Há concertos estranhos, nos quais as bandas confirmam que fazem música dinâmica, têm bons desempenhos nos palcos, mas mesmo assim falta qualquer coisa. E o duo italiano Schönwald, formado pelo casal Alessandra Gismondi e Luca Bandini, protagonizou um daqueles momentos agridoces na última sexta-feira quando regressou a Portugal para o concerto de Another Night In… no Sabotage Club. Onde deram (quase) tudo o que têm de talento e bom gosto, mas…

… Mas ao lúbrico som faltou uma plateia mais cheia.

A primeira falha do concerto – inimputável aos Schönwald – foi mesmo a de público, aliás, a do público: estranhamente, cerca das 23:30 os italianos entraram no palco sem que grande parte dos habituais frequentadores das Another Night Inestivessem presentes (por exemplo, a ‘brigada’ de Almada talvez estivesse ocupada pelo Cacilhas Na Rua, que estava a começar naquela noite).

A segunda falha foi do equipamento, já que a má ligação ao sintetizador tocado por Alessandra estorvou o arranque do duo, forçadamente engasgado. Mesmo assim, gerou o instante mais engraçado da noite, quando ao pedido de perdão deles um homem respondeu (em inglês) “estão em Portugal, lembrem-se que acontece sempre algo errado.”

Todavia, resolvida a anomalia técnica Luca, operando a drum machine no laptop e tocando guitarra, e Alessandra, cantando e tocando synth, iniciaram a melodiosa palestra de synth-pop e imediatamente instalaram uma dança harmoniosa na plateia, primeiro com “Inland”, do último Between Parallel Lights, e a seguir com a post-punk “Deep Metals”, ambas roboticamente narradas pela ecoante voz de Alessandra que se ia agitando languidamente atrás do sintetizador. Assentando no último álbum, variaram um pouco o estilo no post-punk cold wave de “Directions”, que foi um dos melhores momentos do alinhamento e um crescente de animação oportuno para o que se seguiu: Alessandra pegou no microfone, avançou até à beira do palco e para gáudio do público (sobretudo o masculino) cantou “Lux” como se Sophia Loren fosse uma sensual dançarina go-go contemporânea que graciosamente meneava as voluptuosas ancas etruscas. Se a música dos Schönwald é intrinsecamente lúbrica – contrastando em muitas canções com a gótica tristeza de várias letras -, a “Lux” não ferveu o público só porque faltava mais pessoas, para tornar aquela plateia ofegantemente compacta e induzir uma consequente tensão sensual.

Luca pareceu ter identificado a dica e na canção seguinte, “Achrome”, foi ele quem encheu o palco, vagueando por todo o palco, quase planando os pés sobre nuvens imaginárias e tocando a guitarra a tiracolo, ficando Alessandra discretamente a ceder o protagonismo atrás do sintetizador. De facto, Alessandra e Luca evidenciavam uma harmoniosa química, própria do casal que são, e assim tornaram muito agradável o medley no qual interpretaram o post-punk da vocalmente robótica, mas temperamental, “Fury” – ainda de Between Parallel Lines – e a pulsante synth-pop do single “Neon”.

Introduzindo o clubbing

Entre canções, Alessandra identificou outra falha no concerto – que é falha da actual digressão -. quando pediu desculpa por não tocar her lovely bass, algo que não pode fazer por ordem médica após uma recente cirurgia, num impedimento que, mais que suprimir um instrumento, retira ao som dos Schönwald a gravidade própria do baixo. Mas não torna o som mau e após o grato aplauso do público, foi com essa convicção que avançaram para o onirismo post-punk de “Crystallized”, num dos desempenhos mais agradáveis do alinhamento, antes de se enterrarem na melodiosa dark wave de “Shatter”.

O melhor troço do concerto foi iniciado com “Treasure”, single synth-pop ritmado escolhido para a colectânea Transmission Barcelona: Second Anniversary, e definitivamente continuado com a pulsante “Gemini”, canção do single Mercurial que, sem guitarra baixo, instalou o astral dance club no pequeno Sabotage, diante da encenação que foi Alessandra e Luca quase dançarem um com o outro no centro do palco, simulando um sermão dela enfatizado pelos sucessivos “No! No! No!”, mas com afectividade. E seguiram em medley para faixa título do single, “Mercurial”, um synth-pop acelerado que coroou aquele momento clubbing.

A inebriada “Silver Veins” foi a canção escolhida para completar o corpo principal do alinhamento e, para o público que aplaudiu satisfeito, ainda houve o curto encore “Rays”, single cold wave escapista adequado para introduzir a simpática sugestão com que Alessandra se despediu após agradecer a presença de quem os foi ver: “dancem e aproveitem o DJ set!” Foi pena as falhas que amornaram aquele concerto – também a de qualquer das boas ‘covers’ do EP Play Cover Songs -, porque no Sabotage Club, se estivessem reunidas todas as condições necessárias – começando por mais público dos habituais das Another Night In… -, com o som insinuante e cinemático que têm, os Schönwald podiam facilmente ter conseguido um excelente concerto.