SixToes - The Morning After
80%Overall Score

Nunca consegui perceber o conceito de “Música de Verão”. And God Knows I Tried! É para dançar? Ou para acompanhar caracóis e imperiais? Para ouvir num clube de praia daqueles que só abrem no estio, com mil paparazzis a tentar fotografar os três famosos que estão na pista de dança? Ou para incluir na playlist que acompanha o piquenique anual da família, onde não faltam os maravilhosos pastéis de bacalhau da Tia Genoveva, o vinho que o Tio Leocádio compra a um produtor privado em Aveiras e, claro, aqueles insípidos queijos que a Prima Eva teima em trazer de França quando vem cá em Agosto? Não sei. É por isso que julgo ter encontrado o meu Disco de Verão. Na medida em que era o único que me faria levar o iPod para a praia e sacrificar o rumor do mar e a berraria das crianças dos colégios que enchem o areal por esta altura, sons que me acalmam, enfim, o primeiro porque sim, o segundo porque não sou eu que tenho de cuidar das crianças no areal! Mas sim, poria a hipótese de sacrificar esses sons pelo novo dos SixToes.

“Morning After” é o segundo disco de gente que não brinca com a música. Aos géneros, subgéneros e duelos de espada com a crítica. Porque já nem a crítica está habituada a ouvir música que não consiga inserir num género. Consegue (oh se consegue, a crítica consegue TUDO menos deixar as opiniões pessoais de lado para poder escrever objectivamente, que era o que devia fazer), mas aqui não vale mesmo a pena. É arranjar uma poltrona em pele, à antiga, daquelas onde nos afundamos, equalizar em flat, escolher o modo Dolby Surround e fechar olhos. Ou então, pois, é ouvir de phones. Na praia. Ou não.

A “Intro” pisca-nos logo o olho, como quem ainda diz apenas “Estás preparado?”, ao que respondemos “Sim, dá-lhe” e ela ainda pergunta mais uma vez “Tens a certeza?”“Não!”. Não podemos estar preparados para isto. “Pedestal” é convencional. Tendo em conta que o convencional, neste caso, é uma qualidade. Guitarra clássica, sobre esta uma voz, convencional também. Perfeita. É a escassos segundos do 1m que tudo se transforma, como se a convencional crisálida abrisse asas num “In your heart of stone, on my own”, um coro de vozes, parte um tom acima, parte um tom abaixo, para entrar uma bateria suavíssima, batida a escovas, depois os metais, tantos, o fade out de tudo o resto para que fiquem alguns violinos, um deles dedilhado, solando como quando ainda se estava na apoteose. No princípio, era o desarme. Estamos agora preparados para deixar entrar “The Morning After”, o tema que dá o nome ao disco: a guitarra assume uma máscara andaluza, para nos levar para um cantinho da planície norte-americana que só os Calexico conhecem, muito particularmente na sua colaboração com Iron & Wine, nesse distante “In The Reins” de que tínhamos saudades. Até agora. Já não.

“Zen Box”, o quarto tema, acaba por não o ser mais (zen) que os outros; talvez aquele banjo lá atrás faça toda a diferença, talvez a voz, que agora recorre a falsetes, ajude a isso. Depois, há “Low Guns”, com um início que passa a ser demasiado longo à segunda audição, quando já sabemos que Dave Gahan (sim, o dos Depeche Mode), há-de chegar, por cima de uma tarola batida a marcha militar, para só ao refrão as cordas apaziguarem as Guns, que ficam assim Low e todos nós somos placidez. Mas ainda há muito por onde ouvir. De phones. Na praia. Ou não. Nem todos têm de ter a mesma concepção de “Música de Verão”.

Com “Volume Song” voltamos à fórmula “Da Andaluzia ao Texas em Quatro Minutos e Tal” e “Nobody Inn” é a clássica história cantada, à la Mr. Cave (a letra é dona e senhora do tema); “Russian” remete-nos de forma genial para uma estepe, mesmo quando se poderia pensar que o óbvio está lá (os violinos que “choram” à boa velha maneira dos clássicos judeus) e, afinal, há um banjo (?) lá por trás dos coros e da ambiência lapã. Mas não valerá muito a pena descrever, de forma exaustiva, aquele que poderá ser o melhor momento do disco. Já “Hawthornes” limita-se a respeitar aquilo que, à nona faixa, já podemos ter como “fórmula” do disco e “The Welcoming”, estrategicamente deixada para o final, acena, afinal, um The Goodbye. Mas de forma tão magistral que é quase impossível não ouvir tudo do início. Outra vez. De phones. Na praia. Ou não.