A 23 de Outubro aparecemos no Lisbon Work Hub, em Marvila, para mais um domingo dedicado ao Sofar Sounds Lisbon. O conceito, que surgiu em Londres em 2009 ganha, de dia para dia, mais fãs, como pudemos comprovar pelos braços levantados dos estreantes, em resposta à Inês Pires, que perguntava quem aparecia ali pela primeira vez. Num espaço bonito, amplo, com tapetes no chão e muito calor humano naquela que foi uma tarde bem chuvosa, recebemos a primeira performance do serão: Joana Barra Vaz.

Joana, co-fundadora do arquivo web do projecto ‘A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria’, lançou Mergulho Em Loba em Setembro e veio dar-nos deliciosos grãos de açúcar em formato musical. O disco surge na continuação da trilogia f l u m e e sucede a Passeio pelo Trilho, de 2012. Joana, que actuará no Vodafone Mexefest em Novembro, acompanhou-se da sua voz e da sua guitarra em minutos de duetos absolutamente doces, pelo lirismo das letras – carregadas de ondas do mar e pegadas na areia -, e pelas cordas da guitarra tão delicadamente entrelaçadas com as suas cordas vocais numa suavidade muito bonita e acolhedora. O momento foi quentinho e faltou só a mantinha para tapar as pernas.

Ficou, assim, o público devidamente instalado com a boa disposição de Joana que nos trouxe “Suspensão” e “A Demora” e deixámos que nos fosse falando e cantando com a mesma suavidade com que realizava uma e outra acção. Escutámos ainda o maravilhoso single “Casa É Canção”, ode encantadora a um episódio vivido pela vocalista na Praia Grande. Existia nessa praia uma casa caiada de branco e, no telhado da casa, alguém havia escrito a letra azul ‘o amor existe’. Joana reparou nesse detalhe curioso mas, quando voltou novamente para a área perto da casa, já o telhado tinha sido pintado de novo, a branco, cobrindo a frase. Regressou uma terceira vez e, provavelmente pelo mesmo interveniente, tinha reaparecido a frase com um pequeno acrescento que se traziu em ‘o amor ainda existe’. Há que ter esperança nos gestos felizes em que o coração parece querer sair do peito, não é verdade? E, sobretudo, há que acreditar no amor. Este foi, certamente, um dos pontos altos da sua emotiva actuação.

O Mergulho em Loba deixou-nos entranhar pelos oceanos e pela brisa suave dos entardeceres à beira-mar. Através dos cânticos de Joana, em suites bem regadas de carinho, o arranjo – acústico dos pés à cabeça -, assentou maravilhosamente na linha do Sofar Sounds Lisbon na qual fomos sendo embalados até a actuação seguinte que, cedo entendemos, seria de um estilo musical diametralmente distinto.

Palco actualizado para deixar entrar uma mesa de mistura esfomeada, e entra de rompante Mário Cotrim, a.k.a. ProfJam, trazendo consigo a companhia de Mike El Nite para uma apresentação de titãs. Depois de The Big Banger Theory de 2014 e, agora, com Mixtakes, o sugestivo nome do álbum lançado em Março, ProfJam pede-nos desculpa se, porventura, desafinar e diz-nos que o que importa é estar aqui. Concordamos com a segunda parte apenas pois, que se saiba, ninguém deu por nenhuma desafinação. Desde 2008 que por cá anda a engendrar rimas bem cuspidas e na tarde de domingo fomos uns felizes contemplados por assistirmos, bem em alta-definição, a uma actuação tão rica em lições de flow e poesia que ficámos, sem dúvida, com a dádiva de Joana e ProfJam, mais preenchidos.

