De Austin, Texas chega, a Portugal, com uma postura pacata e sorridente, Ryan Sambol. Mas não chega pela primeira vez, ele que por cá já se passeia há mais de 10 anos, ora com a sua banda, os Strange Boys, ora a solo –como aconteceu no Lounge, que acolheu o seu primeiro concerto a solo, de sempre, em 2009.

O Lounge, que o recebe novamente esta noite, é já uma segunda casa para o cantautor: foram os Strange Boys que inauguraram, nesse mesmo ano, o palco da sala lisboeta e, desde então, Ryan, tem voltado tal como filho pródigo e enraizado fortes amizades com o staff desta casa (e não só). Ryan decidiu passar uns dias de férias em Portugal e acabou sendo convidado para abrir o concerto dos The Men, no Musicbox, que decorreu no último dia 30 de maio, e aproveitou o embalo e arranjou mais um concerto na sua “casa” lisboeta.

A Tracker Magazine encontrou-se com o músico num espaço que ele próprio conhece muito bem: a
Faculdade de Belas Artes, que conta ter “frequentado” durante 4 anos quando ia visitar amigos, ver arte e comprar algumas obras na antiga loja da faculdade. Acabado de chegar do Porto, Ryan esteve a viajar sozinho pelo país, passou uns dias em Guimarães, cidade pela qual se apaixonou e confessou ser o seu local de eleição se vivesse em Portugal.

Como é que que te apresentarias ao público que ainda não te conhece?

Sou um cantautor americano, nascido em 1986. Acho que não tenho muito mais para acrescentar.

1986 é um ano com um grande hype neste momento aqui em Portugal: um cantautor português, Benjamim, fez a meias com um amigo seu inglês um álbum chamado 1986, por ser o ano de nascimento dos dois, e temos também uma série televisiva chamada 1986, que decorre precisamente nesse ano.

(Risos) A sério? Será um bom presságio! Foi sem dúvida um grande ano (risos).

Enquanto parte dos Strange Boys e agora como one man show, qual é a maior diferença que sentes quando estás em palco?

Penso que seja na ligação com o público, tem que haver mais ligação. É preciso falar mais. É preciso ser mais observador, ser capaz de ler a multidão, é quase como deixar o público liderar a atuação, em vez de ser eu a liderá-la, como faria se estivesse com a banda. Quando se está com uma banda em palco podes sempre forçar um bocado, quando o público está mais conversador e estando sozinho tens que comunicar mais.

E no que diz respeito à composição, o processo é muito distinto?

Não, é basicamente o mesmo, simplesmente não tenho que o mostrar a mais ninguém. O que eu faço é praticamente compor e em seguida ir fazendo alterações, mudando uma, duas, três vezes, até estar perto do ideal. Ao mesmo tempo, como não tenho ninguém comigo em estúdio, nem em palco, posso fazer o que me apetecer e deixar-me levar pelo momento. Se estivesse numa banda e me deixasse levar pelo momento e talvez acelerasse o ritmo, o baterista talvez se chateasse (risos). Na verdade, as alterações de que falo também são possíveis de fazer com uma banda, só que levaria muito mais tempo. Precisavas ser os [Rolling] Stones, por exemplo, que podem jammar durante horas e tudo sai bem. Mas eu não tenho dinheiro para uma banda dessas (risos).

Ryan Sambol

Criaste a tua própria editora, a Forever Wet Paint, és tu quem faz tudo na editora?

Para já sim, ainda não tive ninguém a vir bater-me à porta. Eu gosto de fazer tudo. Inclusivamente, gosto de fazer os vídeos, tenho um novo, que sairá na próxima semana, e fui eu que o gravei com o meu amigo Daniel, que tem trabalhado como realizador desde os tempos de aluno na escola de cinema em Austin, Texas.

Podes falar do último EP, o Put Upon, que foi publicado no Bandcamp? É muito diferente do álbum anterior, Now Ritual?

Esse trabalho foi muito ‘cool’, fiz uma canção em Austin e o resto em Nashville com um amigo. Eu não lhe poria o rótulo de “diferente”, diria mais que é o início, quase uma ponte, para os trabalhos que virão a seguir. É um trabalho muito sincero, simples: cantautor, voz e guitarra, algumas canções estarão mais arranjadas, com a envolvência de mais instrumentos e melodias novas…

Serás tu a tocar todos esses instrumentos?

