Isto é o céu na Terra. Ou é a Terra no céu?” Era uma dúvida plausível. O ensemble liderado por Rodrigo Leão nos teclados – com violoncelo, violinos, viola e percussões, guitarra e módica -, estava há vinte minutos no palco montado na clareira do frondoso Parque Palmela, em Cascais, quando quem se recostasse e olhasse para cima veria também no topo um belo cenário: nuvens baixas, coloridas pela iluminação amarelada do parque que voavam velozmente sobre as copas densas das árvores oportunamente durante o atmosférico barroco da instrumental “Espiral II” (do inicial Ave Mundi Luminar, de 1993). Um dos muitos instantes bons de um concerto que, sem exagerar, logo nos primeiros vinte minutos já tinha valido a compra do bilhete para escutar Rodrigo Leão num espaço mais orgânico que as plateias cobertas.

Mergulho profundo para um voo sinuoso

Com rigor, houve bons instantes ainda antes de Rodrigo começar a tocar; a primeira parte do espectáculo foi preenchida com categoria pelo jovem teclista e compositor André Barros, que entusiasmou a plateia. Acompanhado por um violinista, Barros revelou ser um discípulo artístico do protagonista da noite, pelo conceito muito cinemático das suas composições (que também recordou o malogrado Bernardo Sassetti, autor da excelente banda sonora de O Milagre Segundo Salomé), e evidenciou por que foi galardoado no Festival Independente de Filmes de Los Angeles com o prémio para Melhor Banda Sonora de curta-metragem para Nosso Pai. E por ambas qualidades foi muito aplaudido pelo público de Cascais, tradicional apreciador de boa música erudita e conservadora.

Depois do intervalo… Depois há instantes que nem só visto, porque é mesmo só estando, in situ, se possível vivendo o momento, sentindo livremente sem o labor emocional de manter um exógeno olhar crítico e fazer anotações ou disparar fotos para tentar informar de como foi. Porque… como descrever? Como descrever as impressões de estar ladeado por árvores, entre acolhedores taludes trajando vegetação e escutar livremente o ecoante som do ensemble de Rodrigo Leão tocando Florestas Submersas, sublime ícone não imagético – um oxímoro de flora ondulada por águas muito profundas, com astral do Extremo Oriente, pela imensa placidez contida e projectada na melodia -, num palco situado a escassos cem metros do oceano? Ainda por cima estando os músicos acompanhados pelo irrepreensível vídeo subaquático de Gonçalo Lopes, que sendo cognitivamente supérfluo, teve a fática função de fazer as Florestas Submersas parecerem ainda mais impressionantes, tornando inevitável o mergulho emocional no fantasioso universo artístico de Rodrigo Leão.

Não há phones capazes de sequer replicar aquela experiência que quase banalizou a curta “Tardes de Bolonha”, tarantella valseada ainda do tempo de Leão nos Madredeus (1990, álbum Existir) ambientada pela módica e emocionada pelas cordas agudas, experiência essa que teve uma réplica quase tão carismática na já elencada “Espiral II”, parecida com a anterior no conjunto de instrumentos e também curta, mas num fantasioso ritmo barroco. “O Tango dos Malandros”, mais um instrumental, com algo parisiense, mas também afadistado, de Lisboa, pleno de alma latina, surgiu oportuno para completar o troço inicial devolvendo os espíritos na plateia à terra.

Nas asas do go(d)spel Selma

As próximas músicas vão ser cantadas pela Selma Uamusse.” Foi assim o anúncio do que se revelou como a maior (e melhor) surpresa do espectáculo para quem não (ou)viu as apresentações do recente Retiro nos Coliseus. Porque para quem seguia Selma ‘só’ no rock n’roll de Paulo Furtado (Wray Gunn, The Legendary Tigerman) e/ou na carreira a solo em bluesy Tributo a Nina Simone ou com os próprios originais, às vezes tribais, com certeza Uamusse surpreendeu na faceta muito lírica de “Melancolia” de O Retiro, do ano passado durante a qual encantou chorando o desencantado “Já não importa, também sei chorar“. E assim mereceu a primeira ovação, que retribuiu com um singelo “Muito obrigada! Boa noite.

E se ainda restassem algumas dúvidas sobre o ecletismo vocal de Selma, certamente foram dissolvidas nos controlados vibratos durante o clássico “Vida Tão Estranha”, que fez o público explodir num excitado aplauso àquela interpretação com muitos berros – em Cascais, sim, porque lá também se vibra ao som do sublime! Um visceral aplauso que aumentou a oportunidade de “A Corda” – com longa pausa para afinar o violoncelo, que Rodrigo preencheu com um bem humorado “Carlos Tony Gomes, responsável pela afinação e autor de muitos arranjos para cordas” -, um quase tango pujante, emotivo, pautado pelo corajoso verso “salto outra vez para a corda“, convictamente interpretado por Selma Uamusse que no fim abandonou o palco ao som de merecidíssimas palmas.

