Some Ember - Some Ember
75%Overall Score

Desde há poucos anos para cá muito se têm ouvido termos como darkwave, goth e mesmo industrial aplicados a nomes que muito ou mesmo nada terão em comum com esses mundos. Ou terão, mas de uma forma mais ou menos forçada ou, em termos de influência, muito distante. Zola Jesus viu-se marcada como um nova diva gótica e os Trust de Robert Alfons como a versão “Goth For The Dancefloor”. Servindo como porta de entrada para esse mundo aos desconhecedores e a quem esteja interessado em explorar… é entrar por aqui.

Curiosamente oriundos do calor da Califórnia, os Some Ember carregam para uma sala escura que é este disco tortuoso nomes como Clan Of Xymox, Skinny Puppy, Depeche Mode, Midnight Configuration, Xeno & Oaklander ou Led Er Est. Vá, é de tomar nota dos nomes estranhos que vão aparecer neste texto e ir à descoberta do maravilhoso mundo dark do gótico, industrial e da cold wave minimalista de berço francês, mas com principal morada fiscal em Brooklyn, NY .

O objetivo final de qualquer peça de arte é, penso que sem discussão, deixar uma marca no mundo ou, na mais íntima das hipóteses, no mundo de alguém. Nina Chase e Dylan Travis, a.k.a. Some Ember, sabem-no fazer… oh, meu deus, como eles o sabem fazer. Aos 30 segundos de “River Walker”, a faixa de abertura de Some Ember, o disco, a descarga de beats em velocidade e o grito lancinante de terror saído das cordas vocais de Dylan de forma absolutamente surpreendente e que se transforma de seguida numa lenta sessão de tortura que de alguma forma te retira cada ínfimo vestígio de ar dos pulmões e te lança por terra à mercê de um qualquer assassino em série, um predador sexual, um psicopata demente de vestes negras e pedaços de corpos a adornar o casaco, não te deixam mais voltar a sair desta pequena e minimalista casa dos horrores. É disto que se trata aqui. És vendado, abduzido, arrastado e levado para uma sala escura. Há instrumentos lindíssimos, destinados todos eles, um a um, a retirar de ti os mais requintados momentos de dor.

“Shards” entra pelo mais simples caminho possível. Um ritmo (de)cadente, a voz angustiada e o trabalho de sintetizadores coldwave francesa que terminam numa espiral de noise lançada à bruta para o início de “Shinning”, canção que de filha bastarda de Sisters Of Mercy em “Body Electric” tem muito pouco. Se houvesse dúvidas da pureza da casta deste disco, estavam aqui desfeitas, com o selo de garantia goth trade mark. “Morning Jewelry” e “The Trashing Whip” são Depeche Mode acabados de nascer e a devorar SPK e Throbbing Gristle, mas sempre com a voz de Martin Gore na frente dos lamentos. Não há aqui a sexyness lânguida de Dave Gahan, há sim a certeza cirúrgica de uma dança triste e sem fim tão há semelhança de Joyland dos Trust. São movimentações techno, mas sempre carregadas de um desespero tão grande que mesmo toda a sexualidade/sensualidade latente em praticamente todos os temas é mais um exercício twisted de sexo violento e bizarro. “N.Green” é o exemplo mais que perfeito disso; uma verdadeira banda-sonora, tal como todo este Some Ember, para um clube BDSM. “Hotel” é um tributo a Michael Gira e aos Swans de Chidren Of God. Sem dúvida o grande momento do disco. Épico, ritualista, com algo de quase étnico ou de outro mundo e uma profundidade na voz insustentável a qualquer outra condição que não seja a de o derrube de uma lágrima.

Seja ao prazer ou à dor ou à incerta cumplicidade entre ambos, este disco é um monumento único.