Roubávamos descaradamente a poesia de Cícero aquando do anúncio da tour portuguesa. Chamávamos ao texto “As canções de Amor Inventam Amor” mas as canções de Cícero inventam tanto mais que amor. Inventam o dia-a-dia em palavras e acordes e linhas melódicas de encontros e desencontros. Inventam as noites inteiras de descoberta e perdição de novos amores e antigos amores e histórias que nos ficam penduradas na pele. Penduradas que nem as fotos de quando os sorrisos eram verdade e enfeitavam a parede que sentia de perto a cabeçeira da cama onde esse amor era efectivamente verdade e os sorrisos ainda não eram azedos e as histórias não começavam a saber ao sal das lágrimas e se começavam a desvanecer entre… outras canções de Cícero. São as histórias de todos e dele e é tanto isso que nos aproxima. Mais que a língua, é o conseguir sentir na língua o sabor dessas histórias.

Cícero regressou a Lisboa. Cícero voltou a Lisboa e voltou numa noite fria. Voltou para cantar o amor mas sem inventar amor porque esta foi uma  noite de carinho. No Estúdio Time Out houve uma noite de ficar a fazer carinho. Ficar no sofá ao som de Vinicius ou Stuart Staples a trocar carinhos e a escutar. Na sala da Time Out escutou-se uma banda de rock como quem faz carinho e escutou-se verdadeiramente. Cantou-se em surdinas que, por vezes, com tantas vozes em surdina se fizeram coros. Quase parecia um concerto rock, só que era mas sem ser, porque era noite de ficar a fazer carinho… um carinho diferente.

“O Bobo” abre a noite. O caminhão de gás abre caminho para a paz e para as primeiras vozes que suavemente sobem de cá deste lado para se colarem ao rosto de Cícero e acariciarem a voz do músico carioca e o seu jeito meio sem jeito de quem não percebe como se viaja um oceano para ficar a fazer carinho com tanta gente, com uma sala tão cheia de português dos dois lados do mar. O rufar das tarolas ameaça possíveis danças que pouco se cumprem. Há um balanço quase marítimo, subtil e suave nos tantos rostos e corpos que se colam lá na frente. “Pra Animar o Bar” prossegue com o ritmo de samba contido. É para fazer tudo aquilo que queiras, meu amor, para devagarinho perceberes que tudo podes fazer, podes furar, ventar, ganhar… para animar o bar!

“Tempo de Pipa” continua a ser uma canção maior que um simples apartamento em qualquer show de Cícero. As danças subtis ultrapassam um pouco mais a linha que cruza a subtileza e esperamos que o mundo lá fora seja tão bonito como aqui e que tudo seja tão simples quanto um “É só rodopiar em busca do que é belo e vulgar”. Se rodopiares podes ver as expressões de doçura que escorrem nos rostos em volta. Que bonita é esta noite carioca no Cais do Sodré. Por momentos, juro que vi Caetano dançando ao fundo do palco nas suas danças trapalhonas e firmes. Não estava mas tudo bem porque o dia vai raiar e a gente vai-se inventar de novo. Vamos na praia beber um chopp e ver as luzes infinitas de Copacabana numa noite fria de Lisboa? Vamos?! E as canções de amor inventam amor e dor ao longo de “A Praia” que sucede à candura das pipas. Primeiro momento duro do set. Zero de carinho aqui, volta-se à vida depois de um período triste e pesado e redescobre-se o amor apesar da notas que saiem da guitarra ainda cheirarem a dias fechados em casa entre violinos, álcool e sol quente que entra entre as frestas de uma janela que não queremos abrir… não vá o futuro começar mais cedo mesmo antes que a dor morra naturalmente. Há intensidade em palco, há um poder que não explode, há o chamar de algo mais que o brasileirismo e uma parede leve de distorção sónica bruta mas suave. A dor acaba sempre por desaparecer nem que seja na brisa leve da vida do dia ou nas curvas dela ou numa canção bonita como “De Passagem” que fez a ponte para “Vagalumes Cegos” e o regresso ao sofá para mais carinho. Para o sofá ou para a cama de rede que pende lá fora onde nos deitamos a ver a bicharada a voar entre as ondas de calor. Tanto Brasil que há numa só canção. Cícero fica aí “que essa luz comprida ficou tão bonita em você daqui”. Mas ele não fica e avança e cada canção parece tão mais curta que a outra. Sabem aquele sentimento de estar com a pessoa que amam e todos os momentos e dias inteiros saberem a segundos sónicos que passam sem darmos conta?! É isso que se sente aqui… o tempo corre tão demasiado depressa.

O jogo de palavras de “Ela e a Lata” precede a “Camomila”. Numa o deixa-prá-lá carioca na outra a descrença e a desilusão que pede paz para o dia passar bem melhor. Em ambas o espelho da modernidade que o “Albatroz” tão bem desenha em palavras. E a turma de rostos bonitos continua no balanço carinhoso das cantigas em surdina alta. Em “Isabel” a dança aumenta para um pouco mais que um balanço bom e a surdina ganha contornos de vozes. “Isabel” abre caminho para a sequência maior da noite.

