Primeiro ponto prévio: este texto é sobre um concerto de Motorama. Segundo ponto: não sabemos bem que vos diga. Que sentido fará falar-se de um género musical quando uma banda nos arrebata com uma fusão de várias influências e remanescências de paisagens sonoras tão díspares? Prova maior disso mesmo são os Motorama, o trio russo que em 2016 editou Dialogues, conotado como post-punk, mas detentor de uma sonoridade resiliente a camisas-de-forças estéticas ou conceptuais.

Desde 2010 têm conquistado um espaço próprio no panorama musical e este sábado o Hard Club, no Porto, abriu-lhes as portas. Ao longo de sensivelmente uma hora de espetáculo, encantaram com uma melancolia dançável, bela e contagiante, com perfume a The National ou Joy Division, delicadamente adornada por riffs de guitarra simples e cristalinos, linhas de baixo encorpadas e texturas etéreas sintetizadas.

Através de uma viagem pelos seus quatros álbuns de estúdio, a banda liderada pelo vocalista Vladislav Parshin aqueceu a noite e conquistou o público – apesar da pouca interação –, deixando que músicas como a mais recente “Tell Me” ou as incontornáveis “Heavy Wave”, “Wind In Her Air”, “Empty Bed” ou “Alps” falassem por si.

E que bem falaram estes russos, à semelhança dos compatriotas Human Tetris, com uma linguagem sonora muito mais próxima da estética britânica. Das estepes gélidas trazem na bagagem postais sonoros de Manchester. Ian Curtis, és tu? “Se tocassem agora a Love Will Tear Us Apart é que era”, poderá legitimamente ter pensado alguém mais distraído ou contagiado por aqueles diálogos delicados, capazes de soltar o corpo e levar a mente numa excursão desde a beleza inefável do indie pop até às montanhas-russas do post-punk.

Embora ainda não seja uma banda com uma grande legião de seguidores em Portugal, o público que se deslocou ao Hard Club sabia perfeitamente ao que ia e, no final, todos aguardavam pelos tradicionais encores que acabaram por não acontecer.

A responsabilidade de abrir o concerto dos Motorama ficou a cargo da dupla neozelandesa A Dead Forest Index, constituída pelos irmãos Adam e Sam Sherry que em 2016 gravou o primeiro registo discográfico de longa-duração intitulado In All That Drifts From Summit e do qual foi extraído o single de avanço “Summit Down”. Bateria, guitarra e voz. Tão só. Tão simples, num universo sónico onde a complexidade é conferida pela miscelânea de diferentes estilos e acentuada pelo timbre sólido e pungente de Adam Sherry.

Não tendo sido brilhante, foi ainda assim uma atuação com apontamentos interessantes e bem conseguida, só perturbada, em parte, pelo burburinho constante de uma plateia pouco engajada com a banda.

“To the South”, é o título de um dos temas do Motorama e é igualmente a direcção seguinte. Depois da passagem pela emblemática casa de espectáculos da Invicta, os russos, novamente acompanhados por A Dead Forest Index, foram de malas feitas para Lisboa, onde se apresentaram na noite seguinte no Sabotage Club.

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