Se Robert Smith se juntasse a Mac DeMarco e entre a felicidade e a amargura criassem um ambiente e uma sonoridade, seria provavelmente algo semelhante a “Sweet Sound of Ignorance”, o novo tema de SoKo.
Homenageando todos os criativos introvertidos, anti-sociais, tímidos, solitários e ansiosos, SoKo escreveu uma carta e apresentou este tema – que surge após um hiato de dois anos que durava já desde o álbum My Dreams Dictate My Reality –, aos seus fiéis seguidores e a todos aqueles que o passem agora a ser. Entre a urgência de receber aprovação e carinho de terceiros e a assídua atracção pela privacidade e pelos casulos fechados, SoKo encaminha-se com velocidade para uma posição de culto, bem regada com a sua voz rouca de sotaque francês, e conduzida por uma representação visual sempre muito marcante e desigual.

SoKo encontra-se então em Nova Iorque a gravar o seu próximo álbum e obriga-se, assim, a sair de várias zonas de conforto. Pela forma como todas as suas estruturas pessoais se reflectem nas criações artísticas e musicais, o peso e a medida de cada acção tomam proporções estrondosas sem olhar a escudos protectores ou mecanismos de defesa. Cada coisa é como é, sem fingimentos, e já se tornou raro receber temas que não contenham máscaras ou aditivos de larga escala. Este tema marca, portanto, o regresso de Stéphanie Sokolinski a um hipotético campo de batalha interior, lutando entre guerras íntimas e a satisfação e sentido de cumprimento das vontades que resultam de um processo de introspecção que é, muito depressa, doloroso e complicado de gerir.

Se se atentar somente à melodia, não parecem existir grandes razões para infelicidade. Contudo, se porventura se escutar a letra com atenção, é transparente a carga agridoce com os seus habituais contrastes. Consoante o mood de cada um é possível transformar esta faixa em duas audições muito distintas e, com isso, cada um opta pelo tom que quer dar a “Sweet Sound of Ignorance”. O vídeo, que tem realização da própria SoKo, medita em torno do espaço e tempo de infância, com ambientes de brincadeira e despreocupação, permitidos pela promissora ausência de responsabilidades e dores maiores. Usando um pijama com o Mickey, SoKo é SoKo, presente numa realidade que recorda os desenhos-animados, com cores garridas e intenções berrantes em que tudo é almofadado e não provoca feridas.

Num arco-íris de choques entre o lado emo e depressivo, o lado girly e tomboy, o lado goth, o lado da fantasia e o violento contacto com a realidade, SoKo encontra duas sósias que a acompanham na sua coreografia e ainda vários fantoches de meias, peluches, coelhos brancos, confetis, purpurina e muita, muita cor a contrastar com o seu cabelo negro escuro. O seu estado vulnerável, frágil – humano, portanto -, é justamente ilustre na letra, e é aí que a percepção se torna mais geral e paradigmática e não tanto exclusiva de SoKo, pois essa é uma circunstância que acode a muitos: o de ser, tantas vezes, uma incongruência.

SoKo encontrou a sua casinha de bonecas e entra e sai dessa morada quando e como quer num hino a todos os que não se vêem por inteiro e a todos os que arranjam existências paralelas à mais banal e mundana de todas.