços no ar, caminhando para Cole Alexandre, vocalista e guitarrista. Cada música começa com o lançamento de um rolo de papel higiénico pela baqueta do baterista Joe Bradley, seguido do usual contar decrescente da bateria, 3,2,1… desenrolem o rock!

Os Black Lips sabem fazer festa e querem chamar o público para os seus momentos mais íntimos. Criam-se linhas de papel desde o palco ao fundo da sala, provocando a imaginação de muitos que o agarram e até relançam. Numa mesma situação caricata, o manager da banda atira rolos lá do canto, perfazendo um total de 24 rolos de papel higiénico, parte deles para ensopar os litros de cerveja derramados na confusão. Apesar disso, o papel não foi distração e em “Dirty Hands”, música de Let It Bloom e uma inocente balada de amor, leva a momentos nostálgicos de paixão juvenil, agora acompanhada pela pandeireta do baterista na mão de Zumi Rosow. É ao som de “Boys In The Woods” do penúltimo álbum, Underneath the Rainbow, que o manager da banda se posiciona em frente a Jared Swilley, baixista e vocalista, tentando cessar os sucessivos assaltos ao palco numa atitude de quem chama por mais. A selvajaria já se instalou “when the boys start to drinking you know it ain’t no good” e não há quem os pare.

Foi preciso vir “Cristal Night” do novo álbum Satan’s graffiti or God’s art? para acalmar as almas com as vozes de Zumi e de Jared. O belo dueto de bocas no microfone capta a atenção de todos com uma representação fenomenal: um beijo ao passado acompanhado pelos vocais de Cole, que agora se posiciona mais atrás sem perder a atenção dos espectadores, acrescentando num golpe frio uma cuspidela para o ar que engole com estilo, vestindo logo de seguida a rispidez de “Stone Cold”, do primeiro álbum.

Black Lips Musicbox

O hino da banda é claramente “Katrina” de Good Bad Not Evil que provoca a loucura dos fãs que se manifestam com alegres interjeições. Há quem desabafe já não ter idade para o concerto; porém, isso não é condicionante. A estrutura física ajuda, mas o que importa é ter a rebeldia do rock no sangue. Segue-se  “Can’t Hold On” do novo álbum com o ritmo imprimido pelo baterista, mas é o repetido agudo da guitarra de Jack Hines que arrepia. Em resposta à voz de Cole Alexandre, quem não aguenta é o público, que assalta constantemente o palco para dele voar entre a multidão, transformando-se este num espectáculo circense com acrobatas profissionais que se atiram até de costas.

“Funny”, música do penúltimo álbum, já ganhou o hábito de assistir ao mamilo esquerdo de Cole destapado numa representação da sua virilidade que neste concerto não se faz excepção. Do novo disco, “Raw Meat” é a música que, supostamente, acabaria a noite, mas num concerto deste calibre não poderia faltar o já tradicional encore. Para acabar, os últimos momentos do concerto foram concretizados com “Hippie, Hippie, Hoorah”, um tema que tão bem descreve aquele estado de felicidade. A última das últimas é “Noc-A Homa que encerra a noite numa vivacidade típica da banda e só sabida por quem já viu. Por fim, e enquanto os Black Lips se despedem, Jared Swilley é puxado pelo público que o carrega de mão em mão, sem se saber que tinha uma costela partida.