Mais um domingo de quase Primavera e mais um Sofar Sounds Lisbon, desta vez no Príncipe Real, n’A Sociedade, um estúdio perfeitamente equipado com uma cozinha topo de gama e pejado de uma luz própria muito bonita dedicado a workshops e ateliers de gastronomia que não completou sequer um ano de existência. Foi assim que, entre inspirações de deliciosos pratos, cidras, maçãs e vários dedos de conversa, se deu por inaugurada mais uma edição de surpresas musicais que causam, igualmente, água na boca.

Manuel Dordio apresentou-se como o primeiro intérprete do serão. De camisa às flores e cordas na mão provou haver, em território nacional – e com todo o respeito implicado -, muito para além de Norberto Lobo. Entre as suas mãos, firmes e concentradas, e as melodias que deixava correr, Dordio trouxe um belo chorinho aos curiosos, sem causar pranto a ninguém. Ostentou composições próprias e outras de terceiros, frisando que o importante é o valor musical de cada tema e as trocas entre artistas, enquanto agradecia aos presentes que compuseram a audiência do Sofar terem vindo escutar um músico desconhecido como ele. Tocou “Mindelo”, faixa de um compositor cabo-verdiano, e ninguém ficou indiferente à sua exibição.

Manuel, que tanto actua a solo como acompanhando outros artistas como Samuel Úria ou Márcia, entre tantos outros, provou construir todo o sentido no palco do Sofar, entre nuances que representaram, e muito bem, temas seus e temas de outros, como confessou ao público, num delicado trabalho de memória, pauta mental e improviso. Foram vários os filmes que surgiram pela cabeça nesses instantes que passaram a correr e ficou, isso sim, uma enorme vontade de eternizar aquelas melodias, tão ímpares. Terminou com “Leila”, permitindo-se a um autêntico deleite em formato guitarra acústica ao mesmo tempo que deixava os ouvidos do público em escuta total como um rastilho que depressa se propagou por toda a sala d’A Sociedade, a todos inflamando da nobre arte de dedilhar as cordas e trazendo nas suas melodias a promessa, absoluta, da Primavera.

Manuel Dordio @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisboa

Manuel Dordio @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisbon

Filipe Sambado assomou-se para dar forma à segunda actuação do Sofar. Trouxe Vida Salgada, uma belíssima obra lançada em Março do ano passado, com assinatura Spring Toast Records e Maternidade, e que se seguiu aos EPs Isto Não É Coisa Para Voltar A Acontecer e 1234 de 2012, e o também EP Ups, Fiz Isto Outra Vez de 2014. Não sendo a sua estreia no Sofar Sounds – Sambado já havia actuado com os Chibazqui e com os Cochaise -, deixou de lado as suas asas, pousadas entre uma timidez exótica e uma beleza tão nobre, e substituiu-as por riffs e pequenos cristais que saíam da voz tornada poema com referências às múltiplas dores de crescimento causadas por todos os estágios da vida – os voluntários e os involuntários -, evoluções e dúvidas, mudanças de ares, e sempre o mar, e sempre o sal, e essa navegação em vaivém. “Tou Confuso” soou com alguns gramas de psicadelismo e assimilou o receio das perdas e a chegada das responsabilidades:

Já ‘tamos habituados a viver com dores no peito
Dizer o que já foi dito fazer o que já foi feito
Desta feita à sexta ainda não foi de vez
‘Tou crescido mas não sei fazer as contas que Deus fez.

O mar e o sal contemplaram constantemente Sambado e a sua presença, tão marcante e icónica ora pela postura que acolhe em que há um claro contraste entre a fragilidade das letras, ora pela emoção absolutamente transparente e sublime, aparece sem tocar, nem ao de leve na húbris da sua música e da sua performance, com detalhes de uma intimidade muito terna. Com uma posição errante, entre norte e sul, Filipe Sambado comprovou o poder dos binómios e o poder de cantar o mar e as fragilidades com muita robustez e génio. O batom, o verniz nas unhas, o corte de cabelo: Filipe é e será sempre o que quiser, e privilegiados aqueles que o puderem receber em primeira mão e o viram jogar, com tanta agilidade, com as pressões sociais de género e de representação, concebendo à sua vontade as suas vontades e a sua arte.

