Sharon Van Etten - Are We There
90%Overall Score

A pergunta de Sharon Van Etten (Are We There) só pode ter duas formas de se interpretar: “Estamos lá?”, como quem pergunta, “Isto está bom? Devemos continuar? É esta a linha? Ou vamos antes tirar um curso de rendas de bilros?” (o que é assaz humilde, mas eu não caio nessa e a falsa modéstia desilude-me) OU, contrariamente, estamos perante uma pergunta que vem no seguimento da minha opinião em relação a este disco: “Estão por aí ou está tudo a dormir? Não percebem que estão perante um disco que é um portento, pá?” Eu voto nesta. Já não estava habituado a ser surpreendido desta forma.

No primeiro tema, Sharon está segura: “I need you to be afraid of nothing”, ou seja, “não sejas mariquinhas-pé-de-salsa porque eu, depois deste disco que coloco à vossa disposição, venha quem vier, não tenho medo”. Tem razão. Não poderia haver melhor forma de começar um disco que vai ficar para a história. Segue-se-lhe “Taking Chances”, um dos temas mais terráqueos do disco, para aproximar os mais avessos a obras-primas, os tais fãs de singles e temas isolados pelos quais Sharon “Corre Riscos”, a um objecto que não pode ser visto de outra forma que não no seu todo. O momento que segue a este é épico. Sim, nada abaixo disso. Desde o “The Greatest” da Cat Power que não havia um momento tão belo no panorama musical. “Your Love is Killing Me”, porque ainda agora vamos no início do disco e já vos tenho todos aos meus pés. “Our Love”, claro, a quarta faixa, é-nos dedicada, pelo menos queremos pensar assim, queremos comer esta voz, à bruta, com as mãos, sujar os dedos quando ela o canta, acompanhada de palmas antes de entrar a bateria em fade in. Impossível não fechar os olhos e balançar o tronco, escrever cartas de amor em papel perfumado àquela ruiva sardenta que não vemos desde a primária, queremos lá saber, estamos por tudo e ainda isto não chegou a meio. O Clássico Instantâneo “Tarifa”, escrevam isto, acompanhará, um dia, um belíssimo filme. “Como sabes isso?”, perguntarão. Sei-o e digo mais: vai ser numa cena em que Ele corre aeroporto afora, à espera de A poder encontrar ainda na fila de embarque, mas na cena seguinte já Ela bebe um suminho de bitter orange na Business Class ao lado de um garboso em fato de bom corte que lhe diz “que belos olhos tendes, ma petite, pá”. Os ingredientes estão lá todos. Pode ser que estejamos errados. Mas quem perde é um realizador, que assim se vê privado de ter uma cena memorável, que toda a gente faria upload para o Youtube e teria centenas de milhares de visualizações. O recado está dado.

“I Love You But I’m Lost” é surpreendente. Pela negativa. Porque ao início parece algo que faria a Lana Del Rey ou, como a tratamos aqui, Rana Del Ley (sim, somos pessoa simpáticas e de grande humor). Mas são apenas alguns minutos (2m18s, para sermos precisos), até percebermos, se ainda não soubéssemos, que estamos perante um daqueles discos que nunca sairão daqueles 5 ou 6 CDs que nunca arrumamos naquele suporte de CD em ferro forjado a que achámos piada naquela viagem a Puerto de Santa Maria (é no que dá umas manzanillas a mais), mas que agora está escondido, por vergonha, num esconso canto da sala. “You Know Me Well” é algo que faria a Anna Calvi. É a primeira vez que não damos pelos sintetizadores à 80’s, mas o ritmo continua a ser de festa de final de ano do secundário. Agora, porém, é a guitarra a dona e senhora do drama que se avoluma, a voz trina, Sharon tem algo a dizer e é bom que oiçamos. É muito bom que oiçamos.

Abre-se aqui um novo ciclo deste Are We There. “Break Me” prossegue essa linha, como se este fosse outro disco. É uma pausa nas declarações de amor e a afirmação de algo novo. Depois, afinal, “Nothing Will Change”. E aí vem todo o classicismo por que esperamos uma vida toda, há clarinetes secundando-lhe a voz no final de cada estrofe, só a bateria relembra que tudo isto poderá ser “apenas folk” e é então que A Grande Beleza: “I Know”, responde Sharon. É o piano que a segue numa escalada em direcção ao inesquecível, esse cume que só está ao alcance de poucos. Imagino que este tema será tocado num encore de um concerto, se não for a Van Etten alguém o fará, uma cover muito aplaudida, talvez daqui a muitos anos, nada será igual, não mais seremos os mesmos. Beleza, reafirmo, é Isto! Por fim, “Everytime The Sun Comes Up” fecha tudo com chave de ouro. É outro single, inevitavelmente. A monocórdica Sharon transforma tudo numa simples nota surpreendente, como este disco nos transforma. Este disco que, já o dissemos, ficará para a história. Deveria. Caso não fique, não fomos nós que nos enganámos. Foram vocês.