Existem uniões que nem a distância consegue impedir de chegar a bom porto; existem colaborações que parecem destinadas a acontecer; existem comunhões de vontades e de verdades que parecem escritas nas estrelas. E esta, entre Rodrigo Leão e Scott Matthew, é uma delas. “Terrible Dawn” e “Incomplete”, temas em que colaboraram antes, provaram ser um breve e feliz tirocínio para algo maior, algo grandioso e longo, longo como a vida. E o fruto maior desta promissora colaboração é nem mais que Life Is Long, o novíssimo disco destas improváveis almas, geminadas sob a égide de uma sublime estética musical.

Colaborar com outros artistas, muitos deles sobejamente celebrados, não é algo que seja novo para Rodrigo Leão, com o pedigree único de ter sido membro fundador de dois dos mais ambiciosos e importantes projectos musicais portugueses – a saudosa Sétima Legião e os mundialmente reconhecidos Madredeus. Fê-lo, por exemplo, com nomes maiores da música como Beth Gibbons, dos Portishead, Neil Hannon, dos The Divine Comedy, Stuart A. Staples, dos Tindersticks ou Ryuichi Sakamoto. E Scott Matthew, com um background severamente mais modesto, existindo quase num ponto antipodal a Rodrigo, que rápida e facilmente se inseriu nesta elite de colaborações, ele que, com a sua rica e profunda voz parece ter nascido para interpretar na perfeição as notas que saem da inspiração de Rodrigo, cantando, elevando, sentindo e fazendo sentir as palavras que não existiriam senão neste contexto especial, e nesta colaboração única.

Única, e dotada de uma intimidade avassaladora, lânguida, resplandecente e imensa, repleta de uma química entre ambos os intérpretes, Rodrigo e Scott apresentam-nos um disco pleno de ambição, emoção, e histórias. Sempre com uma nota de melancolia subjacente, as melodias compostas e expostas aqui aliam-se, então, à quase pesarosa voz, a voz que mal a ouvimos nos entra coração adentro, a voz que nos obriga a prestar atenção, a esquecer o mundo e a ficar em êxtase. E essa voz, e essas notas, essas melodias e essas palavras, contam-nos quase uma carta de amor: por um lado, como se ambos os intérpretes aqui declamassem a sua profunda admiração e devoção pela arte de cada uma das partes, num matrimónio perfeito de intenção e resultado; por outro, a qualidade tranquila e soturna da voz parece-nos contar várias pequenas histórias, umas de esperança, outras de despedida, algumas de alegria e outras de pesar. Aqui, assim como na longa vida que percorremos, o registo é variado, com momentos de terrível beleza e outros de uma penumbra que nos assola por completo e que fala connosco, que fala como se nos tão bem conhecesse, sobre a vida e sobre tudo que existe no meio.

Life Is Long, é, no seu âmago um álbum que se adequa na perfeição à estação em que nos encontramos; nas suas melodias e nas palavras que as interpretam e dão vida, sente-se uma imersão profundamente outonal, e as notas que nascem desta colaboração como que nos transportam para tardes e noites de outono passadas a calcorrear as calçadas, sem rumo e sem vontade de parar, sentindo os primeiros frios da época, ao mesmo tempo que nos remetem a viagens dadas á introspecção. “Child”, uma breve e bela canção de embalar dá o mote para o que nos espera. Existem aqui histórias; nota-se, sente-se. As contadas, e as cantadas. As que existem nas notas musicais, as que compõem as palavras, e as histórias que ficam por contar, mas que se intuem.

Num crescendo gradual, musical e emocional, somos carregados por uma voz que nos conforta e dá alento, mesmo quando nos canta sobre perdas e separações. É a vida, that’s life, c’est la vie, ou o apogeu encontrado em “That’s Life”, tema de finíssimo recorte, clássico na sua execução, e um clássico para a eternidade. É a mesma voz que nos fala de perdas e separações e a mesma inspiração que nos traz melancólicas composições, também elas capazes de nos trazer mensagens plenas de esperança e de audácia e superação. Tudo é, acima de tudo, natural: fins, inícios, o que se perde e o que se conquista – e é esta aceitação, e a paz que acarreta, que nos eleva. Em “Death Defying” falam-nos de uma Graça maior, que é maior que alguma coisa que jamais conhecemos, maior que algo que jamais tenhamos visto. E é este registo esperançoso, com uma devoção renascida e radiante, que em jeito de coda Life Is Long – uma das grandes verdades subjacentes, aqui e na vida que vivemos – eleva o todo que veio anteriormente e conclui superiormente um trabalho de eleição.

Herdeiros aparentes de uma tradição musical celebrada nas músicas de bandas como The Divine Comedy, Lambchop, de vozes infusas de magia e esplendor como Scott Walker ou Nick Urata, Rodrigo Leão e Scott Matthew dão-nos em Life Is Long um tratado de virtuosismo e beleza em treze andamentos, com a certeza que estes minutos passados a ouvi-los se multiplicarão amplamente. Recordamos o vídeo para “That’s Life”, um dos grandes momentos encontrados em Life Is Long. Aqui, Scott canta-nos:

It’s only love, but it’s delicate and handmade.

E é, desta tão simples maneira, que melhor se descreve este acto de amor, delicadamente belo.

Rodrigo Leao e Scott Matthew - Life Is Long