Domingo, e a noite cai sobre a cidade, trazendo com ela a perspectiva de assistir a um concerto de Rodrigo Leão & Scott Matthew. Como que por antecipação, um pouco por todo o lado, sente-se no ar o aroma das castanhas assadas, e a brisa que se vai tornando gélida, lembra-nos que o Inverno se aproxima. Mas nesta noite de frio e calafrios, seriam outros os arrepios que nos iriam assolar.

Na mítica sala de espectáculos da capital, o Coliseu dos Recreios, um dos ex-libris por excelência dos palcos nacionais, e inserido no âmbito do Misty Fest ’16, e após concertos no Porto e em Évora, Rodrigo Leão & Scott Matthew proporcionaram-nos então a possibilidade de assistir a um dos grandes concertos da temporada. O Coliseu vestiu-se de gala para os receber e lenta, mas seguramente, se compôs a audiência presente nesta noite. Sentia-se uma enorme antecipação com o álbum Life Is Long bem presente no coração de quem aqui estava e a promessa aí contida aguçava-nos o apetite: tornava-se palpável o desejo pelo início do concerto e pela total imersão nas melodias melancólicas e harmoniosas de Rodrigo Leão, elevadas pela tour de force que é a voz de Scott Matthew.

A espera termina enfim; as luzes da sala apagam-se e somos envoltos por um mar de noite, pontuado apenas pelo brilho dos ecrãs dos smartphones. No palco, e por entre a escuridão, vêm-se fugazes e ténues figuras que rapidamente tomam os seus lugares e, quando se faz luz, outro mar, este de aplausos, acolhe os músicos. Após um breve prelúdio instrumental, “Enemies” traz-nos ao palco o imponente Scott, alto e altivo, magnético e encantador. Revela-nos uma faceta de grande simpatia e mostra-se como bastante comunicativo. “Child”, uma doce e frágil lullaby, seguido de “The Fallen”, são momentos em que todo o ensemble mostra do que é capaz, e Scott adverte-nos aqui que não é conhecido exactamente por escrever canções felizes. Não faz mal, Scott. Acredita que gostamos – e muito -, do que escreves.

Mas um concerto de Rodrigo Leão e Scott Matthew é também, parcialmente, um de Rodrigo Leão e outro de Scott Matthew. Sendo verdade que este concerto aproveita para dar a conhecer Life Is Long, não é menos verdade que, e tendo um repertório tão vasto como Rodrigo Leão tem, se aproveitasse dele; e fê-lo em alguns interlúdios instrumentais, enquanto Scott repousava a sua fenomenal voz. Primeiramente, traz-nos temas que parecem contar histórias evocando imagens várias. Como que se tratassem de pequenas bandas sonoras. Depois, e mais à frente, um par de tangos trazem animação e sangue latino ao Coliseu. No entanto, e antes desses momentos, Scott conta-nos como conheceu Rodrigo, e como eventualmente acabaram por colaborar, o momento ideal para o primeiro grande arrepio da noite: “Incomplete” ruma contra o próprio título e traz um sentimento de repleção à alma. E, não querendo ficar atrás, de Rodrigo, também Scott toma por assalto o palco e apresenta-nos duas pérolas que perdurarão nas memórias de quem lá esteve pelo resto da vida: do seu álbum de covers, Scott interpreta primeiro Charlie Chaplin, com o seu eterno “Smile” que na voz grave e delicada de Scott, acompanhada apenas por uma guitarra acústica, se torna absolutamente memorável; e, depois, “I Wanna Dance With Somebody”, original de Whitney Houston que ganha aqui uma dimensão diferente e profundamente intimista, na qual todo o público, e a convite de Scott, se junta para cantar em uníssono, o familiar refrão. É imprescindível mencionar que tudo isto a que assistimos em palco resulta na perfeição porque não assistimos a uma mera transposição do que é feito em estúdio, e ao vivo todos estes temas ganham vida adicional, ganham novas roupagens – ainda que por vezes subtis -, e novas camadas. E funciona, acima de tudo, porque a acompanhar a voz de Scott, e a interpretar a imaginação vasta e belíssima de Rodrigo, está um ensemble musical de eleição.

“Life Is Long”, tema do homónimo álbum, é trazida a palco em absoluta apoteose com uma interpretação plena de emoção e catarse. Um dos grandes momentos da noite, sem dúvida, mas entre tantos momentos memoráveis, “That’s Life”, o primeiro single de Life Is Long, e sem dúvida alguma, acaba por ser aquele que arrebata definitivamente o público. É interpretada duas vezes – a primeira, ainda a meio do concerto, na versão mais próxima do registo de estúdio, e mesmo no fim, em encore, é trazida a palco de novo, desta feita num registo mais acústico, inicialmente, mas com cada membro do ensemble a ir assumindo gradualmente as suas posições e orquestrações naturais, até que num crescendo épico toda a sala se une em redor da majestade cantada por Scott em “That’s Life”. À medida a que as últimas notas ecoam pelo Coliseu, e pelas mentes e corações de todos, a assombrosa e merecida salva de palmas para todos os interpretes perpetua a noite vivida pelos anos vindouros.

O sucesso continuado do Misty Fest atesta cabalmente que existe um lugar para o folk, para a vertente singer/songwriter e para uma pop de índole barroca. As grandes noites no historial do festival são já inúmeras, e esta, com Rodrigo Leão & Scott Matthew, assumiu o seu lugar no panteão. A noite termina com uma incrível vontade de se ouvir mais, mas como fomos tão maravilhosamente avisados, that’s life. E, sendo assim a vida, resta-nos esperar por mais, muitas mais, noites deste calibre.

Rodrigo Leão & Scott Matthew @ Coliseu dos Recreios

Rodrigo Leão & Scott Matthew @ Coliseu dos Recreios

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