Como se para reunir as energias dispersadas por Selma, num alinhamento muito bem elaborado. dois instrumentais induziram uma intercalar reclusão espiritual: “O Retiro”, etéreo tema homónimo do último álbum que com a projecção-vídeo fez perguntar: “E se o Paraíso for um endógeno labirinto de Sabedoria e controlo emocional?“, seguido por “A Vida Secreta das Máquinas, Fábrica G#” (2014), o tema mais contemporâneo da noite, alicerçado numa camada electrónica de onomatopeias industriais e ilustrado pelas icónicas cenas de linhas de montagem que poderia ser o instrumental de uma canção dos The Gift no tempo do Film deles.

Um breve repouso emocional que Selma validou logo na primeira de três canções em inglês, a monumental “A Song Of Africa” – letra de Karen Blixon que Susana Travassos musicou -, enraizada no continente pela circular mbira tocada por um dos violinistas e pelas agudíssimas notas de violino que dotaram com a vibe afro a plácida melodia; Uamusse cantou um trecho de scat gutural como Maria João cantava nos 80s – ambas moçambicanas, curiosamente -, mas o que sobressaiu ao longo do tema foi novamente o lirismo afectuoso no cante dela, que deambulou entre a crueza de Nina Simone e o doce licoroso de Billie Holiday. Para mais um fortíssimo aplauso, que foi agradecido com um sorridente “Muito obrigada! Um agradecimento especial ao Rodrigo, por eu estar aqui hoje.

Final que ascendeu à Luz

Pelo título, “The Long Run” sugeriu que já se estaria no período final do concerto; sendo uma valsa jazzística cantada em Songs 2002 – 2014 por Joan (as Police Woman) Wasser, uma admiradora assumida das divas clássicas do jazz, foi muito a propósito que Selma Uamusse, em vez de tentar imitar o estilo particular de Wasser, trouxe para o palco o estilo sofisticado de Carmen McRae e Shirley Horn, como na entoação do decepcionado verso, “You’re not the man you used to be“. Um tema de mágoa, que foi de algum modo completado pela também soturna “Sleepless Heart”, balada que a série televisiva Equador (TVI) apresentou ao grande público.

Já sem a cantora Selma, Rodrigo devolveu o protagonismo à banda apresentando todos os músicos antes da interpretação de “A Estrada”, conhecido instrumental já antigo (2010) e usado em algumas publicidades, quase um lento bolero, mas com emotivas cordas klezmer ou magiares. Para completar o corpo do concerto, foi escolhida “A Comédia de Deus” (Cinema, 2004), mazurka marchada, tocada com guitarra; iniciada em rápido mood presto, abrandou um pouco para um andante animado pelo violino que voltou a engrossar; um tema logicamente cinemático para uma temperamental cena com mudanças de humor ou de filme mudo, no qual seria a ‘voz’ das emoções. O súbito final despoletou instantaneamente no público imenso aplauso agradecendo o que já tinha escutado e suplicado por mais.

E o encore veio introduzido quase a título póstumo pela etérea “Pássaros de Panjim” que antecedeu o clássico “Rosa”, cantado por Selma, regressada ao palco para completar a equipa que tinha encantado a plateia durante quase hora e meia. E que iria encantar mais: a intemporal “Ave Mundi Luminar”, obrigatório primeiro clássico da carreira a solo de Rodrigo Leão, foi interpretada num arranjo ainda melhor que o original, mais agudo – quanto vale uma imensa voz como a de Selma, que cantou sempre sem cábulas -, uma versão mais solar, mais radiante, absolutamente sublime a cem metros do mar. Um fim que poderia ser portal de início para quem decidisse ascender a algo mais transcendente.

Após a divinal rendição de “Ave Mundi Luminar”, era mesmo supérfluo tocar ou escutar algo mais, e por isso não se ouviu qualquer pedido de outro encore. Talvez o mais acertado fosse só dar um círculo de passos para (voltar a) apreciar o bosque, sair do parque, atravessar a estrada e contemplar o infinito Atlântico e o céu estrelado. Ave mundi, ave Rodrigo! Como também Hollywood sabe, graças também a ele, Portugal está mais clássico que a antiga ditadura de fado(s).

O imaginário visual de Leão pelas imagens de Carlos Mendes:

Rodrigo Leão @ Parque de Palmela