Sábado, 8 de Abril, tarde de sol e mais um Sofar Sounds Lisbon, desta vez no Saldanha no arejado terraço da Beta-i, uma start-up que distingue, desde 2010, o empreendedorismo e acolhe vários eventos e momentos. Com um belo cartaz da autoria de Carline D’Almeida a acolher o público e mais alguns brindes de imperais, cada um ocupou um pedaço de chão, ou um canto de degrau, tendo sido introduzido o primeiro nome das três actuações.

Coube a O Martim abrir as honras da tarde. Martim Torres, juntamente com António Quintino no contrabaixo, é já repetente no Sofar Sounds Lisbon mas, por agora, trouxe novidades do seu mais recente projecto. Os dois inauguraram o serão com uma belíssima versão de “O Não-Pedido de Casamento”, que Rodrigo Amarante imortalizou a partir da versão original de Georges Brassens em “La Non-Demande en Mariage”. E O Martim cantava: “Eu tenho a honra de não te pedir a mão / Pra quê firmar no pergaminho essa união?”, deixando o público totalmente à vontade na gestão da tarde com a sua simpatia e bem-estar no terraço.

Numa versão mais acústica, visto ser só acompanhado pela sua guitarra, apoiada pelo contrabaixo de António Quintino, as melodias foram cativantes do primeiro ao último segundo da doce performance e agarraram os curiosos do Sofar, numa tarde que contemplou muitos estreantes perante o conceito. “Fazer Melhor”, a última faixa de Deixa o Tempo em Paz, ocupou um dos momentos mais bonitos da tarde. “Fazes Isso Tão Bem” foi, também, um tema bastante aplaudido, logo depois de O Martim contar à audiência ter sido pai há um mês. Orgulhoso, o tema “Da Sala Para Lá” é daquelas canções capazes de subir o astral e a energia de qualquer um, escutando O Martim entoando “Só quem esquece a cama é que vai dormir noutro lençol / só quem está acordado é que vê nascer o Sol”.

Com assinatura da Azáfama – Produções Artísticas, depois de Em Banho-Maria de 2013 e Horas para Gastar Vol. 1 de 2015, o discoDeixa o Tempo em Paz foi apresentado no Teatro do Bairro no último dia de Março, e ostentado que foi também, em jeito de introdução irresistível, no terraço do Beta-i. A 15 de Abril o festim musical viajará até a Casa da Música, no Porto, e é preciso escutar O Martim e ser imediatamente contagiado por tamanha energia e felicidade. Vale bem a pena.

O Martim @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

O Martim @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

Depois de O Martim preludiar mais uma edição de Sofar com as suas letras alegres e sorridentes, a multidão foi informada que a artista britânica prevista para o segundo capítulo da tarde não tinha conseguido vir por motivos relacionados com material. Desta forma, sem tristeza, e em nome do apadrinhamento do Sofar Sounds Lisbon, apareceu Leo Middea que, numa edição em Fevereiro, foi responsável por glorificar ainda mais este conceito com uma maravilhosa prestação ao vivo que ficou, de imediato, para a história das performances mais emblemáticas.

O carioca, há cerca de dois meses e meio a viver em Lisboa, saltou para o palco do terraço com o sorriso largo que lhe é natural e agarrou, com amor, a guitarra e os poemas em português mais lírico. A Dança do Mundo, álbum de 11 temas lançado o ano passado, esteve na voz de Leo e imediatamente no coro do público, que tudo agarrou com sinceridade. Com “Ciranda”, tema a receber o primeiro videoclip do álbum, cantou com todo o ânimo do universo: “É, cada lugar tem / Uma história, uma viagem / Algo pra te fazer ficar”. Chegou ainda a vez de “Tibethânica” com as referências aos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, um dos temas mais bem conseguidos de A Dança do Mundo e um dos mais memoráveis.

Leo falou ainda ao público sobre a conversa que teve com a mãe em torno do questionamento de ser músico e artista e sobre as consequências dessa profissão. Essa reflexão gerou “Meu Público”, uma faixa que refere outros géneros musicais, o forró ou o funk, por exemplo, como eventuais alternativas à música que compõe. Pelas paredes do terraço, bem guardado no centro da capital, a voz de Leo subia e subia até o céu azul. Neste sentido, não restaram dúvidas sobre a autenticidade da sua profissão e sobre o valor da mesma.