“Laiá Laiá” é enorme em cima de um palco. A marcha é quase fúnebre, a marcha é quase samba, a marcha é quase um arrepio constante e Tom Waits esconde-se à espreita bem em cima de um carro alegórico, vestido de plumas negras e um chapéu de coco com orelhas de burro. “Laiá Laiá” é mórbida e triste mesmo cantando sobre o dia-a-dia fugidio e leve da cidade da morte, da cidade onde se morre simplesmente porque sim, da cidade onde se inventam esconderijos para fazer o Carnaval interno passar. Com toda a alegoria e alegria característica de um carioca. E seguimos em pressão com “Ponto Cego”. “É sexta-feira, amor”, canta Cícero que não é filósofo mas é poeta, “é sexta-feira”! É dia de esquecer o que não se pensou na semana que se mata aqui num canto para um santo que queira dar sem receber. Que bonito, meu pai Oxalá, que bonito isto é! Giramundocão! Giramundocão! Giramundocão! E acaba logo com esse sofrimento.

Agora respira… ou não, porque apesar de “Soneto de Santa Cruz” começar como um dia suave e uma guitarra com cheiro de nascer de dia na praia, rapidamente as palavras ganham o peso da cinza dos dias vazios. As vassouras jazzy arrastam-se nas peles, as teclas dos synths martelam vagarosamente no nada dos dias sem esperança. “Choveu o dia inteiro lá em casa não teve pipoqueiro nem tristeza tava”. Agora respira, vá… ou não, porque a bossa de “Duas Quadras” tem tanta solidão em cada sopro de guitarra como tem de memórias de Toquinho e da tristeza desesperada de “Optimistic” de Yorke, O’Brien, Selway e manos Greenwood. A solidão batuca forte, tão forte!

Agora sim respira… sim, respira, agarra um chá de “Capim-Limão” e acende uma vela para o mal não vir para dentro. A manhã volta a nascer bonita – ainda que pintada de linhas de guitarra cinzentas e urbanas – apesar da ressaca da noite anterior ainda não se ter formado e o álcool ainda cheirar a tua roupa. Acende uma vela para exorcizar isso tudo de uma vez. Saravá, meu pai Ogum, abre meu caminho com essa tua espada.

Os versos “Antes de envelhecer/Antes de se lembrar/Gosto de você agora” trazem de volta o sofá e o carinho. Apesar de estarmos mais maduros e feridos e os buracos abertos na alma terem lições que não nos vamos esquecer, voltamos a poder sentir esse carinho bom, esse quentinho gostoso do sofá e do filme ou da cama de rede e dos mosquitos que zumbem em torno do nosso amor. Agora amamos tão melhor, agora é tão melhor. Vou por tua foto num “Porta Retrato” e maravilhar-me com toda esta noite. Voltamos a rodopiar em volta dos rostos em nossa volta e os rostos continuam no estado de enamoramento bonito por Cícero que carregavam no inicio da noite. E continuam em “Terminal Alvorada” apesar de anunciada como a última canção da noite. A suavidade, a delicadeza, a vibração, a felicidade sincera é tão grande nesta canção que conseguimos imaginar Cícero sentado no banco de trás de um onibus que atravessa a cidade junto ao mar tão azul. “Faz um tempo que eu não sei o que é saudade”, canta Cícero com aquele sorriso tímido… sei sim, é cair de amor pela beleza e leveza do Rio e estar tão longe e esta noite aqui tão perto.

A banda vai embora, sai todo o mundo de palco. Mas é breve a ausência e sonoras as palmas. A rendição e o amor pairam acima do Mercado da Ribeira. Eles vão e voltam tão depressa quanto demora a perguntar “Açúcar ou Adoçante”?

E lá vem ela. “Açúcar ou Adoçante” é outra das canções incontornáveis em qualquer concerto de Cícero. Aqui sim, as vozes que criaram ao longo de todo o concerto o bloco de surdina levantam-se e cantam bem alto com ele “Mas se você quiser/Alguém pra anular ainda/Desculpa, não vai dar/Não vou estar/Te indico alguém”. A prova da proximidade da poesia e da música de Cícero. Como se todos tivessemos já sido usados e abusados por alguém, como se soubessemos na primeira pessoa o que é enfrentar a bagunça emocional de um relacionamento vampiresco, de alguém que veio, rebentou com tudo e partiu com a certeza que voltaria para chupar tua alma. Desculpa, não vai dar. As guitarras explodem, os traços na cara de Cícero dizem que é na primeira pessoa que se canta aqui e que o perdão é tão inversamente proporcional à dor que fica. Isto é uma das grandes canções da história da música brasileira.

Tudo acaba com “Pelo Interfone”… continuamos a saber que a solidão é eterna, que a partida é sempre o final mais feliz que podemos inventar. Chama-se pelo nome de quem destruiu, mostra-se a dor em retratos de letras e som, um som que balouça entre a guitarra brasileira e as paredes noise que sobem em pulsares por toda a sala “Ah se tu soubesses”. A banda some no azul escuro que enche o palco. Os instrumentos ficam sozinhos a encher tudo de um feedback incomum como um batimento de coração ou um batuque de reverb. Acabou.

Cícero já ganhou Lisboa hoje e segue as estradas portuguesas em direcção a Ovar, Castelo Branco e Braga. Cícero ganhou-nos a todos hoje com o seu mundo tão especial e único e um set de perfeito equilíbrio em torno de toda a obra. Não se cola a ninguém e é todo o mundo, não deixa de ser brasileiro sendo de tudo um pouco onde o cinzento inspira à criação. Tropical, urbano, sambista, vanguardista, simples e simplesmente Cícero.

Odeio despedidas, mas tudo bem!

PS1: Não ia ser uma noite doce de carinho?! Parece que o carinho ganhou outras formas.

PS2: Uma sala com som mau há-de sempre ser uma sala com um som mau. Valeu o terem conseguido equilibrar o som o suficiente.

 

Cícero @ Estúdio Time Out, Mercado da Ribeira