Roísin Murphy - Take Her Up To Monto
85%Overall Score

Simultaneamente discreta e híper notável, a cantora e compositora Roísín Murphy é uma persona difícil de tirar dos olhos assim que se cruza em frente dos mesmos. Dotada de uma pujante e inconfundível voz, bem como de uma estética visual extremamente directa e singular, há poucos artistas musicais actuais a flutuar no middlestream que sejam tão imediatamente singulares como a irlandesa de 42 anos. Murphy manteve-se ocupada durante um hiato que a viu entrar nas mais variadas colaborações e projectos, percurso encoberto que decidiu tomar enquanto reinventava a sua própria carreira. Assim, após um surpreendente Hairless Toys, à distância de oito anos com o anterior Overpowered, a musa do Reino Unido afirmou a sua ascendência a uma rainha pop, não daquelas feitas de confettis e chupa-chupas, mas de moda, atitude e visão.

Ascendência ao Olimpo Pop

Take Her Up To Monto é precisamente um novo capítulo nesta nova fase da cantora que agora decide cruzar todas as suas sensibilidades (entre as quais, a cinematográfica, experiência já começada com Hairless Toys, ao realizar os seus próprios videoclips) para produzir música que, não deixando de ter um sentido pop, procura novas afecções e experiências, como a progressiva brincadeira com a criação de crescentes composições atmosféricas e um registo mais íntimo que, certamente, consegue viver por detrás de toda a extravagância glam e new age. O quarto disco é mais evidentemente um registo de autor, o que nem por isso faz dele um projecto de pequena escala: há uma expansividade suficiente nas suas nove músicas para deixarem que o ouvinte se perca noutras paragens, mas o seu tamanho é suficiente para que todas as maquinarias e texturas soem suficientemente humanas que possam caber no mundo real, nunca se sobrepondo à voz da artista. Mais que nunca, é Roísín que manda.

Estas canções podem perfeitamente ser-se imaginadas a serem concebidas em frente ao piano, iniciando-se quase todas com uma leve melodia de teclado ou uma qualquer frase vocal que dará azo a uma eventual torrente de elementos que irão expandir a canção. Estruturalmente, acaba por ser um álbum extremamente simples, pegando nestes objectos mais elementares, como uma batida ou uma melodia, e vestindo-os a rigor para encaixarem na idiossincrasia de Murphy. Em muitos aspectos, Take Her Up to Monto não faz menos do que veríamos num disco de algumas das maiores divas da música, de Hardy a Simone: um irrecusável charme de voz a conduzir belíssimas e directas melodias que em toda sua simplicidade soam intemporalmente intricadas e expansivas. Aqui, o jazz vocal de Murphy encontra a linguagem nocturna e sintética que a coloca a cantar sobre belos acessos de sintetizadores tocados como pianos de cauda, ornamentados por batidas de dancefloor em registo de gala e charme. “Whatever” é um bom exemplo disso, com belíssimos arpejos digitais a flutuar a volta de um clássico piano reverberado que dá o mote para uma intimista balada clássica, a lembrar um velho tema do clássico Hollywood.

Por outro lado, entre a veia mais pessoal e despida, surge Murphy a querer também desafiar as sonoridades pop. “Romantic Comedy” é um dos momentos mais empolgados, sensuais e perigosos do disco. Sobre uma batida gingona, surge um registo vocal atrevido a avisar para se ter cuidado com a brincadeira. Entretanto, ríspidos delays e rítmicos acordes de sintetizador compõem uma bela peça midtempo que a tornam num belo momento de r&b ácido que eventualmente cai para um período instrumental onde a cantora se retira para ir abanar a anca. Depois, a seguinte “Nervous Sleep” entra na electrónica minimalista para entregar uma faixa de quase oito minutos de exploração atmosférica. Leves gotas de teclados vão subindo e descendo na escala, criando uma vibe claustrofóbica e nervosa enquanto o distante eco de Murphy vai aparecendo e desaparecendo como um espírito. É preciso também referir a ambição quase orquestral em alguns destes temas: “Thoughts Wasted”, por exemplo, eventualmente evolui de balada de salão para um crescendo épico de cordas que poderia estar no mais recente dos Radiohead, apesar de se recolher de volta talvez demasiado abruptamente.

Algo inspirada numa certa tradição, Roísín encontra em Take Her Up To Monto (nome de uma canção popular irlandesa), uma certa herança folk e jazz que pretende desenvolver. É por isso que, simultaneamente, encontramos momentos dignos de filme e outros mais despidos e elementares. Seja qual for o registo, não obstante, o mais impressionante é como a artista aqui consegue pôr a orquestra digital ao serviço destes estilos e modas, fazendo todo o rol de sequenciadores e efeitos soarem eminentemente orgânicos e tornando quase impossível distinguir os elementos mais rústicos dos mais sintéticos. Fora disto, neste disco nem por um segundo esquecemos quem está no centro do que se está a ouvir, e a sua autora surge como uma verdadeira estrela a cantar as visões mais pessoais e as vicissitudes de uma vida pintada pelo artificialmente iluminado imaginário nocturno. Roísín faz-se ouvir a ela para além daquilo que dá a ouvir e com Take Her Up To Monto cria mais um disco inteligente e expressivo, cheio de arte e alma a gravitar à sua volta. Pop em boas mãos.