Ao longo dos meses em que o Sofar Sounds Lisbon tem actuado com a sublime função de dar tempo e espaço a artistas e bandas emergentes – nacionais e internacionais -, tem sido enorme a procura por parte dos curiosos – nacionais e internacionais -, em adquirir um bocadinho de espaço para sentar durante as três actuações. Não é de admirar que este conceito atinja novos e fascinados públicos, mas tudo isto, seja apelo crescimento do evento, seja pela qualidade garantida que assegura, merece uma ovação muito grande.

Como o Sofar propõe sobretudo locais de pequena escala, raramente poderá abraçar mais de meia centena de espectadores em cada sessão e, dessa forma, resta a cada um convocar a paciência e esperar por uma edição em que, todos aqueles que não puderam ainda assistir ao vivo e a cores a estas performances mágicas, o possam fazer em breve. Com as doses correctas de persistência, todos conseguirão o tão desejado lugar ao Sol. Desta forma, e provando que não só aos domingos acontece magia, a última edição do Sofar Sounds na capital aconteceu no sábado, dia 18 de Fevereiro na Wozen, um espaço que sublinha a cidadania mundial e a multiplicidade de actividades que uma entidade sem fronteiras é capaz de oferecer. Instalados os privilegiados que puderam participar nesta reunião musical, e servidas algumas cervejas e cidras, apresentou-se a primeira interpretação da tarde. Os irlandeses The Ocelots.

Em formato duplicado, Brandon e Ashley, os gémeos quase quase idênticos que estão de momento em digressão pela Europa, desenham um folk que, com eles, comprovámos ser sempre belo e marcante. A tocar para o público desde 2012, têm uma pureza nas letras com a dose certa de humor e experiência, numa combinação que deixaria William Blake muito feliz, tanto quanto transparente na dança profunda permitida pela guitarra e pela harmónica que tudo contemplam com firmeza e enorme talento, numa simetria ímpar. Num acústico não cozinhado, os dois tornavam logo a face muito vermelha pela bravura com que encaixavam na actuação, com especial destaque para os momentos à cappella, sorrindo como dois leprechauns radiantes e satisfeitos. O público assimilou depressa o ambiente e entrou na jogada dos The Ocelots, teletransportando-se automaticamente para um pub irlandês.

Trouxeram-nos vários potes de ouro com reminiscências de um jovem Bob Dylan, Kings of Leon, Bon Iver, Simon & Garfunkel ou Fleet Foxes, e cada harmonia traduzia uma história, um momento entre relações humanas ou as destemidas baladas a favor ou contra donzelas. Ficcional ou real, pouco interessava, o público do Sofar acreditou sempre. Dando corpo ao panorama folk irlandês, consistente e muito rico, os The Ocelots – nome dado a uma espécie de leopardo anão -, exibiram a empatia natural de irmãos e, neste caso, de gémeos, completando-se e complementando-se em todos os temas e olhares que trocavam enquanto tocavam. A belíssima “Dead End”, “Lover I Need You”, “Can’t Even Say Your Name” ou “Shoot Me Darling”, esta última que bebeu inspiração num episódio de Twin Peaks, ofereceram todos os ingredientes para deleite do público na primeira performance da tarde e honrando a língua inglesa.
Como saídos do filme Inside Llewyn Davis dos irmãos Coen, os The Ocelots permanecem num pódio independente e inspirado pela sua errância, de guitarra e harmónica às costas, estreando-se no Sofar Sounds Lisbon mas tendo já tocado, por exemplo, no Sofar Sounds London e não conhecendo limites nas suas actuações e públicos, com composições que parecem envergar uma maturidade muito autêntica.
De momento, encontram-se a trabalhar no próximo EP previsto para Julho, mas é aconselhado que se esteja atento a estes dois músicos tão talentosos, e em dose a dobrar, felizmente para todos.

The Ocelots @ Wozen, Sofar Sounds Lisboa

A segunda presença do Sofar Sounds Lisbon coube a MC Ary muito bem acompanhado que esteve com Isaías Manhiça, Rebeca Reinaldo e Serginho Motta. Curiosamente, MC Ary é já repetente no Sofar Sounds Lisbon, mas isso não impediu que chegasse cheio de novidades e muitas palavras a dizer. Todas elas necessárias de ouvir. O poeta e rapper, aclamado no panorama do rap e do hip hop nacionais, nasceu no Brasil, embora tenha crescido em Lisboa, entre missões pessoais e mudanças de vida radicais, como a persistência do sonho de viver e sobreviver da música. Dessa forma, muniu-se de todos esses ambientes, tradições, lições e formatos de existência, actuando precisamente como sempre tem vivido: com muita força e muita convicção.

As letras dos temas de MC Ary são transparentes e cristalinas, tal e qual como a sua performance ao vivo, sem constrangimentos entre público e artista, sem barreiras ou cortinas de ferro. Com sinceridade e muitas ganas, age como mensageiro de indivíduos e realidades pouco faladas ou, pior ainda, indevidamente faladas, e não olha a meio de atingir os seus fins, tão notáveis. No Sofar não actuou sozinho mas, ainda assim, o registo pousou na Wozen sempre com muita acústica entre soul, funk, bossa, samba e hip hop de carimbo nacional, sobretudo com as participações vocais dos três acompanhantes e com os instrumentais de Motta que enriqueceram de vibes brasileiras cada rima de Ary. Neste sumo de tantos frutos, disse ao público que não era preciso ser forte em todos os momentos e que, por vezes, era importante baixar a guarda e admitir as sensibilidades e as fragilidades. Com “Valor”, “Rafeiro” e “Coração de Ouro”, dedicada a todas as pessoas solidárias de gestos altruístas, com especial menção aos seus avós, Ary provou ser detentor de palavras justas e muito acertadas, rigorosas em qualquer momento.