Depende de quanto dinheiro tiver! (risos) Tínhamos 16 anos quando comecei com os Strange Boys, na altura não tinha que pagar a ninguém. Agora temos 31, os músicos com esta idade já são todos bons, já sai caro contratar músicos para participarem num projecto destes. Até certo ponto, gostaria de ser capaz de pagar a uma banda, mas eu também gosto de fazer as coisas sozinho e à minha maneira.

Mudando de assunto, podes falar da tua relação com Portugal, e especificamente com o Lounge, onde irás atuar hoje? É um espaço que já te conhece muito bem.

Ah, sim! O Lounge… O Mário, a Catarina (uma das bartenders), o anterior agente de booking, desde sempre que costumamos sair juntos. Os Strange Boys tocaram lá… E depois da primeira tour europeia da banda, em 2009, que passou por Lisboa, eu regressei a Portugal de férias, trazia a minha guitarra comigo e encontrei-me com a malta e o Mário perguntou-me “Porque é que não tocas no Lounge?” E essa foi, de facto, a primeira vez que toquei a solo. A primeira vez de sempre, no mundo inteiro! Tinha acabado de sair o primeiro álbum da banda, foi um concerto difícil. Mas acabou sendo bom, fiz muitos amigos que estavam no público com quem mantenho contacto. Por tudo isso acho que é um espaço muito especial, sem dúvida.

Nesse concerto, tocaste só músicas dos Strange Boys?

Não. Foi algo repartido entre material da banda, canções minhas e algumas covers. Eu costumo tocar covers nos meus concertos, às vezes apetece-me, mas uma vez alguém do público, aqui em Lisboa, veio chatear-me no fim do concerto porque eu tinha tocado muitas covers. Acho que ele tem razão! Eu tenho muitas canções minhas, devia apostar mais no meu material e tocar só o que é meu. A questão é que eu não tenho um grande público nos EUA e acabo por me refugiar nas covers. Como no concerto da passada terça-feira, com os The Men, eu não sabia quantas pessoas iriam estar lá para me ver, não estou habituado a grandes multidões.

Ryan Sambol

Se só pudesses enunciar um artista, qual seria o que mais te influencia?

Provavelmente [Bob] Dylan, diria eu. Por várias razões, mas penso que principalmente por ele ser um “receptor” constante de canções e aceitou o seu destino muito cedo. Eu não me poria de maneira alguma nesse pedestal, mas de certa forma identifico-me bastante com ele. Poder viver a sua vida tranquilamente, e quando chega a canção só ter que a pôr por palavras. Obviamente que é preciso forçarmo-nos para praticar e para nos pormos em certas posições e perante certas circunstâncias que facilitam essa reciprocidade, e a partir do momento em que se percebe qual a maneira que mais se adequa a cada um, torna-se muito mais fácil, porque quando a canção chega é só preciso escrevê-la. Sem dar por nada, tem-se uma nova canção. E há outro ponto no Dylan que para mim é muito importante, que é não ter medo de mudar.

Dirias que já mudaste muito enquanto artista?

Com certeza! Os Strange Boys mudavam a toda a hora. Mas é importante essa mudança. O segundo álbum da banda foi escrito em duas semanas, depois da tour europeia. Se fosse hoje, eu teria tocado aquelas canções de maneira diferente, teria feito muita coisa diferente. Mas ao fim do dia, quando olho para trás, sei que fizemos o melhor que pudemos. Éramos jovens a fazer a nossa cena e isso é o mais importante.

Quando escreves, o que é que mais te inspira? Serão questões políticas, será o amor, o dia-a-dia…

Eu acho que é tudo… é tudo isso. Eu trabalhei a lavar pratos e lembro-me de odiar as sementes de tomate, são as piores, agarram-se aos pratos e torna-se difícil de limpar. E então podia escrever uma linha sobre as sementes que ficam agarradas e a linha seguinte seria sobre cruzar o Atlântico ou qualquer coisa que eu pudesse encontrar no avião. Poderia ser qualquer coisa. Eu acho que aí voltamos ao estilo do Dylan, de ser um “receptor”. Mas também uma boa memória pode sempre ajudar.

Qual é o teu maior sonho enquanto artista?

