28 de Junho. Teatro Tivoli BBVA. 21:50. Sala bem composta e bem-disposta para receber de alma cheia Rodrigo Amarante, que vai conhecendo quase todo os cantos à capital e outros tantos cantinhos no país, voz nómada que é. O seu primeiro e derradeiro álbum a solo, Cavalo, é apresentado em modo de celebração com entoação de despedida. Ainda antes de começar, algumas pessoas entoam o início da música “Tardei”, símbolo máximo do álbum que se cola aos ouvidos para não mais sair. Não se fala aqui do prazo das músicas, que não têm expiração, mas é já tempo de zarpar para outras melodias, outros acordes, outros timbres dessa voz tão quente e fala-se já de um novo projecto prestes a germinar.

“Um cantinho, um violão, esse amor, uma canção, prá fazer feliz, a quem se ama…” desta vez, Amarante colocou-se sozinho no palco. Com a camisa meio desbotada e enrolada, um homem e uma guitarra, partes indissociáveis um do outro, e um piano, mote para as baladas mais incisivas. O público abraçava-o e ele abraçava o público de volta, sem constrangimentos.

O carioca, que conta já com uma discografia invejável e uma carreira deliciosamente erguida – recordemos Little Joy, Orquestra Imperial ou os notáveis Los Hermanos -, encontra-se fora do Brasil há oito anos, tendo o ninho em Los Angeles, situação que muito contribui para a sua visão do mundo que é, também, a sua visão da música. Naquele palco coube uma constelação inteira e os felizes contemplados não conseguiram esconder o sorriso.

Auto-intitulando-se amador, dizendo-nos que o que faz é em nome da paixão, Rodrigo Amarante conversou com o público a noite inteira e mais teria falado, se possível fosse. Por precaução ou graça, contava-nos como estava ansioso por ser o único a pisar o palco sem a habitual companhia que o ladeava, como vimos em prévias presenças no país, apresentando o mesmo projecto num registo mais colectivo e com sonoridade menos acústica. Estalava os dedos, ia contando piadas para descontracção, mais sua que do público, pois este já se encontrava bem confortável, querendo, aos poucos, saltar da cadeira. A cereja no topo do bolo surgiu precisamente na possibilidade de o acolhermos sozinho em palco, sem distracções senão a sua própria, capaz de sustentar um solilóquio entrelaçado na metafísica e nas questões existenciais da sua interpretação, homem só mas não sozinho, ocupando todos os poros da sala, com as suas cordas elásticas, aptas para mil sons.

Cabelo despenteado, expressão matreira, ia gingando, com o seu jeito bonacheirão tão característico, de olhos que, mesmo à distância, sabem comunicar com muita força, lançando as músicas com arranjos frescos e variados, constantemente fatais ao sentimento luso-tropical como se de novidades se tratassem. Em jeito de sambinha, com um carinho muito próprio, que logo virava canto de cortar a respiração, formava esgares na face, à procura da batida perfeita, do ritmo certo da voz e das cordas, do sentimento mais específico a par com a sua própria respiração, que jamais falhava. Não podemos, de todo, queixar-nos. Recebemos avisos antecipados. Todo o clima era de absoluta vulnerabilidade. Emoção verdadeira à flor da pele, Rodrigo dizia estar a sentir cada verso, estando tenso e controlando-se, experimentando tudo como se fosse a primeira vez, arrepiando a sua pele e a nossa.

Dos bastidores trouxe-nos trovas em homenagem à capital:Lisboa, que pena que só me vês assim, mal dormido e mal vestido, um lixo, enfim…tens de me ver às três da manhã, com uma garrafa de gin”, soltando do público infinitas gargalhadas e colocando todos os cantos à vontade, bem a respeito do que significa uma digressão e como há uma calendarização rigorosa a manter. Descrevia as diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, e como achava o “primeiro elegante e o segundo com um bom corpo, mas mal vestido”, no fundo brindando a esta diversidade peculiar das duas formas de ser de uma língua que lhe deve tanto e que ele mesmo honra tanto. Confidenciou-nos que nunca havia ido a Amarante, embora o avô insistisse com ele, confirmando serem daí as raízes portuguesas da família e confidenciando-nos como sempre quis fazer uma digressão pelo país. Aqui está ela, bem a tempo de a celebrarmos e de cantarmos com este homem polifacetado tudo quanto nos ensinou.

