Com uma muito regada e praticamente lotada edição do NOS Alive aí a chegar, a Tracker Magazine decidiu compilar uma sugestão de discos que, de uma maneira ou outra, irão ecoar pelo Passeio Marítimo de Algés nos dias 7, 8 e 9 de julho. Alguns destes discos podem estar mais esquecidos no alinhamento destas bandas; outros, não se apresentam directamente, mas vêm a sua presença omnipresente com o impacto que deixaram para a posterioridade do som da banda. Entretanto, existem aqueles que, de natureza incontornável, irão ser encontrados com certeza. Aparte de tudo isto, o que os une é uma mais que uma notável qualidade que, em concerto ou não, não deve passar despercebida.

Surrender, de The Chemical Brothers (1999)

Um dos nomes fortes da edição deste ano chega ao festival com um estatuto que permaneceu larga e imaculadamente inalterado desde há quase duas décadas, altura em que canções como “Block Rockin’ Beats” avassalavam a comunidade musical com o espírito de perigo e ferocidade que, até à altura, não havia sido conhecido fora dos domínios do rock, quanto mais nas mesas de mistura. Os anos dos Chemical Brothers permanecem ainda como os mais sólidos da carreira do duo britânico e Surrender é um dos óbvios clássicos. Para além de um elenco de convidados de luxo (algo que haveria de se tornar tradição daí para a frente) como Noel Gallagher ou Hope Sandoval, foi também dos primeiros discos da banda que ousou brincar para territórios mais experimentais e radicais, produzindo algumas das mais interessantes composições da banda até à data, não só no tradicional sentido do banger, mas numa pura e genuína (e muito psicadélica) liberdade e originalidade artística. Permanece como um dos mais eclécticos e variados discos do duo e um dos mais bem calibrados entre o apelo mainstream e o experimentalismo que a música popular já viu. Experimente-se, por exemplo, a intensidade frágil de “Asleep From Day”.

Made In The Dark, de Hot Chip (2008)

Os Hot Chip não são uma das bandas mais preciosas da actual geração porque pegaram no r&b dos anos 90 e na ginga comercial dos anos 80 quando toda a gente achava que era foleiro, mas agora acha incrível. Embora isso também seja fixe, a verdade é que é a mestria e precisão de engenheiro com que o grupo inglês faz a sua música que os torna constantemente impressionantes e lhes permite terem um espólio que, para além de ser regularmente de grande nível, é sempre executado da forma mais inteligente possível. Made in The Dark é um dos exemplos mais potentes disso. Oscilando fortemente entre o cálculo certeiro e a vontade de perder a roupa na pista, o disco veste todas as suas influências exuberantes e fluorescentes com um belíssimo manto de subtileza. Todas as boas muletas da música pop são cuidadosamente administradas e o mesmo truque nunca se repete duas vezes. Em Made In The Dark, os Hot Chip arranjaram 13 formas diferentes de induzir êxtase com a dance music e fizeram-no, ainda por cima, com uma excelente salva de minimalismo e cirurgia que fazem do disco uma ode ao bom tempero.

Only Time Will Tell, de Sean Riley & The Slowriders (2009)

Como um dos projectos musicais mais consolidados e sólidos do certame português, os Sean Riley & The Slowriders são preciosos e necessários. O estilo corpóreo, polido e muito bem definido do country alternativo do conjunto de Coimbra, acabou a ser sempre aquele velho e discreto amigo, que com grande constância, entrega sempre a sua dose sem desiludir. Agora que tivemos oportunidade de lhes sentir a falta, ainda mais aguçada ficou essa noção e se há algo que é especialmente bom, é reencontrar as canções deste segundo disco. A mistura entre o árido e o airoso relembra paisagens muito em conformidade com o eixo Coimbra-Leiria que compõe a genética do grupo, e traduz-se no próprio rock rugoso e intenso que se rega de bela exuberância e delicadeza destas histórias-canção que escolhem ser tanto belos artefactos pop como interessantes devaneios atmosféricos e cinemáticos. Only Time Will Tell é um trabalho completíssimo e perfeitamente executado. Um disco que não veio a envelhecer e sabe sempre bem de ouvir.