O arranjo de Vida Salgada pressupõe mais instrumentos mas, desta feita, Filipe apresentou-se a solo, e trouxe ainda mais melancolia à sua actuação, estando por sua conta e cantando reminiscências do Alentejo, do Algarve e de demais paragens. Sem, contudo, sucumbir a um saudosismo impossível de suportar, antes traduzindo, em música, várias sensações e momentos da vida que é sua e de mais ninguém. Com “Aprender E Ensinar”, um dos mais belos temas do disco, cantou as voltas nómadas:

Já lavrei terra no campo
Já lancei redes ao mar
Agora vim pra a cidade
Aprender
E ensinar a amar.

Pautado por muito lirismo e uma guitarra sempre presente, Sambado trouxe de vento em vento, e de mudança em mudança, o amor, a esperança, a amizade e perseverança que não cessam, jamais. É possível haver comoção profunda, sobretudo, com um só homem e a sua guitarra. E que comoção.

Filipe Sambado @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisboa

Filipe Sambado @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisbon

Filipe Catto chegou para encerrar mais um ciclo de Sofar bordado a três pontos, agindo como um furacão imparável. O brasileiro, titular do EP Saga de 2009, e dos álbuns Fôlego de 2011, Entre Cabelos, Olhos e Furacões de 2013, e Tomada de 2015, é o tipo de intérprete que ao acabar de pronunciar uma nota musical, é capaz de deixar uma plateia boquiaberta. Com a curiosa audiência do Sofar, onde se sentou Leo Middea desta vez como espectador, não houve excepção e o ambiente conseguido é tremendamente indescritível.

Catto é também o tipo de intérprete que, caso não se esteja a assistir ao vivo à sua actuação, causará dúvida nos ouvintes quanto a tratar-se de um homem ou de uma mulher. Assim, com a magia toda do seu lado e com um vozeirão híbrido entre a Elis Regina e o Ney Matogrosso, Filipe Catto é, sem dúvida, um diamante bruto e usufrui, sem margem para dúvidas, de ilustres traços que fariam corar Oscar Wilde ou estariam descritos em versos de Rimbaud ou Genet. A sua maturidade em palco é invejável e confronta os seus movimentos, tão frescos e graciosos, com um tão majestoso vigor que parece ter bebido da fonte da eterna juventude, tudo tecido a letras que, em certos tons, recordam o fado e as deambulações desse registo com toques de blues, MPB ou tango, mergulhado, por inteiro, em corações quebrados e outros tantos ainda por quebrar.

Em “Do Fundo do Coração”, composição de Júlio Barroso, contemporâneo de Cazuza e Lobão, Catto confessou que a letra parecia dirigir-se exclusivamente à sua existência, e entre sorrisos tímidos e outros de se perder o tamanho, provou estar vivo e bem vivo, dando a cada segundo o antídoto certo de um ser humano em máxima existência e máxima voz, dançando e saltitando entre os céus e os infernos. Catto fez-se acompanhar de Alexandre Bernardo no violão que, apesar de não o assistir frequentemente, esteve totalmente à altura da tarefa sem jamais perder o fôlego. Seguiu-se “Depois de Amanhã”, um dos temas mais magníficos de Catto e, infelizmente, ainda muito desconhecido por terras lusas. Agradecendo muito a presença do público e a intimidade que o fim de tarde permitia com os seus grandes e brilhantes olhos, Catto terminou com “Saga”, tema que compôs na juventude e que leva para todos os cantinhos do planeta, pela mão do disco Fôlego.

Certo é que Filipe tem ainda muito para dar e mostrar, e resta crer que chegará, com a arte que tem nas mãos e na voz e que brota como magma vivo, aos mais resistentes de emoções fortes e aos mais sensíveis de aspecto persistente. Os seus encantos escondem-se em cada poro e é isso que vale a pena aplaudir. O brasileiro actuará amanhã dia 4 no Theatro Circo em Braga depois de ter actuado no Time Out Lisboa no dia 2, desta vez acompanhado da banda. É um convite para quem quiser repetir a dose, que jamais será igual, ou para quem quiser conhecer, ao vivo e a cores, Catto e o seu brilho inigualável como se se tratasse de uma estátua viva de All Stars nos pés e envergando belas e sedosas vestes.

Filipe Catto @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisboa

Filipe Catto @ A Sociedade, Sofar Sounds Lisboa

Esta sessão, que acabou por ser totalmente lusófona, ainda que as cordas de Manuel Dordio não falassem português – antes uma língua universal -, com a dupla de maravilhosos Filipes provou, com perícia, as capacidades fabulosas do Sofar em encontrar artistas, bandas e públicos em perfeita harmonia, não permitindo que existam barreiras entre os dois universos e permitindo que os serões de domingo virem o disco e não toquem, de todo, o mesmo.