Quando regressaram para uma nova vida em 2010 com My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky, os Swans apresentaram-se com um peso raramente encontrado numa banda ancestral que decide voltar. O conjunto americano não viu uma necessidade de total reinvenção, mas voltou com uma aura renovada. Em alma, eram os Swans transgressivos e acusatórios que sempre foram, mas em 2010 eram-nos de uma forma evoluída, actualizada e adaptadíssima aos tempos que correm. Sem um pingo de nostalgia ou revivalismo, a banda metamorfoseou-se na morte como um antigo ser que embarcou num longo sono apenas para recuperar as suas forças.

Agora, menos de 10 anos depois da reencarnação, o titânico grupo prepara-se para se voltar a enterrar nos confins de um novo aposento. Se será uma despedida definitiva deste formato mais “sólido” dos Swans (Gira continuará a fazer música sob o mesmo signo com formações diferentes) ou uma hibernação, fica ainda por se saber, mas para trás fica The Glowing Man, um novo capítulo desta nova vida que trouxe consigo picos de carreira bastante consideráveis para uma banda a caminho dos 40 de existência. De capa críptica e aptamente ancestral e mitológica tal como o som que a banda tem vindo a desenvolver, que tem muito de arenoso e transcendental, The Glowing Man apresenta-se como um misto de retrospectiva (quiçá, até a primeira real impressão de nostalgia) e uma continuação da eterna mutação da banda. Há sabores de uma auto-análise de um percurso artístico que metem este disco a nadar bem num regime de carta de despedida. Surge aqui um desfile desde o passado ao presente que afaga as linhas cronológicas e coloca pedaços de memória no mesmo caldo que de são feitas as novidades. Não é, certamente, um estrondo final antes da despedida, mas também não é propriamente isso que alguém deva na sua própria festa.

Encontramos, por isso, mais um álbum de sublime arranjo e potentíssima orquestração. Um registo sinfónico cuja qualidade tem sido realmente constante nos últimos tempos, pelo o que não se ganha em surpresa está sempre compensado na dedicada experiência que tem de ser ouvir um disco dos Swans (principalmente do principio ao fim ao longo das suas duas horas e meia de duração). Esteticamente, há um seguimento mais que lógico a To Be Kind, o último disco. Os alongados coros xamânicos, o rufar dos tambores e as saturadas chuvas de pratos regressam para criar aquela belíssima paisagem híper cheia de tons expressionistas e chamuscados pelo sol. É uma pintura esborratada onde o delírio, a divagação e o trance de alma muito religiosa tomam conta do ouvinte e escorrem por todo o corpo. Toda esta ambiência acaba por conferir a The Glowing Man uma espécie de versão redux do anterior, uma versão mais esguia, mais musical também, por vezes. Somos. aliás. remetidos de volta ao disco de 2014 na própria faixa-título quando uma secção de “Bring The Sun” encontra o seu caminho para compor ainda mais uma altiva e progressiva sinfonia que, na verdade, foi elaborada a partir de improvisos ao vivo dessa mesma faixa de To Be Kind. Um processo invertido de criação que adensa e liga ainda mais este universo sónico mutante e que soa, assim, literalmente vivo e orgânico.

Em jeito curioso, a revisitação também caminha mais para trás do que 2014 com a presença de “The World Is Red” que neste disco é siamesa de “The World Is Black”. A primeira canção, como conta Michael Gira, foi originalmente escrita por ele e oferecida de bom grado aos Sonic Youth, com quem os Swans partilhavam a sala de ensaios. Presente em disco desde 1983 no feral Confusion Is Sex, “Red” ganha aqui uma nova vida, longe da entrega animalesca e marginal que originalmente lhe foi conferida. Envolta numa moda muito arábica, move-se esguia e com elegância atrás dos fios de guitarra apenas de pouca reminiscência à sua outra versão e que se vão desenrolando ao longo dos mantras profundos da voz de Gira que vêm para o presente desde há mais de 30 anos. Um “eu” passado que vem inspirar o “eu” do agora da mesma forma como duas pessoas completamente distintas conversam e trocam conhecimentos, refere o próprio autor das letras. Eventualmente, a canção dá lugar a um acesso de claustrofobia pontuado por aquilo que parece um saxofone que não dá tanto notas como murros na barriga, enquanto tudo à volta parece estar a cair até que a calma reina de novo para receber uma salva de coros cerimoniais.

Os Swans manipulam-nos e endrominam-nos como se fosse a primeira vez. A torrente de som que sai destes músicos tão rapidamente nos faz passar da fúria para a candura e da candura para um transe extasiado. São capazes de levar 20 minutos para o fazer, mas ainda mais capazes de tornar irrelevante o valor do tempo a favor de uma perícia musical irrepreensível no que toca aos valores de dinâmica e composição. Em retrospectiva, já nem é surpreendente, mas ouvir estas canções erguerem-se e devorarem-nos (em vez de ser o contrário) é sempre uma sensação do mais elevado calibre. E poderemos sempre lembrar-nos disso enquanto a faixa-título central estiver a rodar. A composição é tão altiva e espectacular como qualquer coisa tirada da direcção mais recente do grupo, e tão horrenda e grave como aquele primordial e condenado negrume da crueza do início. “The Glowing Man”, a canção, poderá até ser simbolicamente a “pequena” estatueta mais representativa daquilo que são os Swans e do que vieram deixar neste mundo.

Aliás, The Glowing Man, o álbum, pode até ser, na verdade, considerado como uma das experiências mais representativas daquilo que são os Swans e, ao mesmo tempo, que nos deixa pequenas relíquias preciosas para se estimarem pelos tempos. Não pode deixar de haver menção a “When Will I Return?”, um pequeno dueto dominado pela esposa de Gira, Jennifer Gira, que vê a companhia do marido para ornamentar uma entrega semi-acústica repleta de uma trágica delicadeza e de uma natureza felina e fértil curada pela presença feminina. É um dos momentos mais fortes e purificantes existentes no disco, uma canção sobre revolta e ultrapassagem, tão terrena e humana e, ainda assim, tão candidamente gloriosa como qualquer outra do alinhamento.

Olhando para este último disco da actual encarnação dos Swans, vemos esta grandiosidade, todo este poder e este misticismo em conjunto com o irrepreensível rigor artístico pelo qual o grupo estará para sempre associado. Vemos também uma humilde mas certeira celebração de um grupo de trabalho, de uma carreira e do espólio que deles saiu. The Glowing Man acaba por ser a reflexão apaixonada sobre um dos mais singulares grupos a sair da música moderna e é muito mais um lugar para revisitas, apanhados e simbólicas homenagens do que qualquer tipo de afirmação ou demarcação pomposa. Sem grandes confettis ou carpetes vermelhas, faz-se aqui uma modesta cerimónia de encerramento de um ciclo. Ao mesmo tempo, deixa-se para trás mais um grande capítulo musical por uma das bandas que, na História, melhor fez por trazer o rock à condição mais elevada forma de Arte.