Mais um domingo, mais um Sofar. A frase tomou rédeas próprias e, dada a rotina que nunca aborrece, já se estranham os domingos sem concertos. A 32ª edição, no Hood, local em Marvila que contempla várias empresas e start-ups, acolheu não só três performances, como o sortudo público seleccionado para os concertos surpresa e ainda os jovens da Associação Candeia, ao qual a plataforma do Sofar Sounds Lisbon se tinha já conectado na edição solidária de Natal.

Com a casa cheia, o Hood recebeu ainda um banho do mais recente e delicioso patrocínio do Sofar Sounds Lisbon: as sidras da Bandida do Pomar. Por entre brindes, este conceito que está implementado em Lisboa há quase três anos, apontou porque é uma das surpresas preferidas da cidade e voltou a lançar os mais imprevisíveis dados sobre a audiência.

A primeira actuação do fim de tarde coube a Fuba, a.k.a. Crossmoke, projecto que pressupõe fazer do corpo uma autêntica banda viva. De forma autodidacta, e apresentando-se como um one man band, os seus pedais em loop fizeram as delícias da casa. Actuando como um fazedor de ritmos, Crossmoke trouxe palmas, castanholas e a percussão que embutia na guitarra eléctrica actuava como uma espécie de porta-voz da obra de Tarantino. A sua voz surgia, também, entre os sons que criava e fazia repetir, e esses pequenos trechos complementavam em harmonia o resto das melodias que voavam das mãos, pés e lábios de Crossmoke. Entre ritmos distorcidos e desconstruídos, criaram-se múltiplos ambientes entre o cinema, o teatro, as ruas de Nova Iorque dos anos setenta com arrepios do trip-hop ou os beats do hip hop da viragem do milénio.

Formando verdadeiros tesouros sonoros, a sua linguagem expressa-se universalmente e de formas muito heterogéneas: entre o beatbox e a inspiração mais clássica, entre o clima industrial das cidades e os sons extraídos dos becos sem saídas Crossmoke é, sem dúvida, um criador musical a ter em conta. Com destaque para “O Palácio” e “Fado Rythm Blue”, “The Jump” e “Smoke”, estes foram temas que trouxeram ao público do Sofar Sounds o sotaque western fundado entre a América e o continente europeu e a prova viva de que um só indivíduo pode reflectir tamanha riqueza de ruídos, formando sempre uma massa sonora muito equilibrada e bem conseguida.

Crossmoke @ Hood, Sofar Sounds Lisboa

Honras feitas e chega King John, projecto musical iniciado em 2015 e liderado pelo açoriano António Alves, vocalista e guitarrista que conta ainda com a guitarra eléctrica de Tiago Franco (que também esteve nas teclas), a bateria de Nuno Carromeu – o único continental -, e o baixo de João Alves. Para além da música dos King John, os três primeiros juntam-se ainda na fresquíssima banda Silicon Seeds, pousada entre blues e rock, precisamente como acontece com a banda que na presente edição do Sofar Sounds entretia a casa.

O alter-ego de António Alves demonstrou que os blues estão vivos e recomendam-se, sobretudo com a performance de temas como “Cool By Association”, “Gold Locks”, “Nevermore”, “Punch Below The Belt” ou “Hour Of The Wolf” que contaram ainda com a participação do público neste refrão de lua-cheia. Em road trip pela Route 66, passando pelas gastas estações de serviço ao lado da estrada, King John exibe uma monarquia que rompeu com a geografia das ilhas dos Açores e voou já entre várias zonas do Mundo. Por agora, resta que continuem a invocar um reino de blues e rock da velha-guarda com a saudável lufada contemporânea na criatividade e na actuação ao vivo entre melancólicos uivos e rajadas de vento que tudo levam à frente. King John marcará presença no Musicbox em Fevereiro, para quem quiser repetir a dose, e estará, certamente, nos artistas a ter em conta nos futuros próximos.

A fechar o Sofar chegaram Acácio Barbosa e Warren Cahill – que para além dos Port do Soul faz parte dos Rat On The Roof com Elliot Hollins desde 2007 -, ligados pelo projecto Port do Soul num autêntico abrigo da alma e das cordas. Os dois intérpretes, que se conheceram nas ruas de Lisboa, decidiram unir esforços e criar algo que unisse a guitarra portuguesa e a clássica, mas provocando um estilo próprio e uma coexistência assente na multiplicidade de sons e diálogos entre instrumentos.

