O segundo dia de arena do Festival Circadélica aconteceu em 23 de julho (domingo) e contou com mais uma dose de energia que certamente entrará para a história do evento. A agenda trouxe artistas como Liniker e os Caramelows, Supercombo, Francisco el Hombre, Rimas & Melodias, Plutão Já Foi Planeta, Medrar, Maglore, Monoclub, Paula Cavalciuk, Circus Boy e BRVNKS.

O indie pop da banda Plutão Já Foi Planeta (Natal-RN) foi um dos primeiros a levantar o público em um show belíssimo, pincelando sons do último álbum A Última Palavra Feche a Porta e também tocando clássicos como a música “Viagem Perdida” com a máxima Você quer ir embora de você/ como se você não lhe fosse/todos os destinos possíveis. Natália Noronha performa um show à parte, metamorfoseando-se como multi-instrumentista, além de vocalista, dona de uma energia que sincroniza sinergicamente com a banda que, apesar de nova, já possui consistência musical que parece ganhar o espaço que lhes é devidamente merecido.

Destaque devido também para o show de Rimas & Melodias, coletivo de mulheres juntas desde 2015 vindas do universo cypher – encontro de MC’s em rimas conjuntas -, formado por Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo e DJ Mayra Maldjian, cuja proposta é comunicar através do neo soul, do rap e do r&b na desconstrução do modelo feminino patriarcal e fortalecer a presença da mulher, sobretudo a negra, em todos os âmbitos da sociedade, incluindo a música. Presença de palco empoderada e um público presente, hipnotizado em reverência ao que estas mulheres poderosamente comunicam.

A banda Maglore (Salvador, BA) também se apresentou neste domingo com sua nova formação composta por Teago Oliveira (guitarra e vocais), Lelo Brandão (teclado, guitarra e vocais), Lucas Oliveira (baixo e vocais) e Felipe Dieder (baixo e vocais). Em reta final de uma turnê importante que consagrou o álbum III como uma de suas principais obras, Maglore trouxe a Sorocaba um consolidado “adeus” de uma singeleza de aparições desde o lançamento deste álbum que envolveu LollaPalloza Brasil (2016), South By SouthWest (SXSW) no começo de 2017, entre tantas outras agendas que sempre abarrotaram a plateia. A congruência em palco reflete a intimidade entre os componentes da banda, assim como a segurança e imponência de mostrarem ao mundo que não vieram à cena para brincar. O público sentiu a ardência do sotaque picante e do rock n’roll baiano que arrasta caminhões com suas letras e composições poéticas, bem como trouxeram já doses homeopáticas do que vem a ser o quarto álbum desse atual quarteto, que passou uma temporada no Rio de Janeiro nos últimos meses gravando, produzindo e fomentando uma expectativa grande em relação a esta produção.

Maglore @ Festival Circadélica

Maglore @ Festival Circadélica

Aludindo suas personas à musa baiana Ivete Sangalo, Teago traz sempre uma pitada de bom humor e crítica social ao momento político, mantendo sempre o entorno seduzido pela musicalidade, envolvida no mantra que caracteriza a banda como um dos principais pilares de autenticidade e eloquência na música brasileira atual. Francisco, el Hombre, por sua vez, ganharam espaço na lista de shows estratosféricos que Sorocaba vivenciou nestes dias de festival. Em um momento insano de viagens de turnê, o aclamado “transculturalismo transamericano ruidoso” vem conquistando legiões de fãs, transbordando musicalidade, energia, pensamento crítico e uma empatia em palco que coloca em cores e luz o que há de melhor nos corações. Experiências à parte, contou-se como um presente vislumbrar Juliana Strassacapa acompanhada de Tássia Reis e Paula Cavalciuk para a belíssima “Triste, Louca ou Má”. O público pôde vibrar e sentir de perto o calor da rua, gritou que o dólar continua mesmo valendo mais e ainda pode se deliciar vendo em palco Liniker e integrantes do Supercombo numa enorme festa com ‘os franciscos’, ao final de uma performance digna de ser chamada espetáculo. Mais do que pulsar, Francisco, el Hombre proporciona uma troca de calores musicais e poéticos, sabiamente desenhados por uma banda que ora se comporta musicalmente, ora se relaciona como família. É nítida a congruência dos componentes em palco, que deslizam entre instrumentos, olhares, vocais e performances. Algo que ousadamente pode-se dizer único e sublime, levando os espectadores a um nível de proximidade com o palco talvez jamais atingido.

Francisco El Hombre @ Festival Circadélica

Francisco El Hombre @ Festival Circadélica

Para encerrar a sequência de belíssimos concertos da agenda, Liniker e os Caramelows sobem ao palco principal para abençoar e selar as grandes mensagens que foram difundidas ao longo do dia. O Festival Circadélica promoveu um encontro de almas musicais, mas também a igualdade e liberdade que tantos procuram e lutam. Engajou forças locais, regionais, nacionais e parece, sobretudo, contribuir para um novo momento em que a música brasileira atual seja além de um instrumento, mas se consolide como veículo de transformação.

Lê a reportagem do primeiro dia de Festival Circadélica e vê aqui a galeria completa de fotos que espelham as experiências do segundo dia de Festival Circadélica pelo olhar do Rogério Passini.