O Rama em Flor volta a pavimentar as ruas de Lisboa e traz consigo a agitaçāo multifacetada de quem faz da arte uma arma carregada de palavras guturais, ritmos frenéticos impregnados de suor à volta dos palcos, corpos híbridos que encerram múltiplas realidades em película, conversas em que a liberdade nāo usa mordaças, e espaços em que todas as existências encontram formas de expressāo.

O festival visa a celebraçāo dos feminismos e da cultura queer numa Lisboa cada vez mais cosmopolita, mais diversificada, mais culturalmente irrequieta e, gritamos nós, menos inclinada para se prostrar aos pés de ideais tradicionalistas que poucos ousam romper ou estraçalhar de forma mais (re)activista.

Nāo é só de uma maior representatividade feminina/feminista num meio artístico – que ainda faz culto do falocentrismo sem questionamento(s) ou tornar visível a invisibilidade da comunidade queer -, que faz bater o coraçāo de quem idealizou e meteu māos e alma na organizaçāo e preparaçāo de um evento que pretende derrubar barreiras de expressividade individual e transcender linguagens culturais. Desafiando a inércia descuidada de posições demasiado centralizadas no seu próprio discurso, a ideia de um festival comunitário que excluísse as diferenças e disponibilizasse espaços de confronto de ideias surgiu da vontade e compromisso inalienável de Rodrigo Araújo e Daniela Ribeiro.

Em Setembro de 2016 nascia em Lisboa o filho mais novo do mítico LadyFest, com a mesma audácia e perspicácia na programação e na pequena rede de parcerias que envolveram que as suas congéneres de maior idade. Ao tirar partido da diversidade e das diferentes comunidades que coexistem nesta nova Lisboa que se (des)monta e transfigura (no que de bom e mau engloba essa metamorfose), e elaborando um roteiro nāo centralizado em exclusivo nos circuitos culturais habituais, pretende-se torná-las mais próximas através da cumplicidade e desafio que os diálogos fora das redes sociais tendem a proporcionar.

A segunda ediçāo do Rama em Flor arranca já amanhã, dia 27 de Junho, com um ciclo de debates no Museu do Aljube, e termina dia 1 de Julho com uma Feira de Zines no espaço da UMAR. O concerto das Raincoats será o acontecimento incontornável desta ediçāo a 30 de Junho na Trienal de Arquitectura em Parceria com a Galeria Zé dos Bois. Figuras míticas do post-punk e do movimento punk feminista Riot Grrrl, a banda de Ana da Silva voltam a Portugal para demolir preconceitos e chicotear o uso da palavra feminino numa sociedade com tanto ainda para aprender.

De referir ainda o ciclo de cinema XenoEntities no auditório da FBAUL, os debates sobre “Gentrificaçāo, direito à Habitaçāo e Processos de Exclusāo” e “ Identidade, Género e Violência” no Museu do Aljube, e a Festa de Encerramento na Trienal com as supracitadas The Raincoats, Vaiapraia e as Rainhas do Baile e os Dj Sets de Caroline Lethô e Deena Abdelwahed.

O After Party passa de seguida para o Damas, na zona da Graça, com a estreia do mais recente projecto de Aurora Pinho denominado Útero, mulher subversiva, artista pluridisciplinar, performer que procura desconstruir em espaço público e com olhares despudorados as vivências salpicadas a espasmos de dor e sexo da prisão do corpo e da alma colada ao medo.