Pôde ainda desvendar alguns dados sobre faixas do álbum. Para “I’m Ready”, por exemplo, das mais comovedoras canções de Cavalo, reflectiu na dor que sente uma mãe ao receber a notícia do filho, morto, condecorado postumamente. Isto permite-nos imaginar a música de forma bastante visual e, quiçá, bem distinta do que tínhamos imaginado inicialmente. “The Ribbon” surge interligada a essa canção. Neste caso, Amarante pensou na figura do soldado morto, nesse momento específico aquando da sua morte, reflectindo sobre tudo o que havia experienciado até então, vícios e virtudes. A plateia estremece e este é, sem dúvida, um dos momentos altos da noite, se todo o concerto, em si, não tivesse sido já um momento alto, constantemente alto.

O ritmo do serão foi incansável e equilibrado como um belo jantar entre amigos. Mesmo quando nos dizia já não ter repertório, por ter cantado todas as dez faixas de Cavalo, pedia ao público sugestões para as músicas seguintes. Cantou-nos, inclusivamente, “Tuyo”, genérico da série Narcos, da Netflix, causando uma explosão de alegria contagiante entre os presentes. Mas admitimos querer mais, sempre mais, de tudo o que nos possa oferecer o futuro com Rodrigo Amarante e as suas letras e instrumentais.

Camuflando-se na guitarra e, no minuto seguinte, abrindo bem os braços para cima, Amarante esteve incansável, não parando senão para conversar e conversar, sentindo-se absolutamente à vontade. É interessante comparar este registo com a actuação presenteada, por exemplo, no aquário da ZDB, e, mais impressionante ainda, é a sua capacidade de acolher o calor de uma plateia, tornando-a ainda mais quente, seja qual for a sua dimensão e as características da sala, e isso é já um dom de louvar. As músicas que seleccionou para cantar fora da sua obra a solo e dos álbuns com as bandas do passado, surgiram sempre em inglês, a sua segunda língua de eleição, que tão maravilhosamente se adapta às suas cordas vocais, justificadas também pela permanência nos Estados Unidos da América e pela composição, já há tanto tempo, de músicas nessa língua. Tudo quanto dava à sala era recebido como mel, sem nenhuma distinção.

Repetia-nos que a música ajudava à sobrevivência, que tudo funcionava como quando os militares marcham e cantam em simultâneo, ajudando a avançar, a crescer, a aguentar os dias com outro ânimo, fazendo subir o astral mesmo àqueles que da música retiram somente o prazer de a escutar.

“Saudade eu te matei de fome”. E que bom foi, e que bom é receber o Rodrigo Amarante num mar de amor, eternamente recíproco, sem fronteiras, sem limites de entrega total. Na expectativa dos clássicos, houve um aplauso gigantesco quando ecoaram pela sala “Tardei” e “Irene” e um arrepio colectivo quando as teclas premiram as primeiras notas de “Fall Asleep” ou “Cavalo”, faixa que dá nome ao álbum. 23:15 e tivemos de largar o Tivoli, embora muito contra a nossa vontade. Um suspiro final e as luzes acesas.

Para além de três músicas cantadas em inglês e não editadas, por enquanto, Amarante trouxe-nos um Cavalo renovado, cantado na íntegra, com eterna vivacidade e nunca descurando uma dose abismal de amor e carinho, para dar de bolsos cheios. Foi uma despedida em grande. Agora, que o próximo encontro traga novos sonetos, novas cordas de saltar, para fugirmos, sempre, e juntos, a toda e qualquer forca.

Setlist

Nada em vão
Mon Nom
I’m ready
O Cometa
Irene
Cavalo
Fall Asleep
Tardei
Hourglass
Tuyo
Pode ser (Orquestra Imperial)
Maná
The Ribbon
Evaporar (Little Joy)

Rodrigo Amarante @ Teatro Tivoli