Nas últimas semanas, o Teatro da Trindade tem estado animado pela world music do Ciclo Mundos, uma parceria entre a Fundação INATEL e o Festival Músicas do Mundo que na quinta-feira levou o duo Ballaké Sissoko + Vincent Ségal àquele belo teatro onde se escutou um diálogo onírico entre a africana kora e o europeu violoncelo.

África de câmara, isolada de estereótipos

Apesar do requinte do espaço, não era elitista o ambiente nos minutos que antecederam o concerto: plateia cheia por um matizado de etnias, gerações diferentes e vários estratos financeiros, todos incluídos na paixão pela música e na cultura da procura – de novas sonoridades, neste caso, como aquela produzida pelo duo de instrumentos. E os músicos surgiram poucos minutos após a hora marcada, tendo aberto o concerto em sereno modo de recital, sensível na rara abordagem erudita à kora. Distante das agitadas danças africanas que induzem meditação e contemplação, Sissoko fez o instrumento soar quase europeu ao longo de “Chamber Music”, título coerente com a discrição do acompanhamento pelo violoncelo de Ségal e que também é o título do álbum que a dupla lançou em 2009.

O tema inicial foi muito bem recebido pelo público que, apesar de ocupar as cadeiras da sala, o aplaudiu com entusiasmo, expondo a vontade de as almas, atreladas por todas as cordas em palco, de viagens por África. E o duo satisfez imediatamente esse desejo com “Balazando”, espiritual mandingo do mais recente Musique De Nuit (de 2015), introduzido com um pouco de jazz pelo violoncelo dedilhado, mas que a kora de Sissoko converteu numa tour imaginária que partiu do ocidental Mali e transportou o público numa volta vagarosa a sul do Saara. A meio do tema, poderíamos estar já parados numa praia do oriental Corno de África, alucinando a Ásia hindú-persa na outra margem do ameno Oceano Índico, enquanto Ballaké e Vincent se recreavam entretidos em harmonias dedilhadas por ambos após um trecho de transição com o violoncelo cruzado pelo arco.

Não era mais possível fazer marcha atrás. No final, talvez voltássemos ao Mali mas em circuito, avançando sempre! A viagem estava irreversivelmente lançada, sem rumo conhecido pelo público e com expectativa de rotas sem destinos anunciados. “Niandou” é também um espiritual africano, mas tocado sob interpretação mediterrânica, europeizado pelo violoncelo, o que desabrochou numa pergunta: quão antigo será aquele conceito de gospel intrumental e quão influenciado está pelos missionários e governantes coloniais, cristãos e também muçulmanos? Influenciado, mas não desenraizado, como o provou o final gingão típico dos subsaarianos de ‘pé leve’.

Após “Niandou”, Vincent Ségal aproveitou a pausa para apresentar o “compadre Ballaké, tendo recebido forte aplauso a ambos, e num português nitidamente de pronúncia brasileira e fluente, informou da origem étnica dos temas já tocados e do que se seguiu. “N’Kapalema”, de Musique de Nuit como a anterior, é outro espiritual mandingo, tranquilo e meditativo como a expressão facial de Sissoko na maior parte do recital. Talvez tenham sido os minutos nos quais o duo pareceu mais embutido no tema que tocava, com o africano em transe libertando o segundo murmúrio pontual no concerto, que confirmou ser sintoma de execuções mais intensas e difíceis.

A ponte para o Brasil e o repouso em África

Para relaxar um pouco, Ségal revelou simpaticamene à plateia que “é minha segunda vez em Lisboa porque gosto muito da lusofonia“, e contou algumas peripécias da sua viagem ao interior do estado de São Paulo, onde a cachaça esteve omnipresente. E o que se seguiu foi uma musicada travessia do Atlântico até ao Brasil. “Passa Quatro” é o nome de uma pequena cidade paulistana que Vincent explicou ter sido ‘achada’ quatro vezes pelo desorientado descobridor europeu; é também uma melodia contemplativa que os dois músicos interpretaram num modo mais introspectivo que a versão original pleno de blues e gospel com o violoncelo dedilhado para soar como um soulful contrabaixo. Foi um momento propício a reclusão espiritual, do qual a dupla nos resgatou saindo de “Passa Quatro” embalando em medley para o “Samba Tomora”, que começou com Ségal agitando umas pequenas percussões afro-americanas antes de passar para o violoncelo que ‘rabecou’ com o arco expressando o astral caipira daquele tema com não-verbal sotaque sertanejo; estava confirmada a amplitude transatlântica da kora de Sissoko no instante em que mais apeteceu dar folga aos assentos, logicamente para dançar.

Visitado o país irmão (de África e Portugal) enquanto o público aplaudia o roteiro pelo sertão, Sissoko e Ségal pausaram um pouco mais para afinar a kora, num regresso a África. Devagar, como na era das naus, desembarcaram no norte do continente e no debutante Chamber Music: a kora em “Halinkata Djoubé” parece ter inspiração persa e, como em outros temas, soou como uma setar iraniana. Apesar de uma interpretação mais animada que a austera versão do álbum, ambos os músicos se encontravam compenetradíssimos, fundidos com seus instrumentos com a kora dedilhada como uma brisa suave, o violoncelo deslizado pelo arco pintando bandos de pequenos pássaros sobrevoando rios e lagos de forma alietória sobre a garrigue que cobre o sahel do Atlântico ao Índico.

O circuito estava sendo gradualmente fechado, e quando “Oscarine” começou após introdução pela kora, os primeiros compassos dedilhados no violoncelo sugeriram que estaríamos já rumo ao final do concerto em lento trote pela savana, ficando a ruralidade da composição atestada pelo violoncelo que soava a rabeca roufenha. Todavia, “Oscarine” não fechou o recital, que avançou lentamente pela “Histoire de Molly”, também do primeiro álbum da dupla. Rapidamente se supôs que não seria o último tema da noite pelo seu tom melancólico, noutro início com influência arábica. Seria Molly uma escrava? Uma desalojada subnutrida? Uma vítima de guerra? Talvez. A segunda metade da interpretação – ausente no original -, pareceu uma mensagem de Paz, veiculada no violoncelo tocando um calmante reggae.

E após mais um pedido de palmas para Ballaké, que diante de forte ovação voltou a afinar a kora, Vincent anunciou “a última música, para o filho que joga futebol na terceira divisão francesa”, só por evitar lesões, ironizou o francês. Foi “Ma-Ma FC”, apresentada como musicando dribles; e além de ser um tema juvenil e coerentemente corrido, foi interpretado num modo recreativo como dribles, gingão, que no fim levantou o público para fora das cadeiras num aplauso entusiasmado que só parou quando o duo reapareceu no palco. Para oferecer um encore lento, em gradiente silenciador só que ainda mais recreativo: um blues africano que transitou para um final soprado do Saara, mas que ficou na memória pelo improvisado início, no qual o francês soltou uma corda do violoncelo e a usou para arranhar as outras, obtendo um original som literalmente rugoso e metálico. Música transcendente para continuar a ser descoberto no Trindade.

O Ciclo Mundos prosseguiu já ontem com os Songhoy Blues, jovem banda que integrou o projecto Africa Express de Damon Albarn. Contamos tudo em breve.

As imagens do espectáculo pela lente de Pedro Miguel Alexandre.

Ballaké Sissoko + Vincent Ségal @ Ciclo Mundos, Teatro da Trindade INATEL