Hmm, pergunta complicada. Mas penso que seria ter tempo e espaço suficiente para fazer o que me apetece, sentir-me verdadeiramente livre. Mas aqui seria numa maneira diferente do Dylan (risos), o Dylan ficou demasiado famoso, eu não gostaria de ser tão famoso. Ele não pode ir ao McDonalds! (risos). Não que eu goste do McDonalds, mas gosto da ideia de poder lá ir tranquilamente. Penso que é possível haver um intermédio entre ser muito famoso e ser só ligeiramente conhecido. Até agora, tenho feito um bom trabalho em manter-me escondido dos flashes. Obviamente não quero ter que lavar pratos outra vez, mas tenho maior fascínio por artistas que se celebraram quando já eram mais velhos, quase a morrer, mas até lá fizeram o que queriam e como queriam até ganharem reconhecimento já mais velhos.

Ryan Sambol

Talvez já se saiba a resposta à próxima pergunta, ainda assim, qual seria o artista com quem sonharias partilhar o palco?

Não seria o Dylan! (risos). Não me atreveria. Mavis Staples. Eu seria capaz de fazer tudo o que ela quisesse. Ela tem gravado uma série de álbuns com o Jeff Tweedy, dos Wilco, e o último que saiu é incrível. Mesmo muito bom. Eu estaria a cantar que nem um louco e ela tem todo aquele soul que seria suficiente para equilibrar as coisas, por isso sim, Mavis Staples será a minha resposta.

Uma vez que vens muito a Portugal, já alguma vez consideraste mudar-te para cá?

Conheço bem Lisboa. Vim agora do Porto e acabei de descobrir Guimarães. A verdade é que se eu vivesse em alguma cidade portuguesa seria sem dúvida Guimarães, podes escrever isso! (risos). Em primeiro lugar seria Guimarães, em segundo lugar seria o Barreiro. Eu vivi durante um mês no Barreiro, em casa de um amigo, o Miguel Afonso, ele fazia parte de um grupo de rap do Barreiro, os Bro-X, têm um estilo tipo Ali G. É muito ‘street’ mas eu gostei de lá estar. Continuo a gostar muito de Lisboa, mas já não é a mesma coisa. Eu lembro-me de quando a Bica era um “País das Maravilhas” de música e era divertida, e agora deixou de o ser. O que é que se pode fazer? As coisas mudam. Por isso mantenho a minha resposta: Guimarães.

Para terminar, de todas as tuas memórias, qual terá sido o melhor e o pior concerto que já deste?

Tens de escolher uma resposta, só te dou uma: ou a melhor ou a pior.

Conta-nos a pior.

Eu sabia que ias escolher essa! (risos). Uma vez dei um concerto em Fort Wayne, Indiana, era o Dia de Ação de Graças, fazia um frio tremendo, finais de Novembro… Já começa bem (risos). Sem dúvida, não era o melhor sítio para se estar, nevava e tudo mais. E nós aceitámos dar o concerto, depois de muito tempo em tour, estávamos cansados, mas aceitámos. A organização tinha-nos prometido um jantar de Ação de Graças e nós imaginámos um banquete normal deste dia festivo. É de salientar que éramos quatro membros na banda e eles tinham-nos deixado apenas três embalagens para aquecer no microondas. Talvez não tenha sido o pior concerto, tivemos piores, mas aquele partiu-me o coração. Houve um também, quando tocámos no Radio City Music Hall, com os Deerhunter e os Spoon, e quando saímos do palco o director de palco veio ter connosco e perguntou se tínhamos uma carrinha branca e nós respondemos que sim, e então ele diz-nos calmamente ‘foi rebocada’. Nós estávamos no Radio City Music Hall e tinham rebocado a nossa carrinha e levado para o Bronx, foi terrível. Os Spoon tiveram que nos emprestar dinheiro para conseguirmos ir buscar a carrinha.

Ao concluir a entrevista o Ryan quis deixar uma mensagem para todos os Trackerinos: no concerto de logo à noite haverá canções novas “provavelmente as canções mais honestas que já escrevi”, haverá um concerto diferente e no fim irá utilizar o seu iPod para fazer de DJ, “porque não trouxe os discos”.

Um agradecimento especial à Faculdade de Belas Artes, onde decorreu a entrevista e a sessão fotográfica. Mais logo, pelas 22h, no Lounge em Lisboa, na Rua da Moeda 1, a entrada será livre.