Small Feet - From Far Enough Away Everything Sounds Like The Ocean
80%Overall Score

Diz o título do álbum de estreia dos Small Feet que, se a distância for suficientemente grande, tudo soa como o mar, mas no que diz respeito a este trio de folk sueco, sacrificamos sem grande desgosto o sussurro das ondas para ter esta voz e estes acordes nos ouvidos. De facto, é errado falar sequer em sacrifício quando se tem o prazer indescritível de ouvir o canto de Simon Stålhamre, um bardo barbudo com uma voz capaz de conduzir os perdidos à luz na noite mais negra e cruel. E este álbum primogénito é mais do que um raio de luz, é uma amálgama luminosa perfeita de hinos e cantigas, temas aconchegados, melancólicos ou épicos, todos eles com aquela beleza rara que comove e mexe com os neurónios e a maquinaria do coração.

From Far Enough Everything Sounds Like the Ocean abre com “Gold” e, perdoem o cliché (mas o que é a vida sem clichés?), é como um nascer do sol, um toque de alvorada para garimpeiros de tempos idos num qualquer rio norte-americano. Se eles encontram ouro ou não, isso é lá com eles, mas nós percebemos imediatamente que encontrámos um filão com este álbum, com esta voz e com todas as histórias que conta e evoca. O imaginário é marcadamente americano, encaixa como corpos de amantes nesta folk melancólica e bela, que remete em certos momentos para os Fleet Foxes, mas que é sempre muito própria. Mas depressa nos deixamos de paralelismos e isso será o melhor: isto é música que se entrega e que pede entrega, e quanto mais nos entregamos, mais recebemos. Recebemos boas toadas, boas letras e uma bela viagem a paragens simultaneamente distantes e próximas na geografia e no tempo.

Este é um álbum generoso do princípio ao fim, não havendo um momento em que o trio nos deixe menos satisfeitos. Podemos destacar alguns temas mais orelhudos, como “Rivers”, “All and Everyone” ou “Lead Us Through the Night”, mas todos são igualmente sólidos e a constância de um álbum coeso e belo de uma ponta à outra é uma dádiva incrível que aceitamos não sem alguma reverência. Na verdade, escutar este álbum é quase como encontrar um unicórnio sueco a viver num qualquer bosque americano, uma floresta que não coibimos de revisitar para experimentar o prazer de ouvir os temas uma e outra vez, para descobrir novas camadas de significado nas palavras ou simplesmente porque tendo o primeiro encontro corrido tão bem, queremos repetir a dose. É uma viagem que merece ser feita mais do que uma vez, mar ou floresta adentro, confiantes nos dotes de navegador de Stålhamre, que é simultaneamente bússola e sereia que nos chama para um mundo em que apetece ficar mais um pouco, banhados numa luz dourada e quente.

Quando o dia estiver a ser difícil, quando a vida parecer um pouco feia, ponham esta rodela a tocar e recuperem a esperança na beleza, na paz e na capacidade de um trio sueco de fazer com que tudo fique bem. Fala-se tanto da competência sueca, esse povo de qualidades quase míticas, não é? Neste caso, a fama confirma-se e o proveito é todo nosso.