Em “Festa Privada” entoava o refrão que, a todos, deve ter assentado bem: “Não é assim tão mau ser como sou, não é assim tão mau ser como és”, ensinando-nos que, realmente, a vida podia ser bem pior. E pode, pode pois… Mixtakes, com as suas mirabolantes 18 faixas, não nos traz só ‘mistakes’, traz também maravilhosas ‘mixtapes’ de lições de vida de quem sabe bem do que fala. ProfJam apresentou muito orgulho em actuar para todos nós no Sofar, pois muitas das suas músicas são criadas e gravadas no quarto. E que mal tem isso? O que importa é que as recebamos e possamos ouvir, ao vivo e em casa. Para o público do Sofar até rimou à cappella, deixando-nos de boca aberta com a sua capacidade de memória e dicção, numa espécie de batalha contra si mesmo.

Com “Lo-fi” e “Queq Queres”, através da letra mordaz “o peso da minha caneta partia-te o braço e a dor de cotovelo impedia que ele dobrasse”, proferida com as ganas todas do mundo, ProfJam provou, ainda, a imensa capacidade heterogénea da sua voz, cheia e madura. Em “David”, deixámos arrepiar-nos com a letra e a intensidade na energia contagiante, sempre com o beat bem aceso pelas mãos de Mike El Nite, nas quais a poesia nos fazia querer levantar do sítio onde nos tínhamos sentado, ouvindo “cada vez que os meus olhos sobem, eles olham para o céu, sem a luz eles somem, Natureza Deusa, beija-me só Mãe! Ajuda o teu Filho agora a fazer-se Homem!” O rap nacional está de boa saúde e recomenda-se, sendo antídoto certo para muitas maleitas. ProfJam tinha muitos cartuchos para gastar e renovou a ideia de que um Sofar Sounds de colossal sucesso é aquele que prima pela diversidade musical dos seus artistas. Já quase não tínhamos fôlego com a presença dos dois rappers quando começa, de novo, o palco a adaptar-se para o concerto seguinte, deixando-nos com água na boca.

Prof Jam & Mike El Nite @ Workhub, Sofar Sounds

Prof Jam & Mike El Nite @ Workhub, Sofar Sounds

E eis que entram os quatro Galgo – Alexandre Sousa (voz, teclas e guitarra), João Figueiras (baixo), Miguel Figueiredo (guitarra) e Joana Batista (voz e bateria), and the show must go on, a todo o gás. Posicionados, começam logo a tentar partir a louça imaginária da sala, deixando o público em sobressalto. Que bela forma de terminar mais uma edição do Sofar Sounds Lisbon! Com a bateria da Joana a desmantelar um exército inteiro e com as duas guitarras em debate aceso, o clima é explosivo, desaguando na pertinente acção do baixo de João. As bochechas de Alexandre Sousa avermelharam-se com a sua entrega total à actuação e o disco Pensar Faz Emagrecer foi devidamente testemunhado, galgando o sopro do Lisbon Work Hub e todos os presentes. O álbum, que sucede ao ep5 de 2015, foi produzido, gravado, misturado e masterizado por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim, no HAUS, e devia estar a soar nos vossos ouvidos, pois é demasiado bom para estar em silêncio. Os Galgo pisaram também o palco do Reverence Valada e, na verdade, qualquer palco por eles pisado promete um espectáculo brutal.

De ritmo bem marcado, foi com “Lugia”, “Skela” e “Pivot” que fomos sendo empurrados para um estado de absorção tremendamente psicadélica. Com pitada de Foals em boda com os Arctic Monkeys, e ainda pedacinhos de Explosions In The Sky, os Galgo nunca desiludiram; fizeram, até, com que tudo parecesse tão fácil de tocar. Com um rock instrumental de maior idade e de um jeitinho alucinante muito saboroso, os quatro foram incansáveis na tarefa. As teclas de Alexandre, ressoando aos rugidos de Manzarek, fizeram-no dizer que actuar no Sofar era intimista, mas também muito intimidante. Da nossa parte foi um tremendo prazer.

À Joana Barra Vaz, ao ProfJam e aos Galgo só podemos agradecer o prazer sem tamanho de nos terem oferecido três concertos fascinantes, de arrebatar a alma num domingo para o episódio ‘história de domingos épicos’.  Estamos de barriga cheia, mas aguardamos já a próxima aventura.