Port do Soul tem sido um segredo bem guardado e os dois músicos actuam várias vezes nos mil recantos da capital, oferecendo a todos os que passam a banda-sonora ideal para o momento. Juntos pelo prazer da música há quatro meses, os dois possuem a habilidade dos contadores de histórias mas sem o uso das palavras, antes dando liberdade aos ouvintes de criarem os seus contos e lendas através da linguagem própria das guitarras que tiveram muito a dizer. Warren Cahill é, decerto, um encantador de guitarras. Costuma exibir as suas composições em Alfama e é também um repetente do Sofar, tendo actuado a solo numa outra edição. A sua técnica é excêntrica, inovadora e ousada, utilizando as mãos, o antebraço e o cotovelo, numa perfeita união em busca do som mais alucinante; emprega uma técnica de nome fingerstyle e engendra mecanismos de percussão dentro da própria guitarra que aumenta a diversidade e o alcance das notas, conforme as suas mãos entram numa dança muito agitada. A sua performance recorda também as actuações de street guitar, em que persiste a dúvida sobre a memória da partitura ou a espontaneidade de uma actuação improvisada. Isso pouco importa, na verdade. O talento de Cahill é transparente e extravasa as dimensões onde se encontre a tocar.

Neste fim de tarde, Acácio Barbosa envergou uma magnífica guitarra portuguesa mas, ao contrário do que se podia esperar, não tocou unicamente da forma convencional. Tal como Cahill, também a deitou no regaço e fez dela, simultaneamente, um instrumento de cordas e de percussão. Barbosa é também membro de Criatura, projecto de música de cariz popular e tradicional portuguesa criado em 2014. O seu talento para este instrumento que tanto diz ao país é indesmentível mas, acima desse facto, reside a sua capacidade de transformação perante vários géneros e desafios musicais. A riqueza da performance ganha contornos ímpares quando acontece ao vivo, pois a energia dos Port do Soul não se compara a nenhuma outra dinâmica a pares.

Port do Soul @ Hood, Sofar Sounds Lisboa

Sem perder o fôlego e, certamente, sem ficar com os braços dormentes, atiram-se às guitarras, de origens diferentes e criam composições de uma profundidade magnifica. Sem pisarem o fado, ainda que com a presença firme da guitarra portuguesa, a boda entre os dois estilos acontece com muito sucesso, sobretudo se se atentar à guitarrada que é proveniente de José Nunes, um dos mais influentes e férteis guitarristas da nobre técnica de dedilhar. Com o cotovelo extraordinário de Cahill e os rápidos dedos de Barbosa surge “Reverse”, “Lap Lighter”, “Slave Heart” e “Tuk Tuk” – esta última concebida, precisamente, a bordo de um. Qualquer tema que se escute emprega-nos de vontade de conhecer mais.

No fundo, os Port do Soul proporcionaram uma belíssima homenagem à arte das cordas em todas as suas proporções e destacaram a premissa da riqueza dos sons enquanto ordem natural das coisas, como a música de The Stephane Wrembel Trio ou de John Butler Trio, por exemplo, permitindo uma colectiva sessão de hipnose em que, embalados pelas notas musicais e pelo frenesim com que tudo acontecia, o público não poupou nas palmas. Sobretudo depois do último tema, viagem que observava várias faixas.
O primeiro EP do duo foi gravado no Miradouro de Santa Luzia e encontra-se à venda para quem quiser guardar pedacinhos deste banquete de guitarras.

Os ideais e valores do Sofar Sounds não se esgotam de domingo para domingo; muito pelo contrário, já que fazem com que cresça incessantemente água na boca e permitindo, também, que o público possa tomar nota de bandas e artistas de que gosta e até então não sabia que gostava. Com sidra ou sem sidra, que as edições continuem por muito mais tempo e ofereçam nomes nacionais e internacionais sempre, mas sempre, em nome do amor à música.

Fotogaleria Sofar Sounds Lisboa

Sofar Sounds Lisboa @ Hood: As Fotos

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