Já desde os últimos anos a beneficiar de uma importante reputação como um dos mais relevantes festivais internacionais sobre as artes digitais e a música electrónica, o festival Semibreve, organizado em Braga, é uma pedra angular da cultura que se propõe a andar para a frente e a desbravar terrenos experimentais e frescas possibilidades. Mais que um festival de música, é um sítio onde ideias serão mostradas e debatidas, sendo também uma ideal oportunidade para encontrar novos ângulos de abordagem.

Seguindo uma curadoria que já encontra nas suas fileiras projectos como Deathprod, Valgeir Sigurðson, Fis e Kyoka, o Semibreve traz agora mais detalhes da sua programação que entre a música cósmica e tântrica, o techno e as experiências em contexto académico e de instalação, faz também regressar o EDIGMA Semibreve Award, prémio aberto dedicado às artes digitais que promovam a interacção por via do som e da imagem e que estará de inscrições abertas até 15 de julho.

Gas

O festival, que decorre nos dias 27, 28 e 29 de outubro, trará Gas, projecto de Wolfgang Voigt, co-fundador da editora Kompakt e trabalhador assíduo das ambiências abstractas e deslocadas da terra. Tal como o nome que dá a esta incursão do seu trabalho, assim escolhido devido às propriedades da sua música, Gas é um lugar em constante sublimação, onde a progressão é feita pelos motivos percussivos dos seus timbales que furam as anuvens amorfas dos samples de cordas e os acordes sustidos que evoluem em direcção ao infinito.

Em muitas medidas semelhante aos frutíferos anos 70 da música alemã e ao registo do próprio estilo visual que o acompanhará num concerto que será também muito próximo da imagem, também a música de Gas carrega a promessa de um caminho sempre em frente, em direcção a uma esperança que constantemente se renova. Narkopop será a mais recente investida de temas que terá para se basear.

Rabih Beaini, Lawrence English

Rabih Beaini vem instalar-se em sítios um pouco mais diferentes da placidez sem finitude de Gas. Jogando com texturas mais concretas, é também a atmosfera que guia o seu pensamento e que, neste caso, se mantém mais perto da ferrugem e das coisas físicas, de onde tira a sua visão etérea e igualmente desconcertante. Esculpindo por vezes paisagens sonoras de sítios que nos lembram alguma coisa neste mundo mas que dificilmente a ele podem pertencer, Beaini atenta-nos sobretudo à plasticidade dos sons e, como os mesmo, descansam e ressoam nos tímpanos, podendo com eles criar ritmos e melodias que tanto nos fazem reflectir como nos levar ao escapismo.

Um pouco como também Lawrence English se propõe a fazer, sediado na Austrália e desenvolvendo um trabalho prolífero como compositor, artista e curador. Muito atento aos sons puros, desligados das concepções mais funcionais de harmonia ou temperamento, English manipula-os para criar experiências sonoras de natureza quase biológica, com toda a complexidade que isso acarreta nível comportamental e de dinâmica.

Laurie Spiegel, Beatriz Ferreyra

O Semibreve verá também duas galardoadas pioneiras a visitar o festival: Laurie Spiegel e Beatriz Ferreyra, ambas a desenvolveram um brilhante percurso na moldagem da música electrónica. Ferreyra é uma notável compositora electroacústica oriunda da Argentina e uma figura experiente em novas descobertas no reino da composição e na sua relação com “novos” sons, não tivesse ela desenvolvido trabalho com o Groupe de Recherches Musicales sob a orientação de Pierre Schaeffer, um dos gurus da música concreta, e feito igualmente contribuições para dois notórios trabalhos sobre a música contemporânea, o Solfejo do Objecto Sonoro e o Tratado dos Objectos Musiciais (ambos de Schaeffer).

Laurie Spiegel passa por um percurso igualmente académico que a viu desenvolver trabalhos importantes na área da música electrónica, principalmente no que toca à criação de softwares musicais para computador. Juntamente a isto, Spiegel toca também guitarra e alaúde. No festival, trará uma instalação composta por uma composição da sua autoria alicerçada com a peça de vídeo de Peter Schmideg intitulada Maya Deren: Prelude to Generating a Dream Palette.

Sabre

Por fim, Sabre fecha este novo rol de confirmações com uma fusão entre Bruno Silva e Carlos Nascimento. As paisagens ambientais e cintilantes de um juntam-se à queda pelo drone denso, progressivo e envolvente do outro para criar uma mistela dançante e estrangeira tão acolhedora ao groove como ao experimentalismo mais radical. Cósmicos, coloridos e decididamente sorridentes na música que fazem, os Sabre saltam de género em género e de influência em influência para criarem música pessoal e aberta, onde não faltam synths melódicos e percussões rasteiras e serpenteantes de uma sensibilidade anímica e espiritual.

O Semibreve regressa a Braga nos dias 27, 28 e 29 de outubro. O passe geral encontra-se fixado nos €35.

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