A viagem, hoje em dia, encontra-se num regime cultural ligeiramente diferente daquele que tem até agora sido constantemente romantizado quer pela vida real, quer pela apaixonante ficção que inspira inúmeros casos concretos. Longe já andam aquelas épicas demandas dos dandies europeus a descobrir os sinuosos e exóticos caminhos do Egipto e do Norte de África, trazendo com eles contos ainda mais mágicos e com a sua dose de pimenta fictícia; ou aquela bravura de quem parte em busca de uma mudança radical na sua vida, deixando para trás os seus amigos e raízes para perseguir o desconhecido. O exótico e o estrangeiro surge agora à distância de um voo low cost que torna tudo mais fácil mas também mais efémero, tal como as relações que vêm amigos partir tão rápido como voltar. Sandy Kilpatrick é certamente um desses amigos que veio, mas há mais de 15 anos que não arredou pé de Portugal.

Começando o seu percurso como relações internacionais no seio do Theatro Circo em Braga o escocês encontrou um novo satélite em Vila Nova de Famalicão onde iniciou uma vida portuguesa que já carrega na sua identidade e uma carreira musical a solo que floresceu nestas terras mas que encontra no folk sem fronteiras a sua identidade. Assim, o seu mais recente disco, Confessions From The South, é de facto uma homenagem a Portugal, mas alarga o seu espectro a etnias diferentes e bem visíveis que compõem um caminho de descoberta que tem traçado ao longo dos seus 15 anos a estabelecer diálogos com culturas e diferentes formas de fazer a canção. Particularmente inspirado nas latitudes americanas que o levam principalmente ao country e ao gospel tingidos de tendências progressivas e viajantes, na música expansiva e morna de Kilpatrick cabem o calor, o frio, o rio e a montanha.

Tirado no novo trabalho como um dos seus fortes destaques, “Hold The Light”, por exemplo, é um tema submergido em nevoeiro, onde o seu início algo reminiscente das cores da braguesa que lhe é próxima alicerçam uma aventura que rapidamente se lança para os bailes mais áridos da americana, que tanto conhecemos de outros amigos como os Calexico, apenas para nos aconchegar no fim numa atmosférica passagem de guitarra reverberada, como quem descansa no cume de uma montanha não para ver a paisagem que se esconde por detrás do fumo branco, mas para apenas desfrutar a conquista. A conquista que entretanto vem com confissão e com uma relação com o transcendental e espiritual bem cunhados nas imagens mais sofridas e sangrentas, ou mais flutuantes e angelicais que vêm no canto plácido e pronunciado de Kilpatrick.

Há uma aura de descoberta e viagem, mas também uma vontade de relação e reconciliação com as terras e os povos que encontra; um diálogo através das sonoridades e da sua interpretação pessoal das mesmas com seu trabalho musical que o fazem um coleccionador de estórias nato. Na verdade, ouvir Sandy Kilpatrick é precisamente coleccionar estórias e imagens e entrar nesta sua aventura que, por fim, traz consigo o verdadeiro sentido de viajar: trazer e deixar algo. Podemos ir a sítios ouvindo a sua música, com a guitarra e voz a guiar-nos tanto pelos arredores do nosso país como a oferecer-nos imagens mais transfronteiriças de diálogos musicais e étnicos que nos podem fazer imaginar; mas se queremos ir mais longe, temos que ir fazer a mala e planear bem a próxima estadia, pois é essa a vontade que Kilpatrick nos dá.