Caixa Económica Operária, Fevereiro 6, Another Night At The Box (de A Comissão)

 

Nos anos 80 portugueses, havia um perfil de jovens que era habitualmente designado “os vanguardas”; vestiam quase só negro (fosse preto ou cinzento escuro), muitas vezes de casacos compridos, mas não eram góticos, porque escutavam outros novos sons (vindos sobretudo do Reino Unido) que na maioria tinham letras introspectivas e tristes, mas eram ligeiros e dançáveis como a típica pop; foi o efémero movimento do qual saíram bandas como os Pop Dell’Arte, os Agora Colora e outras que importaram para a pop portuguesa o género wave (new, cold, dark) e o post-punk tocados por Joy Division ou The Sound ou The Chameleons Vox e grande parte das canções dos próprios góticos Bauhaus, The Cure e Siouxsie And The Banshees.

 

Alma Mater, sociedade talentosa

 

De facto, ao contrário do medieval gótico, a avant garde (guarda avançada) é logicamente precursora e por isso o então vanguardista wave é hoje um género da retaguarda, mas tem sido um escol musical com futuro, para contemporâneas bandas de vanguarda, como surgiram Interpol ou She Wants Revenge. E como são os portugueses Alma Mater Society que, com o ouvido no passado e o cérebro no presente, tocaram antes dos veteranos Sad Lovers and Giants, no Sábado, para mais que 100 pessoas.

À frente de uma projecção vídeo, o trio lisbonense já contratado pela mítica 4AD (bateria e baixo e guitarra, com voz do baixista João, que se apresentou comunicativo com o público) tocou cinco temas originais nos quais talentosamente recreou os sons post-punk da cold wave – “Forniphilia” e “Slow Motion”, mais próximas de Bauhaus e The Chameleons Vox, e “The Mistake”, a mais original daquelas três e que muito agradou à assistência – e os sons da dark wave – “Only Your Knife Knows” (com belos fraseados de guitarra) e a mais pujante “Hallucinations” (sobre um imaginado suicídio), que poderia ser uma música de The Cure -, com letras tristes, desde a ressaca de uma discussão de casal em “The Mistake” até à mutilação com facas em “Only Your Knife Knows”, numa actuação que empolgou os presentes, que exigiram ruidosamente encore.

 

Que voz tão bem amadurecida!

 

Os Sad Lovers and Giants (SLAG) são uns senhores a caminho dos 60 anos, que lançaram o primeiro disco 35 anos atrás – o single “Imagination”. Por isso, em 1981, quando bandas já elencadas estavam no auge, eles podiam sintetizar a tendência wave (sobretudo a cold e a new, dreamy) e a tendência gótica, e assim fizeram, tornando o próprio som um dos mais ricos e maduros dos anos 80, beneficiando da excelente voz de Garce Allard, cujo timbre era também como uma refinada síntese, de Peter Murphy (Bauhaus) e Marc Almond (Soft Cell), entre outros.

E muito afortunadamente, o concerto do Sábado mostrou que aquela voz amadureceu como um bom vinho! Desde a inicial “Close To The Sea”, com pouco usuais compassos de bateria, que transitou num longo instrumental cold wave para um medley com “In Flux”, até à cinemática dream pop de “Alaska”, que confirmou a excelência da voz do pouco mexido, mas ainda elegante veterano Allard, tanto na limpeza como no amplitude tonal – ao contrário de tantos contemporâneos dele -, servidas por uma técnica apurada em quase 40 anos e pela banda também em excelente forma, um coeso e afinado quarteto formado por bateria e baixo e guitarra e teclado, ao qual Allard juntou segunda guitarra em algumas canções – e o saxofone alto, que o próprio gracejou “Espero que ainda o consiga tocar…”, antes de executarem a quase onírica “Biblical Crows” e respectiva música surrealista, que o sax dotou com soul. E o astral onírico-surrealista foi alongado até à dramática “Vendetta” (com uma introdução quase krautrock), ao longo da qual Allard exibiu técnica digna de teatro musical na soberba colocação da voz.

Perante um público rendido à qualidade do concerto, a banda mudou de género e tocou “Man Of Straw”, canção cuja música parece herdada dos The Sound, facilmente dançável e que o público espontaneamente acompanhou com palmas a meio, como facilmente dançável é “Echoplay”, outra música new wave, ainda que com frases de bateria remanescentes do 60s psy-garage. Foi um dos períodos mais animados do espectáculo e após os músicos terem avisado jocosamente que uma luz encadeava o guitarrista Tristan, o pico foi mesmo “Sleep (Is For everyone)”, um post-punk com ‘driving mood’, que estaria bem em qualquer auto-rádio se o concerto não estivesse tão interessante.

 

Gigantes e amantes tristes, mas nunca chatos!

 

A goth pop de “Alice (Isn’t Playing)” iniciou o que foi o período mais soturno, mas também musicalmente mais variado, da actuação dos SLAG, no qual a banda avançou para “Islands” (com Allard também à guitarra), uma música cold wave cinemática, com traços dreamy, que suportou uma letra que sugeriu imagética pitoresca, antes da amargurada instrospecção em “Jungle of Lies, tão bem cantada que merecia o som dos instrumentos um pouco mais baixo, para apreciar melhor a impressionante voz. Na pausa seguinte, alguém pediu uma canção, deixa que Garce aproveitou para mais um espirituoso diálogo e para apresentar uma canção recente, “Beauty Is Truth”, um post-punk tocado com as duas guitarras, mais robusto que as duas anteriores e que a seguinte, a balada “Return To Clocktower Lodge”, cuja tristeza da letra, nem a ligeireza pop cadenciada pela bateria disfarça.

Em mais uma variação estilística, os SLAG espevitaram as águas com o pulsante rock da sorumbática “One Man’s Hell”, que o público acompanhou com palmas desde o início. E até ao fim do corpo do alinhamento, estacionaram na pop, mais negra em “Seven Kinds Of Sin” (antes da qual Allard atirou umas larachas sobre a gula) e mais poderosa em “Colourless Dream”, com bombadas da bateria chamando as palmas dos presentes, que evidenciaram enorme avidez por mais música com um vigoroso e longo pedido de encore que atestou que a excelente banda dos tristes é tudo menos chata.

No regresso ao palco, entre pedidos de canções, Garce Allard espicaçou os fumadores perguntando se estavam fumando fora da lei e os SLAG retomaram o concerto na cold wave de “Like Thieves, antes de introduzirem o primeiro single da carreira deles, o post-punk “Imagination”, ainda e sempre com aquela voz aveludada e tão limpa, algo tão raro num cantor rock com quase 40 anos de carreira. E foi no segundo regresso ao palco, antes da derradeira canção, que foi explicitado um dos segredos da saúde daquela voz: “Não fumo, fumar é mau para a saúde e para a voz”, advertiu Allard, já segurando o saxofone cujas frases aqueceram a fria “Things We Never Did”, antes da última e fortíssima salva de palmas.

Sem dúvida, foi um bom concerto, que excedeu as expectativas dos melómanos menos atentos e conhecedores dos Sad Lovers and Giants e satisfez plenamente os seguidores da banda.

Fotogaleria Sad Lovers And Giants:

Pedro Gomes Almeida

Pedro Gomes Almeida

Fotogaleria Alma Mater Society:

Pedro Gomes Almeida

Pedro Gomes Almeida