A sua performance foi muito marcante também pelos momentos que dedicou a conversar com o público, sem filtros de vaidade ou de presunção, e são também estas oferendas algo a reter do Sofar Sounds Lisbon que transforma qualquer sessão num piquenique no sofá lá de casa. Com a mixtape Consciência dos 20 agarrou os primeiros fãs, mas foi com o EP Pé de Chinelo Vol. 1 que MC Ary se consagrou, exibindo precisamente uma ode às tendências brasileiras, de pé a bater com calor e sempre com o seu lema ‘Noiz Por Noiz’. Falando do vira-lata sem pedigree, o que é certo é que MC Ary trouxe um rap muito bem cosido, cheio de laços diferentes e animou, com toda a firmeza, o colectivo do Sofar Sounds Lisbon, oscilando os seus versos entre a pronúncia portuguesa europeia e o tom doce do português do Brasil, rompendo fronteiras e fazendo a todos acreditar na realização de ambições como algo que está, ao fim e ao cabo, nas mãos de qualquer um. O astral de todos subiu logo a pique com as suas narrativas e provou que é preciso abrir fronteiras e deixar o rap e o hip hop inundarem a música nacional, cada vez mais, cada vez com mais força.

MC Ary @ Wozen, Sofar Sounds Lisboa

Com a função de encerrar a sessão do Sofar entra o brasileiro Leo Middea, trazendo em braços o seu violão reluzente que reflectia todos os seus caracóis fartos e o seu sorriso, tão grande que mal cabia na galeria. Embora os arranjos de A Dança do Mundo tenham mais instrumentos e mais intervenientes, Leo actuou a solo – isto se contarmos com a sua presença humana: na verdade a sua actuação parece ter incorporado uma multidão inteira. Leo, de apenas 21 anos, corrobora a tese de que a idade não condiciona tudo. Com trejeitos de um Caetano Veloso jovem, pela sua aparência e pela sua musicalidade, tem aqui o jackpot que lhe faz falta mas, na verdade, nada lhe falte.

A residir em Lisboa há apenas dois meses, Leo parece ter já encontrado os seus cantinhos de conforto e a matéria-prima suficiente para compor, tendo até apresentado ao público do Sofar, rapidamente rendido ao seu rigor e vigor artísticos, dois temas criados precisamente na capital portuguesa. De tropicalismo bem luminoso e com dois discos gravados, Leo não tem mãos a medir. Um destaque a “Tibethânica”, tema que demonstra bem o seu modus operandi pela riqueza da letra e melodia, ambas igualmente essenciais para se ficar, de imediato, com uma noção do seu engenho. Entre o Tibete e Maria Bethânia, as estrelas estão no firmamento e lá vai Leo, com o seu violão e a sua voz, em busca de um continente perdido, uma lagoa por mergulhar, uma montanha por escalar, ou o que quer que seja necessário para os seus ossos e veias não deixarem de mexer. Leo, mesmo sem cabelos brancos, parece ter passado por muitas vidas, amado tanta gente, viajado por tantas ruas. Com o seu lado boémio e elegante na senda de Caetano, Gilberto Gil ou Chico Buarque, cada acorde da sua guitarra tem um propósito claro de tocar na mais ínfima célula do coração.

Com “Pedaço do Céu”, fez vacilar muitos valentões no público, deixando-lhes os poros arrepiados e todas as pessoas à mercê desses sentimentos à flor da pele. Leo torna assim claro porque veio para Lisboa e dá voz ao seu tamanho que não cabe num sítio inerte, mas tem antes de se soltar e se movimentar com uma inquietação irrequieta cheia de pegadas. Se Leo Middea é brasileiro, Leo Middea também é um cidadão do Mundo, e é com essa premissa que pode e deve ser escutado em qualquer lugar. Com Dois de 2014, e agora A Dança do Mundo do ano passado, o violão não tem descansado. Em “Meu Público”, fala-se justamente da sua experiência enquanto músico e da sua procura pela batida e letra que adquiram a sua eleição maior.

De afectos nas notas, nas letras, nas suas múltiplas vozes, foi sempre agradecendo o carinho do público, honrado com a sua presença, e feliz com a coincidência da tarde. Em jeito de celebração, de brinde invisível, Leo ritmou o Sofar Sounds Lisbon com uma frescura própria da sua idade, das suas experiências e das suas vontades. Indo do grave ao agudo com facilidade, e passando por tantos cenários distintos, tantos personagens e influências, o coração bateu sempre mais alto. É preciso permanecer ou continuar a prestar atenção ao Leo, ainda para mais se, por agora, estará por terras lusas.

Leo Middea @ Wozen, Sofar Sounds Lisboa

Esta foi, sem dúvida, umas das edições do Sofar mais acústicas e mais internacionais, brindando-se ao alto um enorme cálice entre a Irlanda, Portugal e Brasil. Que todos os acasos fossem desaguar na dupla de gémeos diabretes The Ocelots, no MC Ary e na sua crew bem afinada e no Leo, carioca ridiculamente talentoso. E que todas as semanas fossem equilibradas por uma sessão de Sofar Sounds, pautada por horas de música em que o esquecimento das coisas superficiais é uma constante e a elevação da música, como arte soberana, um imperativo. Em breve, há mais.