Para rematar a questão sem grandes delongas, a música dos Soft Kill não serve de banda sonora para momentos felizes. Será dançável, catártica, exorcista, celebratória, até, mas raramente feliz. Talvez essa seja uma condição transversal, intrínseca e indissociável a todo o post-punk e à maioria do shoegaze construído nos seus momentos seminais, nos 80s, e que mais tarde teve continuidade no revivalismo dos 00s.

Certo é que em qualquer momento da sua história, desde os Joy Division aos The Horrors, de tendência mais goth ou experimental, de atmosfera mais carregada e negra ou mais contemplativa e sonhadora, o som que brotou do punk dos 70s e da new wave é o espelho de um estado emocional a pender quase sempre para as esferas mais introspectivas e solitárias.

Os Soft Kill fazem parte de uma nova geração de bandas que assimilaram os melhores ensinamentos do post-punk de antigamente e que com eles souberam trabalhar uma sonoridade que poderia muito bem ser colocada em qualquer década, não fossem pequenos detalhes aqui e ali a denunciarem a frescura contemporânea de um género que pouco varia nos elementos principais que o caracterizam – as distorções, as guitarras cristalinas, os drum beats potentes, as vozes barítonas (ou a fingir que o são) – mas que, surpreendentemente, se tem sabido renovar, reinventar, e manter interessante e relevante.

Proveniente de Portland, Oregon, o quarteto composto Tobias Grave, Conrad Vollmer, Owen Glendower e Adam Bulgasem puxa claramente os cordelinhos goth de forma mais vincada que a maioria do post-punk actual, uma afinidade especialmente explorada no segundo álbum da banda, Heresy. Os norte-americanos, que apesar da nacionalidade transpiram britaniedade por todos os acordes, editaram já quatro registos de estúdio de longa-duração: An Open Door de 2011, Circle Of Trees de 2013, Heresy de 2015 e Choke de 2016 (este último obrigatório na prateleira de qualquer post-punker digno desse nome), e estão neste momento a caminho do seu quinto álbum.

Savior sai a 11 de Maio e marca a estreia dos Soft Kill a editar pela Profound Lore Records. O álbum é apresentado pelo primeiro tema de avanço, “Dancing On Glass”, que não se fixa exclusivamente nos registos mais soturnos e densos de experiências emocionais chicoteadas a cada beat, e se abre a um outro mundo de sons, principalmente de tom shoegaze.

Com paisagens mais largas e melodias a pisar o terreno dos The Cure, dos The Chameleons – uma das influências da banda, e uma admiração que deu frutos no tema “On The Inside”, com a colaboração de Mark Burgess -, The Cult e dos contemporâneos Soviet Soviet, a música dos norte-americanos denotam uma sensibilidade transferida para um formato canção mais trabalhado, delicado e menos em bruto. Os Soft Kill andam actualmente em digressão pelos Estados Unidos com os Choir Boy.

Savior
01. Swaddle
02. Trying Not To Die
03. Bunny Room
04. Savior
05. Missing
06. Changing Days
07. Dancing on Glass
08. Cry  Now Cry Later
09. Do You Feel Nothing
10. Hard Candy