É com o Verão a espreitar pela janela e com um convidativo St. Patricks Day em pano de fundo que fomos até ao boémio Cais do Sodré para ver as florescentes bandas portuguesas encher-nos de rock. O relógio toca as prematuras 21h45m e, fazendo jus à tradição irlandesa, as ruas já se encontram repletas de pessoas, de copo na mão e de lepreuchan hats. Que bem que se está na capital, e que bem que se está no Musicbox.

A odisseia musical começa com os lisboetas Janice que apresentam o seu novo e estreante EP homónimo a uma casa que ainda estaria para encher. É numa atmosfera amigável e ansiosa que Manel Melo, João Tenente, Simão Brás e Filipe Collaço sobem ao palco para se nos dirigir com o seu pop-rock directo e prazeroso. É numa disposição clássica com o baterista e baixista na porta dos fundos, e guitarristas e vocalistas no leme que se gera um cómico contraste entre os dois songwritters. João Tenente, agarrado à sua blues guitar com a sua figura imponente e com um sorriso divertido, joga um ping-pong de vozes com Manel Melo, franzino como a sua strato, risonho e bem disposto.

Tensão aliviada após a primeira faixa, ouvem-se comentários de amigos e aplausos motivadores depois da apresentação dos membros. O companheirismo e diversão fundem-se em cada instrumento bem ensaiado, criando esplêndidas melodias agridoce que nos transportam para os universos da nostalgia e da melancolia. Mas o melhor momento do quarteto ainda estava para vir. É com a cândida “August” que percebemos a belíssima comunhão existente entre as duas vozes que criam uma atmosfera incrível, cheia de sorrisos e pés soltos. Uma despedida calorosa que talvez tenha suscitado a vontade de gritar por um encore.

Janice @ Musicbox, Lisboa

Janice @ Musicbox, Lisboa

Acrescentam-se teclados, trocam-se guitarras, pratos e ao fundo vemos projectado “ALEX CHINASKEE & OS CAMPONESES” num letreiro bem psicadélico. É com o solista no background, baixista na frente e com Chinaskee de costas para metade do público que o quinteto nos troca as voltas. Se com os Janice tínhamos uma dupla de vocalistas bem aprumadinhos, com os Camponeses temos um frontman no mínimo peculiar. Camisa desapertada, calças justas, olhos pintados e purpurina no rosto, tal qual como manda a Bíblia dos fronts. Saidínho da capa do “Transformer” de Lou Reed e com a guitarra colada ao pescoço como um bom Beatle, Alex transmite uma aura enigmática e misteriosa, sem proferir grandes discursos, para além dos acertos técnicos.

E assim arranca o quinteto para um conjunto de melodias vocais e instrumentais carregadas de pedais e de crescendos bravos e bárbaros. Os elementos do grupo trocam olhares comprometidos, de satisfação e de um nervosismo cúmplice, criando uma atmosfera soturna e um pouco distante. “É o Iggyp Pop!”, ouve-se entre o público. Mas a distância acaba quando Chinaskee, já de tronco nu, imerge na sua profunda seriedade, num momento final lindo e excêntrico em que, com a ajuda da pedaleira, se contorce de joelhos no chão e nos transmite toda a energia e raiva contida naquele corpo delgado.

Alex Chinaskee & Os Camponeses @ Musicbox, Lisboa

Alex Chinaskee & Os Camponeses @ Musicbox, Lisboa

Estava assim aberto o palco para a principal atracção da noite. O papel de parede mantém-se psicadélico, mas lê-se agora “The Miami Flu”. Se antes nos perguntávamos se poderíamos chamar este quarteto de super-mini-grupo, a resposta agora é definitiva e indiscutivelmente positiva. A mestria e desfaçatez de Pedro Ledo, a tranquilidade e conforto de Tiago Sales, o poder explosivo e virtuoso de Tiago Campos e a minúcia e sobriedade de João Vilar confere-lhes um sabor delicioso, uma bomba calórica para qualquer melómano.

Assim como no álbum, o primeiro tema a ser tocado é “Kid Again” e vem com um sorriso singelo de orelha a orelha de Sales e com os olhos revirados de Ledo, um início que dá origem a estrondosa viagem de 40 minutos de onde não queremos sair. A camaradagem e amizade sentida sobrepõe-se a qualquer necessidade de ter um frontman vistoso ou qualquer tipo de adereço cinematográfico. É esta a magia da música ao vivo: a quantidade de maneiras possíveis – nem melhores nem piores -, de nos deslumbrar, sejam elas através da candura ou da extravagância.

O sotaque hilário portuense, a bateria incansável e as brincadeiras no teclado (toques polifónicos) permitem que não haja momentos mortos entre a troca de músicas e as afinações necessárias. Depois de tocado o single “Vicious Pill”, o quarteto faz uma transição incrivelmente bem estudada da melancólica “Carried Away” para a ecléctica “Sugarcane” que nos contagia com um solo psicadélico simplesmente brilhante, sacado das mais profundas entranhas musicais. Que fantástico tributo aos gloriosos 70’s.

Houve ainda tempo para tocar uma faixa fora do seu reportório, muito ao estilo de Too Much Flu Will Kill You, o álbum de estreia dos The Miami Flu e mesmo no fim, com a casa a pedir por mais uma, ouve-se “Não sabemos mais!” num tom jocoso mas ao mesmo tempo triste, já que se sente que a estadia por Lisboa podia-se ter prolongado por mais uns minutos, tanto do lado do público como da banda. Encerra-se assim um St Patricks Day da melhor maneira e com o melhor ambiente possível com uma belíssima tríade que invadiu o Musicbox.

The Miami Flu @ Musicbox, Lisboa

The Miami Flu @ Musicbox, Lisboa