Sleep Party People - Floating
70%Overall Score

É a flutuar que começamos esta introdução ao estranhamente melódico mundo dos Sleep Party People. Estranhamente porque o convencional não foi para aqui chamado, ao contrário do ouvinte que sente às primeiras notas o apelo (e não, não vamos fazer a alusão ao canto das sereias por ser demasiado óbvio e aqui prima-se pela diferença), o que faz com que o sobrolho franzido dure escassos segundos até sermos obrigados a sentarmo-nos numa daquelas poltronas que, um dia, serviram para ouvir música de olhos fechados. Se essa não houver, pois, que os olhos fechados bastem.

Este disco dos Sleep Party People é pop sem respeitar os seus trâmites, é nostalgia sem que as óbvias sonoridades de Joy Division ou múm não possam ser colocadas com muitas reticências, do género “naaaaa, isto é da minha cabeça”, é material novo sem inovar, é fresco sem dar azo a sucessos de verão. É, digamos, jeitosinho! Serve bem.

“Changing Time” e “Floating Blood of Mine”, os dois primeiros temas, são dois momentos, distintíssimos, que despertam interesse. Em “Stranger Among Us”, vêm a nós todos os sintetizadores e claps electrónicos e riffs de baixo que só Twin Shadow tinha tido, até agora, o desplante de assumir com tranquilidade, aquela New Wave que agora é a Old Wave mas é tão Boa Onda. “In Another World” é de Outro Mundo. A voz continua a ser um falseto melódico, só ela se sobrepõe a uma sample de bateria que poderá, ao vivo, ser substituída pela real thing, cria suspense como se o Fantasma da Ópera fosse aparecer a qualquer momento mas numa fatiota modernaça, talvez desenhada por Vivienne Westwood. Talvez não, talvez este não seja um tema que faça jus ao disco. Talvez o faça o tema seguinte, instrumental, “Death Is The Future”, oxalá que não; há um início mais industrial, um meio mais new wave, um final encorpado, prolongado e persistente na boca, fica a ideia de novidade, não tanto como o que se lhe segue, “I See The Sun, Harold”, um devaneio downtempo de piano, oposto ao seguinte, “I See The Moon”, com Lisa Light, convidada de honra a vocalizar um manifesto mais rock, muito mais rock, daquele rock que se deixou de fazer porque já ninguém consome drogas de transe ou, pior, já ninguém entra em transe com música e sem drogas. E se em “I See The Sun, Harold” a coisa é sensaborona e em “I See The Moon” já mexe, é porque estão provadas aquelas teorias que atestam que quem é mais activo à noite é mais criativo em vida, quem dorme em barda perde anos dela, como se fosse preciso grande ciência. Os Sleep Party People são, obviamente, da noite. Mas ainda têm (esperamos, MESMO), muito por onde crescer. Em “Only a Shadow”, tudo volta ao normal. Normal nos moldes Sleep Party People, claro, que não é a normalidade dos outros, que sobrevalorizam a normalidade a ponto de não perceber que essa impõe limites. Muitos. Demasiados. É desses que se libertam, eles e a nós, em “Scattered Glass”, o tema mais importante deste disco e o que estrategicamente lhe diz adeus. Nós também. Mas não por muito tempo. Temos alguma estima pelos Sleep Party People, mas esperamos mais para a próxima.