Em “Valsa” e “Pedaço do Céu” o sentimento era tanto que a emoção inundou o público. Mesmo aqueles que não eram entendedores da língua portuguesa, porque há intenções que são transcendentes e não precisam de tradução, tudo sentiram à flor da pele, encostando cabeças com carinho, ou balançando discretamente as mãos e os pés, sorrindo, fechando os olhos, deixando que fosse a música, e nada mais, a guiar a tarde.
Na despedida de Leo o público pediu ‘só mais uma’, e essa prece foi atendida com uma música composta logo que chegou a Lisboa; “Vento Bordeaux” recebeu o carinho de todos e sendo, com a franqueza dos seus 21 anos, um artista que prova que a idade é mesmo relativa perante a arte e o dom que não conhecem limites.

Leo Middea @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

Leo Middea @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

Depois da língua portuguesa em grande plano com O Martim e Leo Middea chegaram, de Viseu, Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre com o projecto Galo Cant’Às Duas. Entre choques eléctricos, de odisseia em odisseia, elevou-se a percussão alucinante de Hugo e a infinita construção de som com cordas e pedais capazes de fazer voar um foguetão de Gonçalo, fazendo do terraço uma autêntica praça de experiências sonoras bastante impressionantes. Numa espécie de boda entre o folclore e algo mais insólito e mais espacial, com sonoridades que fariam corar os Slowdive e com instrumentais a fazer lembrar algumas linhas dos Galgo e dos indignu, os Galo não tiveram tempo nem para respirar.

“Ligando-se por linhas imaginárias, o Galo aprende a cantar em atmosfera de pura liberdade”, dizem eles sobre a sua identidade e, de facto, esta frase significa tudo sobre a actuação ao vivo de duas pessoas que parecem guardar em si uma orquestra inteira, um autêntico banquete de todos os sabores possíveis e impossíveis. Ainda que o disco tenha somente quatro temas, desenganem-se aqueles que julgam ser um EP ou outro objecto que não um álbum. É precisamente um álbum, e quatro faixas são tudo o que é necessário para consagrar os Galo como detentores de um som nobre, rico em proteínas, pleno de vitalidade e significado. O galo pode cantar às horas que quiser, mas com Hugo e Gonçalo não existem horas suficientes no dia para suportar tamanha música. Os anjos cantam sim e quem os escutasse com atenção ouviria algo como a música dos dois.

A percussão, que para além da bateria encontrou ainda o eco de tachos e panelas, fez bombear o sangue de todos na plateia com ainda mais força, estremecendo o ritmo que, ao vivo, tem outro contorno. Perante os uivos conseguidos pelos pedais mágicos de Gonçalo, a puxar as cordas para um lado mais jazz mas sempre pautando por um lirismo absoluto, os olhos encontravam-se focados. Os Galo Cant’Às Duas contêm aquela essência mística de música que quase parece impossível de reproduzir por humanos, e fizeram diminuir o espaço do terraço cheio em todos os cantinhos. A actuação ao vivo de ambos teve uma graduação que parecia auspiciar algo misterioso, algo prestes a acontecer, entre o esotérico, o místico, o divino, o pagão, o electrónico de agora e o tradicional de há séculos atrás, e é esse o segredo mais evidente nos Galo.

Ambos criam um tipo de música que, ao vivo, ganha outra força e ganha outra vida ao vivo. Há algo de muito primordial nessa performance, numa espécie de confronto homem-natureza, não havendo espaço para erros, distracções ou dúvidas. É aí que reside o verdadeiro exorcismo e tudo é orientado para a catarse final. “Respira” é um tema que, ao contrário da designação, faz duvidar do ar necessário à sobrevivência. Entre pratos e estrondos de percussão abismal, as cordas lá vão coordenando a orientação e o caminho. “Processo Entre Viagens” é uma expedição que leva tudo e todos à frente, de olhos bem abertos, e torna mais próxima a crença no teletransporte. Em “Partícula” os Galo oferecem voz humana e entoam “Seremos todos nada”, em combinação muito bem conseguida com a linguagem própria dos instrumentos que tão bem substituem as palavras, dando outra cor à emoção que se quer viva, acima de tudo.

Não se deve julgar um álbum pelo seu tamanho ou pela quantidade de temas, isso é certo. Procurem Os Anjos também Cantam e duvidem das vossas crenças.

Galo Cant'Às Duas @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

Galo Cant’Às Duas @ Beta-i, Sofar Sounds Lisbon

Mais uma vez, o Sofar prova que não existem fronteiras para a curadoria musical e, sobretudo, garante a pés juntos que os sábados e os domingos nunca mais estarão vazios de planos bons.

A fotogaleria completa da útima edição do Sofar Sounds Lisbon pelo olhar da Mariana Narciso.

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